O Vidente

Vimos o mundo aceso nos seus olhos,

E por os ter olhado nós ficámos

Penetrados de força e de destino.

 

Ele deu carne àquilo que sonhámos,

E a nossa vida abriu-se, iluminada

Pelas imagens de oiro que ele vira,

 

Veio dizer-nos qual a nossa raça,

Anunciou-nos a pátria nunca vista,

E a sua perfeição era o sinal

De que as coisas sonhadas existiam.

 

Vimo-lo voltar das multidões

Com o olhar azulado de visões

Como se tivesse ido sempre só.

 

Tinha a face voltada para a luz,

Intacto caminhava entre os horrores,

Interior à alma como um conto.

 

E ei-lo caído à beira do caminho,

Ele — o que partira com mais força

Ele — o que partira pra mais longe.

 

Porque o ergueste assim como um sinal?

Pusemos tantos sonhos em seu nome!

Como iremos além da encruzilhada

Onde os seus olhos de astro se quebraram?

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

In Poesia, 1944

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