Às Terças Com...

A-Deus

Se me perguntarem em que momento é que Deus entrou na minha vida, não saberei responder de forma exacta. Sempre esteve aqui, sempre fez parte, sempre foi parte dos dias.

Quando penso neste tema, sou invariavelmente levada às memórias da infância, em casa da Tia D. e da (bis)Avó C. , daAvó M. , daAvó E.
Vejo-me com 3-4 anos, a preparar-me para dormir no quarto da Avó C. ou da Avó M. , oiço o tic-tac do relógio de pêndulo na parede… e recordo a simplicidade com que cada dia era terminado com o sinal da cruz, o agradecimento pela vida e o pedido para que todos os “seus” fossem protegidos. Também eu aprendi a fazer o sinal da cruz, ainda sem saber que era o sinal dos cristãos – e que me acompanharia sempre.

Aprendi as orações que nos protegiam das trovoadas. Aprendi a rezar à Virgem Maria e ao Deus- Menino, com palavras que não entendia. Mas essas palavras, decoradas, ajudaram a que, ao crescer, fosse aprendendo a usar as minhas próprias palavras para conversar com Deus.

Lembro-me da Avó E. , curvada sobre a sua bengala – como sempre a conheci – a entrar na igreja, com o seu terço na mão. Ouvia mal, não acredito que entendesse tudo aquilo que o Prior dizia na homilia, mas enquanto as suas pernas lhe permitiram, lá estava ela, a pedir a proteção divina para toda a família.
Com ela aprendi também que devo ser organizada, que devo ter a minha casa limpa e aberta a receber quem vier por bem. A Avó E. falava de modo literal, mas a verdade é que aquilo que me ensinou se aplica tão bem à vida interior!…

Pela oração aproximamo-nos de Deus, mas também das pessoas – embora algumas não o entendam. A oração faz-nos melhores, porque mais sinceros, mais simples e transparentes. A oração aproxima- nos do Amor, de tal modo, que é preciso abrir as portas, e levar aos outros aquilo que nos alimenta e dá vida, verdadeiramente.

Com a Avó E. aprendi a gostar das pessoas, a conhecê-las e a cumprimentá-las pelo nome, a preocupar-me com o seu bem-estar. Aprendi a gostar da companhia das pessoas mais velhas, a escutá-las, a levar-lhes aquilo que a oração e a proximidade com Deus sempre me trouxeram: o Amor, a alegria de viver, o consolo, a esperança.

O que somos, construímos e partilhamos, precisa de uma base. Sólida, de preferência.
Sei que a minha está em Deus, nas pessoas, e nas relações – de proximidade, confiança e partilha. E por mais que quisesse identificar onde começa uma parte e acaba outra, não conseguiria. Porque sempre estiveram aqui, sempre fizeram parte, sempre foram parte dos dias.

Helena Tirapicos da Rosa

 

* Escrevo este texto a pensar na Avó E. , que já não celebrou o último Natal connosco. Deus quis chamá-la uns dias antes, para que pudesse com Ele celebrar a festa do nascimento de Jesus – em paz.
Pela importância que teve na minha formação pessoal (e embora não estando fisicamente), ela sempre estará aqui, sempre fará parte, sempre será parte dos dias.

2 Comments
  • MARIA MELRO on Janeiro 17, 2017

    QUE TESTEMUNHO! OBRIGADA

    • Helena on Janeiro 18, 2017

      Obrigada Maria!
      Vá passando, que agora todas as terças-feiras haverá um cronista diferente por aqui.