Às Terças Com...

O que naquelas cabeças vai

Dentre muitas estórias que ajudam a moralizar costumes, vou contar uma em que a protagonista é a Dona Elvira (nome fictício). A Dona Elvira morava no 4.º esquerdo. Era uma senhora baixa e arranjadinha, estilo anos sessenta. Conservava grande agilidade, tão grande que nem parecia a idade que tinha. É possível que tivesse essa agilidade porque não tinha outro remédio! Vivia só. Ficou sem ninguém neste mundo desde que lhe faleceu o marido, que Deus haja. Todos os vizinhos a conheciam bem. Todos a viam descer as escadas de lenço na cabeça e saco das compras na mão, tal como todos tinham subido ou descido com ela no elevador. Numa coisa era igual às vizinhas: a língua era mais ou menos pequena no tamanho, mas grande quando era preciso comentar as últimas novidades do Bairro. Sobre a vizinha do rés-do-chão, uma moçoila bem parecida, é que tinha sempre uns comentários menos agradáveis, porque – sabem como é – a juventude de agora ninguém a entende!

E aquela moça servia-lhe de mote para se queixar também dos preços que estão a ficar impossíveis e dos costumes e das modas que encaminham esta gente para a perdição. O que naquela cabeça ia! – exatamente o mesmo que vai nas cabeças de muita gente de agora. Acontece que a Dona Elvira, de um dia para o outro, foi alvo de uma reviravolta de 180º, e tudo por causa de uma nota de 50 euros. O caso foi que a perdera. Lembrava-se que tinha o saco das compras na mão esquerda e o porta-moedas um pouco aberto na outra. “Foi de certeza no elevador”, pensou ela. Muita coisa lhe tinha acontecido na vida, mas perder aquela nota era algo com que não sonhara. Mesmo duvidando do resultado, idealizou um estratagema: escreveu à mão, numa letra bonita, um pequeno letreiro que colou no elevador com estes dizeres: “se alguém encontrou neste elevador uma nota de 50 euros é favor avisar a senhora do 4.º esquerdo. Obrigada”. A Dona Elvira não acreditava que, nos nossos tempos, houvesse quem, encontrando a nota, a devolvesse. Mesmo assim, foi à igreja do Bairro rezar o responso a Santo António bendito…

Por volta das seis da tarde, o senhor do 5.º direito, que regressava do armazém, bateu à porta da Dona Elvira. “Boa tarde, Dona Elvira. Teve sorte. Esta manhã, encontrei a nota que…” – e não disse mais nada porque a Dona Elvira agarrou-se-lhe ao pescoço com um sufoco de quem precisava de desabafar. “Desculpe, sou uma tola. Você diz que encontrou a nota? Olhe que a senhora aqui do lado também disse, e a menina do terceiro, tal como a do rés-do-chão, também disseram que a encontraram… Quer saber uma coisa? Antes de toda essa gente maravilhosa ter encontrado a nota, já eu tinha dado por ela no bolso do casaco”. Quando o senhor do 5.º direito se foi embora, ainda a Dona Elvira chorava como uma tolinha. Ela que tinha pensado que as pessoas de hoje são tão… sei lá! – O mais bonito é que esta estória não é uma estória. Acontece sempre que alguns corações bondosos se transformam em corações belos – o que nos ajuda a saber o que naquelas cabeças vai!

Cónego Manuel Maria

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