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Homilia da Entrada Solene de D. Francisco Senra Coelho

na Arquidiocese de Évora

2 de Setembro de 2018 – Catedral de Évora

1. Senhor Núncio Apostólico em Portugal, Dom Rino Passigato, saúdo, com amizade, Vossa Excelência Reverendíssima e, na sua veneranda pessoa, saúdo o Santo Padre, a quem agradeço a confiança ao enviar-me como Bispo para a vetusta Igreja Eborense, e manifesto a minha Comunhão com a sua pessoa, o seu Magistério, a sua profética e corajosa proposta e o seu compromisso em prol da renovação da Igreja. Comigo, a Igreja Eborense, neste momento e sempre, se une ao Papa, em profunda Comunhão e o coloca na sua permanente oração, confiante nos esforços empreendidos em mostrar ao mundo uma Igreja acolhedora, familiar, transparente e coerente.

2. Estimados irmãos no Episcopado, muito obrigado pela vossa presença! A vossa participação nesta Celebração testemunha a unidade da Igreja Católica em Portugal. Seja-me permitido saudar ainda pessoalmente a alguns Irmãos Bispos.

– D. Manuel Clemente e D. António Marto, muito obrigado pela vossa presença, a qual fortalece ainda mais a comunhão do colégio Episcopal e com o Sucessor de Pedro.

– D. José Alves, muito obrigado pela sua fidelidade a Deus e à Igreja, pelo seu dedicado serviço à nossa Arquidiocese. É para a Igreja eborense uma alegria saber da sua decisão de ficar entre nós, pois muito contamos com a sua sábia experiência, testemunho de vida e fraterna amizade.

– Ao D. Maurílio de Gouveia, que está espiritualmente unido a nós, no Eremitério do seu sofrimento, onde muito recentemente o visitei. Aí contempla, na serenidade e na paz, a beleza da Fidelidade a Deus e o encanto de, ao longo de mais de 60 anos, ter servido, com o melhor de si, a Esposa de Cristo, a Igreja. Para todos, trago os seus Cumprimentos. Permanecemos unidos a si, D. Maurílio, por meio da oração.

– D. Jorge Ortiga, Pastor da Arquidiocese onde permanecem as minhas origens familiares e onde iniciei o meu ministério Episcopal, muito obrigado pela maneira como me acolheu e pela confiança que em mim depositou. Que a Imaculada Conceição do Sameiro o continue acompanhar com o seu manto maternal e, com o caríssimo D. Nuno de Almeida, meu bom amigo e companheiro de Ministério, façam acontecer a Beleza da Comunhão e da Unidade no reflexo da Santíssima Trindade.

– D. Manuel Madureira Dias, dou graças a Deus pela sua presença e permanência no meio de nós. Conto sempre com a sua sábia experiência.

3. Uma palavra de boas vindas ao Sr. Duque de Bragança, agradecendo a sua presença nesta Celebração. Vossa Alteza faz parte da História viva desta Nação, desta cidade e desta Arquidiocese.

4. Cumprimento e agradeço a presença das Exmas Autoridades civis, militares, de Segurança e académicas. Cumprimento e agradeço também a presença dos Srs. presidentes das Câmaras Municipais, das Assembleias Municipais e Executivos. Querendo Deus, teremos tempo e oportunidade para dialogar e cooperar na edificação do bem comum, a favor das populações. Bem-hajam!

5. Não levarão a mal que eu, neste dia, com muito carinho e gratidão, vos apresente a minha mãe, que nos seus 83 anos, decidiu deixar tudo e vir comigo, para que eu tenha todo o tempo para vós. Muito obrigado, Mãe! E, nela, saúde e agradeça a toda a minha família, que se quis unir nesta celebração, os irmãos vindos da Arquidiocese de Braga, aos padres e amigos do Minho, particularmente os grupos organizados de Barcelos, Adães e da Comissão Arquidiocesana do Laicado e da Família, com os seus diversos movimentos. Muito obrigado pela vossa presença!

6. Por fim, desejo saudar, todos e cada um de vós e em vós, abraço todos os cristãos, da minha querida e amada Arquidiocese de Évora. Na peugada de Santo Agostinho, gostaria de vos poder dizer que “convosco sou Cristão e para vós sou Bispo”: que eu seja todo de Deus, todo da Igreja, todo vosso!

– Saúdo-vos, com o olhar do meu coração e profunda amizade, caros Padres, com quem partilhei a vida ao longo de 28 anos de Ministério, particularmente vós, Padres doentes e idosos, que com heróica generosidade continuais a servir até ao fim e também quisestes estar aqui hoje.

– Saúdo-vos, caros Diáconos Permanentes, as vossas esposas, as vossas famílias, as vossas Comunidades e a vossa missão. Sois a esperançosa presença da Igreja junto da humanidade, sinais vivos de serviço em união com o Bispo e o seu Presbitério.

– Saúdo-vos com gratidão e especial afecto, membros dos Institutos de Vida Consagrada, de vida contemplativa (as Monjas de Santa Beatriz, as Monjas de Belém e os Cartuxos) e de vida ativa, membros de Institutos Seculares e de outras formas de consagração, compromisso e disponibilidade. Sois sinal do Reino de Deus que já chegou e anunciais, desde já, a vinda gloriosa do Ressuscitado!

– Saúdo-vos, caros seminaristas e formadores dos três Seminários presentes na Arquidiocese. Sois o futuro promissor da Igreja. Sois um tesouro, porque, em vós, vigia a luz de Deus.

– Saúdo-vos queridos amigos e irmãos leigos desta querida Arquidiocese de Évora! Na alegria de estar convosco, vejo-vos como Corpo de Cristo. Convosco e em vós transfiguro Cristo ressuscitado a acolher o meu pobre “Sim” e a enviar-me convosco em missão: “Todos, tudo e sempre em Missão”, porque somos, por vocação baptismal, Discípulos missionários!

A ti, que és discípulo missionário, chamado a semear nesta Igreja o Dom Profético no anúncio vivo da Palavra, desejo compartilhar contigo a missão, porque te dedicas ao serviço comunitário do anúncio e aprofundamento da Palavra de Deus; a ti, que és discípulo missionário e dedicas o teu compromisso comunitário, preferencialmente ao serviço da Liturgia, a minha comunhão na oração; a ti, que és discípulo missionário, chamado a ser Pastoral profética e sócio-caritativa num amplo e mesmo compromisso de com todos mostrar o Coração paterno e materno de Deus e por todos concretizas o mandamento novo em obras de misericórdia; a ti, que és discípulo missionário, e não pudeste estar fisicamente aqui, mas estás connosco, através dos meios de comunicação social, recebe o meu fraterno, amigo e reconhecidíssimo abraço!

Contigo, que és discípulo missionário, coloco o meu Ministério nas mãos da Mãe de Jesus e da Igreja, Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da Arquidiocese. Que o pálio que recebi, e levo sobre os ombros, tecido com lã de ovelha e abençoada pelo Sucessor de Pedro, me faça lembrar sempre as ovelhas mais frágeis e carentes. O termo palium tem a mesma origem etimológica do termo paliativo: que ele me cubra e proteja com a Misericórdia de Deus e, comigo, a todos os pobres e a todos os que têm fome e sede de justiça. E assim: Bispo, Padres, Diáconos, Consagrados, Consagradas e Leigos, todos juntos, com Cristo, fomos, somos e seremos DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS!

7. O Evangelho de S. Marcos, servindo-se de uma narrativa espontânea e ainda sem grande elaboração, mostra-nos hoje, como os fariseus, vindos de Jerusalém, ao verificarem que os Discípulos tomavam as refeições sem antes realizar o ritual da purificação das mãos, se escandalizavam com Jesus. Perante o escândalo dos Fariseus, Jesus denuncia as vivências Religiosas que apostam apenas na repetição de práticas externas e formais, sem se preocupar com a vontade de Deus e com as necessidades dos Irmãos. A estes, Jesus chama hipócritas, mais preocupados com a aparência do que com o ser, cumprem regras, mas não amam e, por isso, não servem, mas servem-se de Deus para se imporem e dominarem os outros.

A verdadeira preocupação do Discípulo de Jesus é moldar o seu coração para que os seus desejos, sentimentos, pensamentos, projetos e decisões se concretizem no seu quotidiano, iluminados por critérios Evangélicos, os quais levam a desafios de verdade, transparência e humanização. Sim, a vivência da verdadeira relação com Deus levar-nos-á sempre a aprofundar a nossa Comunhão com todos os seres humanos e alargar a nossa tenda interior ao acolhimento, à tolerância e à construção do Bem Comum, a Paz.

O legalismo religioso deturpa e caricaturiza a verdadeira relação com a beleza de Deus; no seu entendimento, cumpridas todas as regras e prescrições, Deus seria apenas chamado para apreciar e testemunhar o nosso esforço e para nos atribuir o prémio que reclamamos. Este orgulho leva à soberba da auto-suficiência, da auto-contemplação e da auto-salvação. Reside nesta compreensão da religião a base de muitas atitudes fundamentalistas, soberbas, hipócritas e até violentas que todos reconhecemos e lamentamos na história e na atualidade. Não nos esqueçamos que o nosso Deus é próximo do Seu povo, confia-nos os Seus Mandamentos para que os guardemos e amemos com sabedoria e inteligência, saboreando assim, e desde já, a herança prometida àqueles que, na fidelidade ao Amor do seu Senhor, se tornam Seu Povo.

8. Como novo Israel, a Igreja Eborense revê-se no chamamento de Deus à humildade, à fidelidade e ao serviço. Só na transparente busca da Verdade, pela coerência, seremos uma Igreja acolhedora, uma família em tenda alargada; disponível e preparada para acolher todos o que chegam feridos pela vida, deserdados pelo abandono, e, por isso, buscam uma porta aberta de assumida humanização.

A proximidade que o Bom Pastor pede à Sua Igreja nasce da autêntica experiência do Seu Amor e da Sua libertação, para amarmos com o Amor com que somos amados. Só neste Amor Agápico, e não em estéreis e legais formalismos, é possível cuidar dos tecidos rasgados da Sociedade e da Igreja e refazer a plena confiança na possibilidade da partilha e da comunhão. Por isso, a Igreja de Évora pede humildemente, ao seu Senhor, o Dom da permanência e da docilidade na e à Sua Palavra. Importa abrir o Coração à Palavra semeada por Deus, para que esta possa lançar raízes e desenvolver-se nas nossas vidas e na vida das nossas Comunidades.

A escuta da Palavra de Deus conduz-nos ao abandono do homem velho e ao nascimento do homem novo, identificado com os valores e critérios de Cristo. Nunca a palavra de Deus nos fecha no intimismo autocentrado, estéril e alienante, mas abre-nos ao compromisso efetivo com a transformação humanizante do mundo, na cooperação com todos os humanos de boa vontade. “A religião pura e sem mancha aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo” (Tg 1, 27).

9. Com o Evangelho, sentimo-nos chamados a, em união com o Papa Francisco, estar na proximidade de todas as periferias; a sabermos acolher, consolar, cuidar e integrar nas nossas Comunidades os que chegam feridos pela desumanidade descartante de um mundo que tantas vezes se torna imundo.

A fidelidade à Palavra de Deus exige de nós estudo, formação e ação. À maneira do Bem-aventurado Paulo VI, queremos continuar e incentivar os pequenos grupos e comunidades, nas nossas opções de Evangelização. Sem esquecer a importância dos grandes encontros e eventos, sabemos que a respiração quotidiana da Fé acontece nos encontros personalizados, na partilha da Palavra, pela Lectio Divina e no compromisso fraterno e comunitário. Eis uma longa experiência da nossa Arquidiocese! Importa nunca desfalecermos!

10.Quem entrará no Santuário do Senhor? O que vive sem mancha, pratica a justiça e diz a verdade que tem no seu coração”.

Eis a tarefa e o testemunho que nos pedem com todo o direito os jovens neste tempo pré-sinodal: uma Igreja familiar, transparente e coerente.

Caros jovens, os sinais dos tempos convidam-nos a alargar horizontes de dádiva de vida e serviço voluntário, vós não sois só a Igreja do amanhã, sois já o hoje, o rosto jovem, primaveril, criativo e esperançoso da Igreja em renovação. Vós, jovens tendes voz e insubstituível lugar na Igreja, porque sois Igreja.

Quem entrará no Santuário do Senhor? Os que têm o coração jovem e, por isso, são criativos e conduzem consigo muitos irmãos às fontes da Salvação. Que as nossas Comunidades saibam convocar, chamar, confiar e enviar, apoiados pelos ministérios eclesiais, que são expressão e concretização da Comunhão e da Sinodalidade.

Estimados irmãos e irmãs, com as crianças, adolescentes e jovens, de mãos dadas pela paz, na tolerância e no respeito, aprendamos, com a Palavra de Deus, a construir a casa comum, comprometemo-nos com uma cultura ecológica global para olharmos para o futuro com esperança.

11. Em Ano Missionário, peçamos ao Senhor renovadas Graças, para que, com renovado entusiasmo, continuemos a ser Igreja em saída. Com a riqueza da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, sejamos profecia da nova Humanidade e semeadores de Esperança. “Que ninguém nos roube a Esperança!”

A Seara é grande e o trigo está maduro que ninguém se sinta inútil e incapaz, pois todos sabemos amar e fazer o bem, como proclamava o Santo Alentejano João de Deus, “Fazei o bem a vós mesmos Irmãos”.

Igreja de Évora convoco-Te para a Missão! O Sol vai alto! Vamos trabalhar para a Vinha do Senhor que, nesta porção da Humanidade, nos foi confiada! De mãos dadas, porque somos discípulos missionários, não nos esqueçamos: “Todos, tudo e sempre em Missão”. Amen.

+ Francisco, Arcebispo de Évora

tomada de posse