1 de Novembro: Homilia do Arcebispo de Évora no Dia da Universidade de Évora

Dia da Universidade de Évora

01.XI.2018

Ex.ma. Senhora Reitora da Universidade de Évora e demais autoridades presentes.

Ex.mos Senhores Professores,

Ex.mos Senhores Funcionários e colaboradores,

Rev.do Padre Fernando Ribeiro, Assistente Espiritual do Centro da Pastoral Universitária de Évora.

Caros estudantes, antigos alunos e amigos desta casa de saber.

Em vós, saúdo e felicito no seu Dia esta Universidade fundada a 1 de Novembro de 1559 pelo Arcebispo de Évora, o Cardeal D. Henrique, posteriormente Rei de Portugal, a segunda Universidade fundada em Portugal, após a fundação da Universidade de Coimbra em 1537.

Ainda que a primeira ideia da fundação desta Universidade a Sul do País tenha pertencido a D. João III, foi de fato o Cardeal D. Henrique quem concretizou a Universidade nesta cidade de Évora elevada a metrópole eclesiástica e então residência temporária da Corte.

Começou o Arcebispo de Évora por fundar o Colégio do Espírito Santo, confiado à então recém-constituída Companhia de Jesus. Ainda antes de se concluírem as obras do referido Colégio, já D. Henrique pedia ao Papa Paulo IV, a transformação do mesmo em Universidade plena, o que veio a acontecer em Abril de 1559 pela Bula “Cum a Nobis”. A inauguração aconteceu nesta Solenidade de Todos os Santos, há 459 anos.

Eis-nos aqui, de novo, a celebrar esta mesma Solenidade novamente em ambiente universitário, certamente, um desafio à nossa reflexão.

Qual o significado desta celebração de Todos os Santos?

Verificamos, que o Apóstolo Paulo nas suas Cartas, se dirige a Comunidades cristãs localizadas na época pela geografia Histórica, dirigindo-se a homens e mulheres presentes nas primitivas comunidades cristãs, algumas dessas pessoas são identificadas pelo próprio nome. S. Paulo chama-lhes Santos, por exemplo: “a todos os Santos que vivem na cidade de Filipos (Fil 1,1); “Aos santos e fiéis em Cristo Jesus que estão em Éfeso” (Ef1,1); “Aos irmãos em Cristo, Santos e fiéis que vivem em Colossos” (Col 1,2) e “A todos os Santos que estais em Roma, amados de Deus e chamados a ser Santos” (Rom 1,7).

Os Santos para S. Paulo, são aqueles que seguem Jesus Cristo, os discípulos do Senhor, os que já estão na Glória e os que ainda caminham nesta terra e fazem a peregrinação em direção ao Pai.

A Solenidade que hoje celebramos, lembra assim os Santos desta Igreja militante que também somos nós e os Santos de Jerusalém do Alto para onde ainda nos dirigimos. Aí os irmãos já glorificados, são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos escondidos no anonimato e na simplicidade de vidas comuns, uma multidão incontável como diz a primeira Leitura, “Depois disto vi uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap. 7,9). O número que o Apocalipse nos refere, 144.000 eleitos, é simbólico e foi obtido multiplicando o número das doze tribos de Israel por doze, que significa plenitude e, elevando depois o resultado de cento e quarenta e quatro a totalidade, ou seja, multiplicando por mil, o que significa multidão incontável. Assim, celebramos hoje a dádiva da vida, a entrega e o espírito de abnegação, afinal o amor de multidões incontáveis de seres humanos, que não tendo a honra dos altares, são modelos de vida e referências de humanidade. É, porém, também a festa de todos os Humanos que ainda nesta vida, desejam autenticamente, com acolhimento, coerência e transparência seguir os valores e critérios de Jesus Cristo. É a Solenidade em que temos consciência que Deus oferece o dom da santidade a todos os que se identificam com o Seu Filho, feito Homem.

Na reflexão teológica cristã, é dado ecuménico, que a santidade não é fruto exclusivo do nosso esforço heroico, nem é algo  reservado a um grupo restrito de pessoas com qualidades especiais, talvez génios da bondade e da verdade ou elite espiritual. Pelo contrário, a santidade é dom de Deus, pois só Ele é Santo, biblicamente “o Três vezes Santo”, e todos nós somos chamados a participar da Sua Santidade, amando os outros com o amor com que somos por Ele amados. Assim, ser santo é ser de Deus; ser santo é ser com Deus para os outros; é saber que nas lutas e sofrimentos de cada dia Ele está presente e nunca desiste da nossa felicidade; por isso, Ele se fez um de nós para mostrar o amor de Deus por nós; por isso, como nos recordou a 2ª Leitura todos somos filhos no Filho de Deus.

Ao fazer-se um de nós, Deus proclama que o Homem é o Seu caminho e a razão da dádiva da Sua vida. O Evangelho de hoje é assim uma autobiografia do Filho de Deus, mostrando-nos como Jesus viveu para que Ele seja também caminho para nós.

Sereis felizes se viverdes assim como Eu vivi! Poderemos sintetizar deste modo as Bem-aventuranças!

O texto do Evangelho indica o caminho de reencontro do ser humano com o projeto mais íntimo presente nas raízes do seu ser. O sempre insaciável Miguel Torga sintetizou a sua sede de absoluto na expressão “Que eu me cumpra!” e Santo Agostinho na expressão da beleza encontrada “Encontrei-te, Senhor, e só quando Te encontrei descansei”. Eis, uma peregrinação interior a realizar em cada um de nós na certeza de que há sempre mais em nós, como referiu Fernando Pessoa: “Dentro do homem, há muitas Índias por descobrir.”

As Bem-aventuranças são proposta de realização para a própria humanidade na sua história, através do encontro com a beleza que salva, o Amor, que para os crentes é Alguém que dá sentido ao cosmos e à vida.

Porque estamos numa universidade, recordemos um ensinamento do Papa Francisco em diálogo com os jovens franceses, quando diz: “A fé não é uma ideia, mas um Encontro”. É este encontro que hoje a palavra do Evangelho nos propõe, sempre na certeza que “o Amor não morreu”.

Ao encerrar-se recentemente, em Roma, o Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens, percebemos que para Jesus Cristo e para a Igreja, “Os jovens não têm preço”, eles merecem a dádiva da nossa vida e, por isso, cada jovem cristão há-de querer merecer a dádiva de Cristo fazendo sempre a opção pela entrega da vida e pela liberdade interior, porque sabe, que só é feliz quando se escolhe servir, dando o melhor de si.

Nestes tempos de acentuada invernia espiritual, vale a pena recordar que é no inverno que se cresce para dentro e as árvores criam cerne e mesmo quando os cristãos em certos ambientes se tornam num pequeno rebanho, são-no com grande coração.

Nesta Universidade, no passado atuaram vultos do saber filosófico e teológico da maior importância da época, como os nomes relevantes de Luís de Molina, Francisco Soárez ou Pedro da Fonseca, todos trabalhamos para que atue hoje e aqui uma geração de novos protagonistas das diversas ciências, capazes de ajudar a humanidade, o nosso país e a nossa região a ser mais feliz, sempre na valorização da humanização.

+ Francisco José – Arcebispo de Évora

Contactos