Catedral de Évora: Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria
Catedral de Évora – 8 de dezembro de 2019

 

1 – O segundo Domingo do Advento, este ano, coincide com a Solenidade da Imaculada Conceição. A liturgia convida a festejar Maria que, pela graça divina, foi concebida sem pecado. Neste Advento Maria ajuda-nos a perceber o que significa ter esperança: viver abertos aos planos de Deus.

Como afirmou o Papa Francisco: «Maria é o único oásis sempre verde da humanidade, a única não contaminada, criada imaculada para acolher plenamente com o seu sim, Deus que veio ao mundo e assim iniciar uma história nova». O dogma da fé católica que define a verdade de que Nossa Senhora foi preservada, desde a sua concepção, de toda a mancha do pecado, foi proclamada pelo Papa Beato Pio IX, a 8 de dezembro de 1854. Contudo, é antiquíssima esta afirmação teológica, pois foi o Papa Sisto IV, que em 1477, colocou a festa da Imaculada Conceição no calendário litúrgico.

A Carta aos Romanos afirma que a chave para compreender o sentido da vida se encontra na Bíblia, a Palavra de Deus: “Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança”.

      2 – Hoje, procuremos entender à luz da fé, como ter esperança através da consolação que nos vem da Palavra de Deus.

O cristão sabe qual é a meta, reconhece que ainda lhe falta lá chegar, está a caminho, deseja chegar à meta. Quem tem esperança diz: “Ainda não cheguei, mas hei de lá chegar”. Ao contrário, o desesperado diz: “Nunca serei capaz de lá chegar”. E o presunçoso diz: “Não há aonde chegar”. A Boa Nova de Jesus Cristo é para pessoas que esperam algo mais possível de alcançar. É assim que começa a renovação da vida pessoal e comunitária.

Quando “Deus percorria o jardim pela Brisa da tarde o homem e a sua mulher se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim” (Gn 3,8, continuamos a esconder-nos quando fazemos o mal. A fugir de nós mesmos, por medo, por vergonha, ou sem vergonha, quando os culpados “são os outros”, e habilmente contornamos leis e valores. Sempre pela ânsia do poder, de sermos “deuses em lugar de Deus”, de ser ricos, de manipular a verdade. E lá tem Deus de andar à nossa procura e chamar: “Onde estás? Porque te escondes de mim? Não tenhas medo. Eu quero que vivas, quero dar-te todo o amor”!

Não é esta a história da relação de Deus com a humanidade? Sempre o desejo do encontro; e tantos desencontros que provocamos! Às muitas vezes que deixámos que Deus nos encontrasse, sucederam-se tantas outras em que nos escondemos. Até que nasceu Maria, mortal como todos nós, verdadeiramente humana, mas tão totalmente voltada para Deus que nem o pecado a desviou de estar totalmente disponível para o encontro. Não se esconde de Deus e oferece-se para que Ele se faça totalmente presente. Vai ser Mãe do Filho, tão anunciado e tão esperado. Ao Deus connosco, consubstancial com o Pai, consubstancial com a nossa natureza humana, Maria responde: “Eis a serva do Senhor”.

 Maria é ótimo exemplo para nós que desejamos ter esperança. Não teve vida fácil como às vezes somos levados a pensar. Teve de assumir a gravidez sem estar casada. Teve de contar a José de quem estava noiva, na esperança de ser acolhida e não condenada. Como já conhecemos o final da história, podemos ver a sua vida de outra maneira. Far-nos-ia bem refletir sobre alguns desses constrangimentos que surgiram na vida de Maria. Pensais que foi fácil para ela «ver» Deus (sempre) presente na sua vida?

Não é óbvio e fácil «ver» Deus ao nosso lado, nas situações difíceis. Maria é exemplo para nós precisamente por isso: manteve a esperança, essa que brota da consolação divina. O Concilio proclama que Maria “brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante” (LG 68). É essa consolação que dá esperança, que liberta das amarras da evidência, quando não percebemos com clareza a presença de Deus. Ser discípulo Missionário da Esperança é o desafio do nosso Ano Pastoral, concretizado na capacidade de acolher e de procurar os irmãos sós e em sofrimento.

3 – No contexto desta celebração podemos descobrir mais uma iniciativa que pretende ser esperança para muitos. Eis uma oportunidade para acolher e sair ao encontro.

A Cáritas Portuguesa volta a iluminar este Natal com 10 milhões de Estrelas – Um Gesto pela Paz. Uma iniciativa que pretende chamar a atenção para os valores da paz e para a necessidade de celebrar o Natal com gestos concretos de esperança e de solidariedade. Até janeiro todos se podem juntar à Cáritas e apoiar a “Estrela da paz”.

O “sim” de Maria não é apenas um “sim” a Deus, é um “sim” à humanidade. Este fiat Mariano inverte a desobediência primordial de Eva. Agora Maria torna-se a “Nova Eva”, a Mãe de todos os viventes redimidos em Cristo. Por isso Maria deve ter este lugar de destaque na vida da Igreja: por ela veio ao mundo o Salvador do Mundo. Nossa Senhora permanece como o protótipo daquilo que Deus sonha fazer em cada ser humano: escolheu-nos «antes da criação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença». Que o Senhor possa igualmente fazer maravilhas na nossa vida, como fez de forma excelsa e inigualável na vida de Maria.

Nesta nossa celebração, podemos saborear o testemunho de três jovens que como Maria, experimentam oferecer o seu “Sim”.

Que os nossos caríssimos Seminaristas em caminhada para o Presbitério e que hoje vão ser instituídos nos ministérios de Leitores e Acólitos se inspirem neste SIM de Maria e nele se ancorem, fazendo do Serviço à Palavra e à mesa da Eucaristia, bússola e alimento para a permanência fiel ao sim a dar em cada dia da vida.

Estimados Tiago Carlos, Rui Faia e Jorge Palácios contai sempre com a comunhão da nossa oração e com o nosso apoio humano; a estrada que percorreis com Maria, no Sim a Cristo em cada irmão que por vós espera.

Com Maria, Fecundo Advento para todos!

       + Francisco José, Arcebispo de Évora

 

Homilia -imaculada conceicao catedral 2019 (70)

Contactos