9 de Fevereiro: Homilia do Arcebispo de Évora na Eucaristia por ocasião do Quinto Centenário da Visitação e Tombo da Ordem de Avis às suas propriedades na Vila do Cano

No Quinto Centenário da Visitação e Tombo da Ordem de Avis às suas propriedades na Vila do Cano:

Homilia

Vila do Cano- 9 de fevereiro de 2019

1. Celebramos hoje, nesta Paróquia de Nossa Senhora da Graça, do Cano, o Quinto Centenário da Visitação e Tombo da Ordem de Avis às suas propriedades nesta Vila do Cano. Referimo-nos à primeira das duas visitações documentadas nos Arquivos da Ordem de Avis, ocorrida em 1519, enquanto as seguintes decorreram em 1538 às propriedades da Ordem nas Vilas do Cano e Sousel. Ambas decorreram no mandato de D. Jorge de Lencastre filho, dito “Ilegítimo”, de D. João II e de D. Ana Mendonça. Pelo lado de sua Mãe e da sobrinha de D. António de Mendonça Furtado, Comendador e Alcaide Mor desta mesma Vila do Cano. D. Jorge de Lencastre foi o último Mestre da Ordem, pois após a sua morte, as Ordens Militares Religiosas passaram a ser integradas na Coroa Portuguesa.

Por poder e Comissão do Mestre D. Jorge de Lencastre, foram nomeados com data de 26 de outubro de 1518, como visitadores D. Frei Nuno Cordeiro, Prior-mor do Convento de Avis e beneficiado da Igreja de S. João de Coruche e Frei João Rolão Prior de Vila Viçosa. Frei designado como escrivão, Álvaro Aires Pinheiro, coadjuvado por frei Duarte. A visitação deu início na Igreja de Santa Maria de Vila do Cano, no serão de 9 de fevereiro de 1519. Eis-nos no dia exato do Quinto Centenário deste acontecimento.

Saudamos a oportunidade e utilidade desta iniciativa e agradecemos vivamente aos promotores destas comemorações e aos investigadores que nos fazem chegar elementos de grande valor no âmbito histórico, patrimonial e artístico, proporcionando-nos um inventário da Igreja de Santa Maria.

Em nome da Igreja, o Arcebispo de Évora com o povo de Deus eleva um Te Deum, em Magnificat de louvor e valorização por estas iniciativas. Bem hajam!

As raízes desta Comunidade Cristã da Vila do Cano, mergulham na riqueza testemunhal da Fé dos seus antepassados e aí mantêm a sua identidade católica para serem testemunhas dos valores espirituais e humanizadores do Evangelho nos dias que nos é dado viver.

É no húmus da história que floresce a árvore renovada, criativa e empreendedora da Igreja que queremos ser hoje, na peugada do Papa Francisco, acolhendo os desafios urgentes de muitos que esperam ser acolhidos, cuidados e integrados.

Nos desafios da pós-modernidade líquida em que vivemos, encontramos a solidez nos valores Perenes de Nosso Senhor Jesus Cristo e com Ele crescemos e amadurecemos a resposta cristã aos desafios de coerência e transparência que os finais dos Tempos nos exigem com radicalidade e coragem.

Temos um ícone e modelo, Nossa Senhora, invocada nesta terra, por estas gentes, nesta Igreja, neste Quinto Centenário indubitavelmente ligado à Igreja de Santa Maria da Conceição de Vila do Cano.

Temos Mãe, temos Mãe” proclamou o Papa Francisco na visita a Fátima a 13 de outubro de 2017; ter Mãe e saber ser Mãe, eis o desígnio e o desafio de sempre e de hoje, o desafio feito à Igreja em cada um de nós “Discípulos Missionários”.

2. O Evangelho que acabamos de acolher em nossas vidas apresenta-nos a beleza do Bom Pastor, que o Salmo proclamou O Senhor é meu pastor, nada me faltará! Encontramo-nos com Jesus num contexto verdadeiramente humano, que as palavras do Evangelho nos fazem visualizar e sentir quase ao vivo: “vinde comigo para um lugar deserto e descansai um pouco”. Jesus comove-se, por isso, permanece com eles, faltando-lhe das belezas do Reino de Deus, pois “ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou então a ensina-los demoradamente”. Os corações daqueles que O escutavam foram-se abrindo e os seus espíritos foram sendo saciados pelo Pão da Palavra. Atraídos e nutridos, reconheceram-se como povo d’Aquele Pastor, que veio para dar a vida, amando até ao fim.

Os discípulos de Jesus são chamados a viver, na vida quotidiana, da força e da luz que lhes vem dos encontros com Jesus. Poderemos chamar a este diálogo entre a fé e a vida, a Liturgia da Vida. O Concílio Vaticano II, na sua Constituição Litúrgica Sacrossanctum Concilium 10, ensina que “a Liturgia é o cume para a qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde jorra toda a sua virtude. […] A Liturgia estimula os fiéis, nutridos pelos sacramentos pascais, a viver em perfeita união, para que exprimam, na vida, o que celebram e recebem por meio da fé”. O espaço onde se reúne a comunidade e se celebra a Liturgia é na simbólica cristã sinal do Coração de Deus, disponível, aberto e acolhedor para todos. O Papa Francisco compara as comunidades cristãs e as casas da comunidade, a que chamamos Igreja, a corações maternos e a hospitais de campanha. Acolher com familiaridade, cuidar das feridas provocadas pela vida, discernir a vontade de Deus na vida de cada um e integrar a todos os que desejarem, na comunidade, é o itinerário que o Senhor confiou à Sua Igreja.

A Visitação e Tombo da Ordem de Aviz às suas propriedades na Vila de Cano, de 9 de Fevereiro de 1519, descreve em pormenor a localização, a arquitectura, a iconografia e o mobiliário da Igreja de Santa Maria da Conceição: a descrição pormenorizada revela-nos a religiosidade e a piedade do povo desta terra e abre-nos uma enorme e esclarecedora biblioteca sobre a Igreja de há 500 anos.

Adivinhamos como sucessivas gerações saciaram a sua sede de verdade e fome de justiça no espaço sagrado apresentado pela descrição dos visitadores. Se as pedras falassem, mas as pedras falam e testemunham o percurso de gerações peregrinas em busca de pastor e de beleza.

Esta paróquia é herdeira de um património Espiritual, que lhe dá identidade e a responsabiliza perante as novas gerações. O maior desafio será a transmissão da beleza da fé às novas gerações. Que a comunidade da paróquia de Nossa Senhora da Graça de Cano seja fecunda e saiba transmitir a fé à primavera, que se renova sempre, através das gerações mais novas. Só assim poderá entregar as chaves daquilo que recebeu de graça e deve dar de graça. A prioridade das novas gerações concentrou recentemente as atenções da Igreja no último Sínodo dos Bispos inteiramente dedicado à pastoral juvenil e vocacional. A Jornada Mundial da Juventude há poucas semanas vivida no Panamá, reafirmou as três propostas dos jovens à Igreja: uma igreja familiar; uma igreja transparente; uma igreja coerente. Eis o nosso itinerário e o nosso programa. Felicito esta comunidade paroquial e comprometo-me com ela, pela oração. Nossa Senhora da Graça, rogai por nós.

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

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