Conclusões da actualização do Clero do Sul realizada no Algarve

O clero das Dioceses de Évora, Setúbal, Beja e Algarve, reunido no Hotel Alísios, Albufeira, Algarve, nas Jornadas de Actualização do Clero, promovidas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, nos dias 29 de Janeiro a 1 de Fevereiro de 2018, subordinadas ao Tema – Desafios para uma Igreja “semper renovanda”: secularização, diálogo e discernimento – em ambiente de recolhimento, estudo e convívio, com a colaboração de vários especialistas em diferentes áreas do saber, partilha as seguintes conclusões:

  1. O ponto de partida do estudo e da reflexão é o Concílio Vaticano II, o maior acontecimento eclesial do século XX, que continua a ser ainda “um gigante que é preciso despertar” pois o Concílio foi um início. A concepção de Igreja que brotou do Vaticano II foi a de uma Igreja missionária, que procura anunciar o Reino de Deus no mundo. Para isso, tem que conhecer e dialogar com este mundo concreto em que está inserida, numa atitude de humildade e de serviço, ao estilo do “bom samaritano”.
  1. As mudanças operadas a partir da época moderna não representaram um enfraquecimento da vivência da fé: simplesmente, a visão e o modo de estar no mundo sofreram alterações, algumas das quais já estavam em curso no final da Idade Média. A secularização, que tem raiz na transferência de propriedades e de indivíduos da esfera religiosa para a política, levou a reconhecer a autonomia das realidades terrestres. Até certo ponto, a secularização tem uma matriz cristã, e não se explica somente por factores económicos e políticos, mas também por factores teológicos que reconhecem a Deus o seu devido lugar, e ao homem a tarefa de construir o mundo, integrando a fé e respeitando a autonomia do político e do social.
  1. No processo da secularização, há que distinguir a secularidade, em si positiva, do secularismo, que é negativo. Este afirma-se pela disputa entre as instituições e pela noção de que a religião é contrária ao desenvolvimento do indivíduo. Aliado à indiferença, elabora um sistema de pensamento e de comportamentos onde a verdade deixa de ser objectiva para ser subjectiva; onde cada um constrói o seu sistema de valores sem se confrontar com o outro para evitar o conflito; onde o primado é dado à ciência e à técnica; não há lugar para as tradições e perdem-se as identidades no complexo mundo da urbanização; onde o que conta é o exterior, o visível e o provisório porque o real dá lugar à aparência; as sociedades podem ser económica e socialmente desenvolvidas mas, eticamente são débeis; Deus não tem lugar e, se algum espaço ainda lhe é reservado, é através de uma experiência religiosa superficial e sem profundidade.
  1. Mas é com este mundo que a Igreja se dispõe a dialogar fazendo uma leitura crítica dos acontecimentos, evitando os fundamentalismos e os literalismos, sendo mais profética e menos jurídica; confrontando a moral com as realidades concretas; apontando para as realidades últimas com fé e esperança. Esta atitude de diálogo leva a derrubar o muro da separação: não é suficiente existir “um átrio dos gentios” e olhar para os que estão do outro lado contemplando-os à distância; é necessário derrubar o muro (ver Ef 2,14-18) e cruzar os discursos respeitando as identidades e evitando o relativismo e o sincretismo. Impõe-se “passar do duelo (confronto de forças) ao dueto (harmonia)”.
  1. Estar na Europa, com os seus sucessos e as suas crises, também nos estimula ao diálogo. O que caracteriza a Europa é a sua base judaico-cristã, com os seus valores e o respeito pelos direitos humanos. No dealbar do séc XXI, esta Europa vê-se confrontada com o problema do envelhecimento populacional e os custos sociais que daí derivam, com o desemprego, a insegurança, os fluxos migratórios e as alterações na ordem internacional. A Europa do progresso e do conhecimento, construída pela geração que saiu da guerra, enfrenta hoje novos desafios aos quais a Igreja não pode ser alheia.
  1. A cultura oferece um espaço de diálogo privilegiado. A Bíblia e a Igreja formaram-se em permanente confronto com as culturas de diferentes povos e épocas, testemunhando a capacidade de interpretar e de se inculturar. Hoje, o conhecimento técnico-científico representa um nível importante de conhecimento. Mas, não é o único: precisa de ser completado com o conhecimento da filosofia, da religião, dos fundamentos. Respeitando o estatuto epistemológico das diferentes ciências, deve reconhecer-se que o sujeito do conhecimento é um só, não se desdobra e deve interagir com as diferentes áreas. É hoje um grande desafio pôr a ciência de carácter técnico-científico a dialogar com a antropologia, sobretudo quando os avanços científicos no campo da engenharia genética, das neurociências e da inteligência artificial, se questionam sobre o futuro das suas conquistas.
  1. A arte e a beleza têm relação com a fé. Amamos o que é belo. O diálogo da arte com a fé tem uma expressão muito evidente na tradição da Igreja. Em continuidade com esta riqueza do passado deve prestar-se atenção à multiplicidade das expressões actuais considerando-as também como meio de evangelização.
  1. A bioética coloca, hoje, problemas de difícil resolução. Sendo, por natureza, multidisciplinar, não é fácil encontrar consensos. A Igreja pode colocar-se, neste domínio, como uma instituição que sustém um conjunto de valores éticos e que é capaz, ao mesmo tempo, de usar de sabedoria prática. A mesma atitude deve ser assumida no campo da política, do diálogo inter-religioso e da educação. As incertezas e a imprevisibilidade estão ligadas à mudança. Mas, se há muitas coisas que mudam, há também outras que permanecem. Centrar-nos naquilo que se mantém e conhecendo-o cada vez mais em profundidade, permite avaliar melhor as mudanças e caminhar ao ritmo do tempo.

Contactos