D. Maurílio de Gouveia: 27 anos à frente da Arquidiocese de Évora

Morreu D. Maurílio Gouveia, arcebispo emérito de Évora

19 mar, 2019 – 15:18 • Rosário Silva, Rádio Renascença

O arcebispo chefiou a diocese de Évora durante 27 anos. Nasceu no Funchal, para onde regressou depois de sair de Évora e onde morreu esta terça-feira, aos 86 anos.

D. Maurílio Gouveia, arcebispo emérigo de Évora, morreu esta terça-feira. Foto: MC/Agência Ecclesia
D. Maurílio Gouveia, arcebispo emérigo de Évora, morreu esta terça-feira. Foto: MC/Agência Ecclesia

Foram quase 27 anos à frente da diocese portuguesa, territorialmente, com a maior extensão e um peso histórico significativo. D. Maurílio Jorge Quental de Gouveia entrou num território marcado por várias crispações politicas e sociais, nos anos que se seguiram à revolução de 1974.

A entrada solene a 8 de dezembro de 1981 foi, para os cristãos, motivo de esperança e expectativa num Pastor até então desconhecido pelas gentes da região.

D. Maurílio não se deixou intimidar e imprimiu ao seu ministério um caracter de proximidade às pessoas, transmitindo-lhes segurança, alento e promovendo uma experiência de comunhão junto das muitas entidades, na maioria ligadas ao partido comunista, e nas mais diversas situações eclesiais e sociais.

O arcebispo de Évora manteve, desde a primeira hora, contacto muito próximo com as paróquias, realizando em quase três décadas, mais de 350 visitas pastorais, iniciativa de sua autoria. Percorreu várias vezes, o extenso território, de Campo Maior a Alcácer do Sal, levando consigo a imagem peregrina de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da arquidiocese, e despertando os cristãos para a sua missão de evangelização.

Sorridente, delicado, educado, humano e com sentido de humor, aproximou-se das pessoas como Pastor e não com um discurso ideológico, numa postura até então pouco comum na Igreja portuguesa.

O seu ministério, que deixou marcas profundas na vida da diocese, fica pautado também pela reorganização das paróquias. Nelas, foram criados novos serviços virados, de forma concreta, para os problemas das pessoas, em particular, crianças e idosos.

A reorganização dos serviços centrais da diocese, vocacionados para a evangelização e a ação social e caritativa, são traços que marcam o trabalho pastoral do então arcebispo de Évora.

Foi também D. Maurílio de Gouveia que criou o Instituto Diocesano de Sustentação do Clero, acabando com algumas desigualdades entre pares, e permitindo que todos os sacerdotes usufruíssem de um salário que lhes permitisse ter o mínimo de qualidade de vida.

Momento alto do seu ministério, foi a visita, pouco tempo depois de ter entrado na diocese, em 1982, do Papa João Paulo II ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa. Oportunidade que D. Maurílio aproveitou para falar dos problemas sociais e da realidade agrária que pautava a região alentejana.

Deste percurso, absolutamente relevante para a região, fica ainda a amizade que unia D. Maurílio à Rádio Renascença. Foi um dos impulsionadores do primeiro estúdio regional da emissora católica portuguesa. Por sua vontade, a Voz do Alentejo abriria as portas em abril de 1985, em Évora, em instalações cedidas pela diocese e onde ainda se mantém nos dias de hoje, mas apenas enquanto delegação do grupo Renascença Multimédia.

“Silêncio, oração e estudo” e a saúde de D. Maurílio

Corria o ano jubilar de 2000, quando D. Maurílio de Gouveia sofreu um enfarte do miocárdio, diminuindo de forma significativa as suas capacidades de trabalho. Situação que, na altura, justificou a nomeação de um bispo auxiliar (D. Amândio José Tomás, hoje bispo da diocese de Vila Real), para os últimos seis anos do seu ministério na arquidiocese.

Depois, por causa da saúde, o arcebispo emérito de Évora passou a dividir-se entre a sua casa no Funchal e os aposentos que dispunha no seminário de S. José, em Vila Viçosa, dedicando-se à escrita e à partilha de conhecimento e saber.

A 8 de janeiro de 2008, ao encerrar o ciclo do seu ministério, o prelado escrevia: “Pela minha parte, a partir de agora, afastado embora juridicamente das responsabilidades pastorais, mas continuando unido afetivamente à comunidade diocesana e a cada um dos seus membros, procurarei consagrar-me inteiramente ao serviço da Igreja, com particular atenção à arquidiocese. Será uma entrega feita sobretudo de silêncio, oração e estudo, a que juntarão, conforme a vontade de Deus se manifestar outras formas de colaboração, em favor do crescimento da Igreja e do bem da sociedade.”

Ao encerrar este ciclo do seu ministério, numa carta dirigida aos cristãos, classificava a nova fase da sua vida como a “ultima etapa que ora se inicia”, com a particularidade de “preparar o encontro final com Cristo, a grande meta para onde se orienta a nossa vida.”

Desde 2017, altura em que lançou o livro “Magnificat, Maria na Vida da Igreja”, que D. Maurílio de Gouveia não marcava presença em cerimónias públicas.

Em dezembro do ano passado recebeu, em sua casa no Funchal, a visita do Presidente da República. Uma curta visita, “entre amigos”, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, conhecedor do então estado de saúde do arcebispo emérito.

Mais recentemente, no dia 18 de março, D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora, na sua conta do Twitter, dava conta do agravamento do estado de saúde de D. Maurílio, pedindo “orações nesta hora solene” da sua vida.

“Dirijo-me à comunidade arquidiocesana de Évora para comunicar que o nosso muito estimado arcebispo emérito D. Maurílio Jorge Quental de Gouveia, se encontra em situação terminal após doença longa”, escreveu o prelado.

“Vive uma agonia longa e lúcida, com total consciência e impressionante serenidade”, assegurava D. Francisco, manifestando-lhe na ocasião, em nome da diocese que “dedicadamente serviu”, a convicção do “nosso amor filial e da nossa gratidão”.

Biografia de D. Maurílio de Gouveia

Natural do Funchal (Madeira), D. Maurílio Jorge Quental de Gouveia nasceu a 5 de agosto de 1932. Foi na diocese de origem que ingressou no Seminário, tendo sido ordenado sacerdote a 4 de junho de 1955. Seguiu para Roma, onde se licenciou em Teologia Dogmática na Universidade Gregoriana, e no regresso à Madeira, exerceu vários cargos, foi pároco, professor e até “jornalista” assumindo a direção do diário diocesano “Jornal da Madeira”.

Em 26 de novembro de 1973 foi eleito bispo titular de Fabiona, nomeado pelo Papa Paulo VI, para bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, com ordenação episcopal a 13 de janeiro de 1974.

Quatro anos depois, a 22 de março de 1978, D. Maurílio de Gouveia é nomeado arcebispo titular de Mitilene e vigário geral do Patriarcado de Lisboa, cargo que exerce até à sua nomeação por S. João Paulo II, como arcebispo de Évora, sucedendo a D. David de Sousa.

Uma nomeação que aconteceu em 1981, a 8 de setembro, dia que a Igreja atribui à Festa da Natividade de Nossa Senhora. Tomou posse da arquidiocese de Évora, três meses depois, também numa data importante para os católicos: 8 de dezembro, Festa da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal e da arquidiocese.

A entrada solene de D. Maurílio de Gouveia voltaria a ser efusivamente celebrada no mesmo dia, mas em 2006, na Sé eborense, ano em que completou 25 anos à frente da diocese alentejana.

Meses depois, já em 2007, fez 75 anos, tendo solicitado ao Papa a sua resignação por limite de idade, segundo a lei canónica. A 8 de janeiro de 2008 é anunciado o seu sucessor tendo ficado até à posse de D. José Sanches Alves, no cargo de administrador apostólico.

D. Maurílio Jorge Quental de Gouveia, arcebispo emérito de Évora, faleceu esta tarde, dia de S. José, aos 86 anos, após doença prolongada.

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