Eucaristia de Acção de Graças pela Vida: Homilia do Arcebispo de Évora

EUCARISTIA DE ACÇÃO DE GRAÇAS PELA VIDA – Homilia – 19.02.2020

1 –Detendo-nos na passagem do Evangelho de Mc 8, 22-26 que acaba de nos ser proclamado, percebemos que a lentidão da cura (o cego primeiro vê os homens como árvores e só com uma segunda imposição das mãos ficará a ver melhor) não é decorrente da dificuldade do caso ou da impotência de Jesus, mas da fé nebulosa do cego.
A cura deste cego é uma lição para os discípulos e para toda a Igreja; O significado é fortemente simbólico, a acção é quase litúrgica: parece-nos ver um catecúmeno que vem sendo aos poucos iniciado a respeito da pessoa de Cristo e das exigências da assembleia eucarística e da missão. De resto, todos esses capítulos de Marcos que são chamados a “Secção dos pães”, por nele ser dominante o tema do pão, levantam o problema da iniciação à fé, que compreende rito e palavra, sacramento e evangelização no sentido de uma transformação que abrange o homem todo: mente e coração, espírito e sentidos, indivíduo e comunidade, e conduz ao amor sincero e à visão clara de Cristo e das exigências de Sua sequela.
São a expressão da consciência experimental de que o homem se constrói progressiva e gradualmente. Do mesmo modo as comunidades e as  civilizações. Demos graças a Deus por exemplo porque Portugal foi o primeiro estado soberano moderno da Europa a abolir a pena de morte.

 

2 – Uma exigência fundamental na carta de S. Tiago (Tg 1, 19-27) proclamada na Primeira Leitura, é a de uma fé que, uma vez recebida, impele à acção. O cristão é alguém que escuta e transforma o que ouve em obras e palavras.
A Palavra de Deus semeada no coração do crente, através do anúncio Kerigmático e no batismo, requer fortaleza, capacidade de escuta e resposta coerente em atitude activa de conversão. Os seguidores de Cristo, “executores” da obra de Deus conhecem assim a lei perfeita da liberdade.
Se a “Palavra da verdade”, provinda de Deus, nos gerou para a vida, é muito importante a nossa atitude em relação a ela. O vínculo entre a fé e as obras e, mais particularmente, entre a fé e a caridade para com os irmãos, é o tema essencial da Segunda Leitura de hoje. A Palavra de Deus em nós deve traduzir-se na vida.
O seguidor de Cristo não é apenas “ouvinte”, mas “executor” da obra, que se aprofunda na “lei perfeita da liberdade”, na “lei do Reino” (2, 8), acolhendo o mandamento de amor a Deus e ao próximo.
Lei e liberdade são “fios de ouro” que nos unem a Deus e devem ser vividas mediante o cumprimento da vontade divina.
A “lei perfeita”, proclamada no Evangelho, torna-nos livres e estimula-nos a agir (Mt 5, 19). A religiosidade autêntica não consiste apenas em conhecer a fé, mas em testemunhá-la com obras, com um cristianismo vivido no amor aos irmãos necessitados e no afastamento de todo e qualquer mal.

 

3 – Colocando a nossa vida à luz desta Palavra, talvez concluamos que frequentemente em vez de valorizar a vida, banalizamos a morte. Em vez de dar vida e sentido à morte, vamo-nos limitando a matar a vida.
Daí que, em vez de nos preocuparmos com a qualidade de vida, optemos por apostar numa presumida “qualidade da morte”.
De facto, num país onde muitos não têm uma habitação digna, um salário digno, e por isso são obrigados a emigrar, é espantoso que nos venham propor uma “morte digna”.
 Acresce que esta suposta “morte digna” não consiste no acompanhamento e no cuidado até ao fim da vida, mas, acima de tudo, em antecipar o fim, em provocar a morte.

 

4 – Respeitamos toda a gente e não julgamos ninguém até porque o juízo é de Deus (cf.Deut 1,17).  Mas há coisas, que apesar de nos esforçarmos para entender num diálogo tolerante, não percebemos a sua racionalidade nem tão pouco a sua oportunidade.  Propomos uma “morte assistida” e uma morte acompanhada, mas não morte provocada. É preciso, sem dúvida, acompanhar quem morre, mas não provocar-lhe a morte.  Aliás, não deve haver assistência só na morte. Deve haver sempre assistência em vida.
Há muita eutanásia por antecipação. Há quem provoque a morte durante a própria vida. A injustiça, a suspeita e a calunia não “eutanasiam” precocemente tantas vidas? Eutanásia não é só quando se administra um fármaco para terminar com a vida de alguém. Eutanásia é também, quando se deixa um idoso ou um doente abandonado em casa: sem refeição, sem companhia, sem medicamentos, sem assistência, sem visitas. Graças a Deus, a medicina prolonga a vida. Mas a nossa incúria encarrega-se em a encurtar e ir transformando muitas vidas em mortes antecipadas, em mortes lentas, em mortes dolorosas.
Em tantas circunstâncias de descuido, indiferença, alheamento e omissão pratica-se a eutanásia. Como sair deste sufoco?
Que atenção estamos a dar aos nossos idosos e doentes? Foram eles que fizeram tudo por nós, e nós estamos dispostos a fazer tudo por eles? É preciso aliviar o sofrimento de quem sofre. E o melhor alívio é sempre presença.

Dizem para não metermos Deus nesta discussão.  Como se não fosse uma questão de sentido para a vida e para a morte. Esse é o problema. Deus é para sempre: para a vida e para a morte.
Deus é indispensável para viver e é fundamental para sobreviver mesmo perante a morte! Deus é alento, luz e esperança também para quem se enfrenta com o luto. À luz da Ética e da Moral temos que afirmar que nem tudo o que é legal, é justo. Por exemplo, o próprio nazismo atingiu o poder de modo legal e democrático e foi expressão de uma das maiores barbáries que a humanidade já conheceu. Crescemos num tempo em que nos acostumámos a alterar a nossa vontade por causa da lei. Percebia-se e admitia-se uma moral, assumia-se que havia imoralidades. De repente, vemo-nos num tempo em que é a lei que se transforma por causa da nossa vontade. Vivemos a era da amoralidade. Não falta quem celebre esta mudança, sinalizando nela um avanço. Mas também não escasseia quem se atemorize diante deste passo, advertindo nele um retrocesso civilizacional. Afinal, poderá haver descanso com tal “avanço”? Não haverá o perigo de estarmos perante uma rampa declinante que nos possa levar ao abismo da desumanidade prepotente?
É próprio da lei impor limites. E isso é necessariamente mau? A velocidade ilimitada na condução é, quase sempre, o caminho acelerado para tragédia. Será negativo, haver restrições e limites de velocidade no trânsito rodoviário?
Os limites impostos pela lei travam uma existência ditada unicamente por impulsos momentâneos, por flutuações epocais ou por clivagens ideológicas.
Uma lei não é um fóssil. Há leis que podem – e devem – ser mudadas. Mas também há leis que devem permanecer inalteradas. Trata-se daquelas que protegem os alicerces civilizacionais: a vida, a dignidade da pessoa humana, a família, o bem comum. A inviolabilidade da Vida Humana é um direito natural e fundamental da Pessoa. O sofrimento é sempre doloroso e pode chegar a ser insuportável. É claro que é muito melhor não sofrer. Mas uma vida sofrida não é obrigatoriamente uma vida infeliz, e muito menos indigna como ouvimos…
Não podemos continuar expectantes. Atualmente, tudo parece começar com negligência, decorrer com complacência e desaguar em impotência. Limitamo-nos a encolher-nos no princípio e a lamentar-nos no fim.
Há fenómenos que, quando se iniciam, achamos que não nos atingem. O problema é que, quando os sentimos perto, pode ser tarde para os inverter. É que, entretanto, muitas coisas, que se estranhavam, acabam por se entranhar.

 

5 – Reclamar a morte é, não raramente, um grito dilacerado contra o abandono à dor e contra a dor do abandono.
A «cultura do descarte» — tão insistentemente denunciada pelo Papa  Francisco — redunda, sobretudo a partir de certa idade ou do avanço de certas doenças, em frequente descuido nos tratamentos e no acolhimento.
A «banalidade da morte» vai ao ponto de que ela seja equacionada não apenas para casos de doenças incuráveis, mas até para aqueles que padecem de ansiedade e depressão. E já nem sequer falta quem forneça um simples comprimido para «acabar com tudo».
Constituímos uma humanidade rica de meios, mas muito pobre de fins e ideais. Não escasseiam presentes para distribuir pelas pessoas. Mas onde está a vontade de estar presente junto das pessoas?
Pensando bem, a pessoa que pede para morrer está a expressar — com extremos de desalento — a sua indisponibilidade para continuar a viver como tem vivido. Assim sendo, porquê não investir no alívio da dor e no acompanhamento dos doentes? Será que a eliminação do sofrimento se faz com a eliminação do sofredor?
Invoca-se o primado da liberdade para justificar o direito a pedir a eutanásia ou a morte assistida, como pode ser soberana uma
liberdade que está tão condicionada? Não será que quem clama pela
morte não estará a «implorar» para ser acompanhado, abraçado, amado?
Não desistamos da vida! Nem de a repartir pelos que mais sofrem!  Este sinal dos tempos é uma forte interpelação à missão humanizadora de cada cristão, discípulo missionário da Esperança.

 

6 – Não sendo nunca a vida legislável na sua essência, devemos, porém, fazer uma reflexão de carácter social e político no momento que nos é dado viver.
É certo, que os deputados na sua atividade diária, são chamados a pronunciar-se sobre assuntos que não constam dos seus programas eleitorais, mas a eutanásia e o suicídio assistido não são assuntos correntes, como tantos outros, e é um assunto não colocado nem previsto nos programas eleitorais de alguns grandes partidos para evitar a tensão provocada por esse debate, portanto se por um lado a democracia representativa permite aos deputados legislar sobre a eutanásia, eles próprios excluíram-se e escusaram-se da  autoridade conferida pela soberania do Povo para tal, ao evitar estes temas nos seus programas eleitorais, isto só pode ter uma resposta coerente que é uma  nova auscultação do povo português, seja numa próxima campanha eleitoral ou seja num referendo.

A Eutanásia e o suicídio assistido, Não!

 

Francisco José Senra Coelho,
Arcebispo de Évora

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