EXÉQUIAS FÚNEBRES D. MAURÍLIO GOUVEIA: HOMILIA DA MISSA EXEQUIAL

“Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor” (Salmo 115)

 

 

  1. Introdução

«Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Que fostes ver então? Um homem vestido de roupas finas? Os que usam trajes sumptuosos vivem regaladamente e estão nos palácios dos reis. Que fostes ver, então? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais do que um profeta. É aquele de quem está escrito: Vou mandar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de ti. Digo-vos: «Entre os nascidos de mulher não há profeta maior do que João; mas o mais pequeno no Reino de Deus, é maior do que ele». (lc 7, 24 28)

Viemos para celebrar o dom da vida de alguém que soube dar essa mesma vida pela Igreja que somos e formamos. Na dádiva de alguém que amou até ao fim, encontramo-nos com as marcas de Cristo. Sim, D. Maurílio de Gouveia aproximou-nos de Cristo, trouxe-nos Cristo.

Não sendo momento para panegíricos do defunto, peço, porém, licença para apresentar sucintamente a biografia da pessoa que hoje nos congrega em homenagem, gratidão e sufrágio, D. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia, Arcebispo Emérito de Évora. Com Santo Agostinho também nós sentimos que «a tristeza de o ver partir nunca nos fará esquecer a alegria de o ter tido», como Cristão connosco e Bispo para nós!

 

  1. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia, filho de Aires Romão Freitas Gouveia e de Matilde Maria Quintal de Gouveia, nasceu a 5 de agosto de 1932 em Santa Luzia, no Funchal; cumpriu sua etapa vocacional no Seminário Diocesano do Funchal e foi ordenado sacerdote a 4 de junho de 1955.

Aos 22 anos seguiu para Roma, para prosseguir os seus estudos, e formou-se em Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana, tendo tirado também uma pós-graduação em Teologia Pastoral, na Pontifícia Universidade Lateranense.

Após este período, regressou à Madeira para exercer várias missões pastorais, como a de vice-reitor do Seminário do Funchal e professor de Teologia na mesma instituição.

A 26 de Novembro de 1973, aos 41 anos, D. Maurílio de Gouveia foi nomeado Bispo pelo Papa S. Pulo VI, com o título de bispo titular de Sabiona e bispo auxiliar de Lisboa.

A ordenação episcopal de D. Maurílio de Gouveia foi presidida pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, a 13 de janeiro de 1974.

Quatro anos mais tarde, a 21 de maio de 1978, o bispo madeirense foi nomeado arcebispo titular de Mitilene, e a 17 de setembro de 1981, aos 49 anos de idade, chegou a D. Maurílio de Gouveia a nomeação para Arcebispo de Évora, por intermédio do Papa João Paulo II, sucedendo a D. Frei David de Sousa.

A tomada de posse de D. Maurílio de Gouveia como Arcebispo de Évora aconteceria três meses mais tarde, a 8 de dezembro de 1981, no dia da festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, padroeira principal de Portugal e da Arquidiocese de Évora.

Ao longo dos 26 anos em que tomou conta dos destinos da arquidiocese alentejana, D. Maurílio de Gouveia destacou-se pelo empenho pastoral, assumindo como pioneiro num trabalho de proximidade com as comunidades católicas locais.

Em 2007, por ter atingido os 75 anos, idade limite para o desempenho da missão episcopal, segundo a lei canónica, D. Maurílio de Gouveia apresentou ao então Papa Bento XVI a sua resignação ao serviço de arcebispo de Évora.

A 8 de janeiro foi anunciado o nome do novo arcebispo de Évora, D. José Francisco Sanches Alves, com D. Maurílio de Gouveia a assumir as funções de administrador apostólico até à tomada de posse do seu sucessor, que veio a acontecer a 17 de fevereiro de 2008.

Os seus últimos anos foram passados entre o Seminário de S. José em Vila Viçosa e a sua terra natal, no Funchal; do seu percurso constam também cargos como os de vice-presidente da Conferência Episcopal e presidente das Comissões Episcopais para o Apostolado dos Leigos e para as Comunicações Sociais.

 

  1. Que neste momento das suas exéquias, sejamos iluminados pela Palavra de Deus.

O pensamento religioso do Livro de Daniel, escutado na Primeira Leitura representa um dos mais vincados elos de ligação entre o Antigo e o Novo Testamento e mostra que entre ambos existe uma profunda continuidade da revelação de Deus.

Este livro exprime uma comprovada consciência de que Deus preside e governa a História dos Homens e dos povos. Deus é apresentado como o supremo legislador, de quem dependem os passos, as etapas, os percursos e as seguranças para a experiência humana e coletiva. Na segunda parte do Livro de Daniel, onde se insere a perícope que escutámos na Primeira Leitura, apresenta-se uma espiritualidade da Esperança face às mais difíceis ameaças contra o Povo de Israel. As perspetivas de escatologia individual dão neste livro um passo significativo com a ideia da ressurreição dos mortos, especto em que a antropologia do Antigo Testamento era menos clara.

Nos versículos proclamados, o Profeta anuncia a libertação de Israel, após os horrores praticados por Antíoco IV, Epifânio, rei helenista da dinastia dos Seleucidas que determinou o extermínio da religião judaica e a consequente helenização da Palestina. A leitura, para além da ressurreição nacional, anuncia a ressurreição corporal da carne: «Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna e outros para a ignomínia, para a reprovação eterna».

Com o seu texto inserido no contexto do pensamento apocalíptico, o Livro de Daniel tem a consciência que Deus governa a História dos homens e dos povos. Ele é a segurança e o conforto de todos.

Na Segunda Leitura, o Apóstolo Paulo anuncia-nos, no seguimento do Livro de Daniel, que o Cristão está ao abrigo de toda a acusação e sentença condenatória, porque Cristo o libertou de todos os seus pecados e continua a interceder por ele. Por isso, os discípulos de Cristo, confiantes no  Amor de Deus, que se manifestou na salvação oferecida pelo Filho, Jesus Cristo, poderão enfrentar toda a provação e tentação e triunfar plenamente, pois nenhuma força, nem nenhum acontecimento os poderão separar do amor de Deus; como diz a Carta aos Romanos, «nada nem ninguém, nem sequer a morte, nos pode separar do amor de Deus».

       A força dos discípulos é o Dom de Deus que o Evangelho nos apresenta no ensinamento de Jesus sobre o Pão da Vida. No centro da catequese está a solene afirmação: «A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeiro bebida». O ensinamento do Rabi da Galileia é claro: Ele indica a absoluta necessidade de nos alimentarmos d’Ele para participarmos da Sua vida e ressurreição. Na sua mensagem, a “vida nova” do discípulo, consiste na comunhão com Ele. Do mesmo modo que Ele está em comunhão com o Pai. O pão dado por Jesus é essencialmente diferente e superior ao maná, pois é Pão vivo, é Ele mesmo. É o verdadeiro Pão descido do Céu, de que o maná não passa de pálida figura; é o Pão que pode dar a vida eterna!  Aquele que desceu do Céu é o Pão da vida, porque é o crucificado, por isso, comer do pão e beber do Sangue que Ele nos dá é acreditar no crucificado.

Com estas expressão, o Evangelista alude ao significado redentor e sacrificial da Eucaristia e leva-nos a compreender que não podemos assimilar o mistério da pessoa de Jesus, se não abraçarmos a sua dimensão pascal. Encarnação, Redenção e Eucaristia são três aspetos inseparáveis do mistério de Jesus.

 

  1. Foi neste tríptico que D. Maurílio de Gouveia abraçou e foi abraçado por Cristo no regaço da Cruz. A sua subida ao calvário foi conduzida por Cristo até à Trindade. Partilho com todos, uma página preciosa do seu diário espiritual:

“Neste dia 29 de junho de 2018. Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, início um novo ciclo da minha existência sobre a terra, um ciclo que será o último, nos planos da Providência divina. É que ontem foi-me comunicado o resultado dos exames médicos que diagnosticaram um cancro no pâncreas.

Em breve, estarei na eternidade. Confiante na misericórdia do Pai, no Coração de Jesus Cristo, no Amor do Espírito Santo, começo a subida do Calvário. Sou fraco, mas conto com a força que me vem da Santíssima Trindade.

Terei a meu lado a minha querida Mãe, Maria Santíssima, que também esteve com Seu Filho Jesus na subida para o Calvário.

A notícia, ao tornar-se conhecida, constituirá um choque emocional para muitos amigos, familiares e outros. Peço ao Senhor a graça de eu ser testemunho claro, simples e firme da minha fé na vida eterna e no amor misericordioso de Deus que nos criou e nos salvou para uma eternidade feliz. Fomos criados para a eternidade, não para este mundo. Espera-nos o céu; a morte é a porta que nos dá acesso à vida da eternidade.

Senhor, meu Deus, pela intercessão de Maria, minha Mãe, abençoai cada um dos meus passos. Que eles tenham o sabor da despedida, o sabor da eternidade que se aproxima”.

 

  1.   Na vida de D. Maurílio de Gouveia, permanece como chave de leitura, a sua vontade incondicional de fidelidade aos desígnios amorosos de Deus sobre a sua pessoa: a sua vocação à aliança batismal; a sua fidelidade à Igreja como discípulo de Cristo, Presbítero e Bispo, a sua missão, sempre lida e compreendida em dimensão missionárias.

Nesta peregrinação terrena elegeu Maria, a Mãe de Jesus, como sua catequista e mestra, a educadora, e com Ela, foi edificando, pedra a pedra, um sólido edifício com muita riqueza espiritual; e consistentes alicerces evangélicos, a vida interior aparece estampada nas belas páginas refletidas e rezadas do seu diário, quotidianamente registado e lido, a que era fiel. Adverso do fútil e do banal, D. Maurílio mergulhava assiduamente num programa de vida diário muito exigente e metódico, no qual sobressaia o hábito de leitura e de estudo. Reflectir com a Igreja e procurar ler os “Sinais dos Tempos” foi uma das suas atitudes mais vincadas e assumidas como parte do seu ministério. Para ele o ser pastor, era estar com o Povo de Deus, mostrando-lhe o Amor do Bom Pastor.

Temos de agradecer ao Senhor Arcebispo toda a sua dedicação e incansável serviço prestado à Igreja de Évora! Como não recordar o amor  com que se dedicou às Visitas Pastorais; o seu empenhamento em renovar as estruturas pastorais da diocese, em consonância com o II Concilio do Vaticano;  o seu  esforço por incentivar a pastoral familiar, juvenil e vocacional, a sua constante preocupação com os seminários,   com o clero e na sua sustentação;  e a intensidade com que assumia as suas responsabilidade e ao mesmo tempo a sua proximidade, a riqueza humana e capacidade de diálogo e empatia com todos, ricos e pobres, crentes e não crentes. Para sempre nos fica gravado a profundidade do seu olhar e a bondade do seu sorriso!

Do polifacetado candelabro da mensagem da sua vida, fica para sempre aceso um apelo no meio da nossa Arquidiocese: o compromisso missionário. Não a uma atitude de comodismo e indiferença, mas sim à  entrega a uma Igreja Missionária: Discípulos Missionários!

Com a Imagem Peregrina de Nossa Senhora da Conceição percorreu quase por três vezes toda a Arquidiocese. A Ela se consagrou, a Ela nos consagrou. Com Ela experimentamos que como seus filhos, permanecemos unidos em Jesus Cristo. O ministério da comunhão, do serviço e do testemunho coerente e transparente preencheram o seu coração!

Recordamos e agradecemos o seu empenho pelas grandes questões sociais, com o relançamento da Cáritas Diocesana; a sua fidelidade ao múnus profético, com a Comissão Justiça e Paz com quem trabalhou corajosamente, a sua preocupação com os meios de Comunicação Social, criando  a Voz do Alentejo emissora Regional da RR; assinalamos ainda sua dedicação aos temas da Conferência Episcopal, no Apostolado dos Leigos, nos meios de Comunicação Social e na sua Vice Presidência.

Momento alto da sua vida pastoral foi a visita de S.  João Paulo II a Vila Viçosa. O seu ministério episcopal, coincide em grande parte com os grandes desafios da Nova Evangelização lançados pelo Papa Polaco, que apaixonadamente acompanhou, assumiu e desenvolveu.

Na sua relação próxima e atenta com os Religiosos, nomeadamente com os contemplativos, encontrou sempre força e apoio espiritual para as tarefas da Nova Evangelização. Foi e será sempre na nossa memória grata, o Bispo das missões populares e o Bispo das Assembleias familiares!

 

  1. No dia 18 de novembro de 2001, após ter celebrado a Eucaristia com a Associação Mater Dei, abençoou um monumento dedicado a S. José, na quinta de S. João, freguesia de S. Vicente, Elvas, a quem consagrou a nossa Arquidiocese, e toda a Igreja. No dia 18 de novembro de 2018, no ermitério da Madeira, unindo-se ao Papa e vendo a necessidade de purificação da Igreja voltou a consagrar a Igreja e o Papa a S. José, guardião e patrono da Igreja.

Foi em dia de S. José, Dia em que o Papa Francisco foi entronizado como Bispo de Roma e sucessor de Pedro, em hora de Noa, que D. Maurílio foi recolhido como trigo maduro para o celeiro do Senhor.

Era também o Dia do Pai!

 

Évora, 22 de março de 2019

Francisco José – Arcebispo de Évora

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