Festa do Seminário Maior: Homilia do Arcebispo de Évora

HOMILIA DA SOLENIDADE

DA APRESENTAÇAO DO SENHOR

Seminário Maior de Évora

02 de fevereiro de 2019

 

A festa da apresentação do Senhor que hoje celebramos e que antes da última reforma litúrgica se chamava Festa da Purificação de Nossa Senhora é uma das festas mais antigas da Igreja. Sabemos que, nos séculos VI e VII, há muito celebrada na Igreja Oriental, se estendeu ao ocidente e, no século VIII, o Papa Sérgio I, de origem oriental, mandou traduzir para o latim os cantos da festa grega, que foram adotados para a Procissão Romana. A bênção da luz, em que há momentos participámos, celebra-se no Ocidente, desde o século X. Inspirada no Evangelho da infância, segundo São Lucas, em que o velho Semião proclama Jesus como «a luz para revelar as nações», uma tradição antiga também lhe chamou a Festa das Candeias ou a Festa da Luz, que é o próprio Cristo, segundo o Prólogo de São João.

O Papa São Paulo VI esclarece o sentido desta festa, na sua exortação apostólica Marialis Cultus, que citamos: “A festa do dia 2 de fevereiro, à qual se restituiu o nome de Apresentação do Senhor, deve ser considerada como a memória conjunta do Filho e da Mãe, isto é, a celebração do mistério da salvação realizado por Cristo ao qual a Virgem Maria esteve intimamente unida como a Mãe do Servo sofredor de Javé”.

A primeira leitura é do Profeta Malaquias e foi escrita pelo ano 450 antes de Cristo. Está centrada na figura de um mensageiro, que há-de vir, no Dia do Senhor, um mensageiro que, segundo interpretação do Evangelho segundo São Mateus, capítulo 11, versículo 10, é João Batista, o Percursor. O mensageiro preparará o caminho do Anjo da Aliança, que é o próprio Senhor, o Filho de Deus enviado ao mundo. O Anjo da Aliança, esperado pelo Povo de Israel, entrará no templo para criar uma nova atitude religiosa que, por sua vez, renovará o culto do templo. Será como o fogo fundidor e purificador, capaz de lavar os filhos de Levi, como se purifica o ouro e a prata para poderem apresentarem ao Senhor uma oferenda agradável.

Jesus é o Anjo da Aliança, presente no meio do Seu povo, tal como O foi, noutros tempos, a Arca da Aliança e a Nuvem da gloria de Javé. É o Anjo da Aliança, que entra no templo, para inaugurar o novo culto e a nova religião de espírito e verdade.

O Evangelho de São Lucas, na narrativa que acabámos de acolher, não centra a sua preocupação tanto na demonstração de que a Sagrada Família de Nazaré cumpriu a Lei, mas antes sugere o significado da apresentação ritual de Jesus aos habitantes de Jerusalém. Por isso, o Papa São Paulo VI diz: “A Igreja, guiada pelo Espírito, descobriu, para além do cumprimento da lei relacionada com o resgate dos primogénitos e a purificação da mãe, com o mistério de salvação. Isto é, notou a continuidade da oferta fundamental que o verbo encarnado fez ao Pai, ao entrar no mundo; viu proclamada a universalidade da salvação porque Semião, saudando no Menino a Luz que iliumina as nações e a glória de Israel, reconheceu nesse Menino o Messias Salvador de todos; e compreendeu a referencia profética à Paixão de Cristo: as palavras de Semião que uniam num só vaticínio o Filho, ‘sinal de contradição’, e a Mãe, ‘a quem a espada há-de trespassar a alma’ cumpriram-se no Calvário” (Marialis Cultus, 20,1). É neste sentido que a proclamação messiânica, com o consequente anúncio da profecia, constitui o ponto central deste relato evangélico.

Semião e Ana encarnam a esperança e a expectativa messiânica do povo. As suas intervenções são compêndio de cristologia. Iluminados pelo Espírito Santo, a Jesus chama já Salvador, Luz das Nações e Glória de Israel. Neste texto, há uma proclamação solene e oficial de Jesus, como Messias, no templo de Jerusalém.

A profecia dirige-se também a Maria: “uma espada de dor há-de trespassar-te a alma”. Depois da proclamação messiânica vem o anúncio do drama da Paixão. A Paixão faz-se presente e Maria entra nela associando-se como Mãe ao sacrifício do Filho, oferecendo e comungando a Sua Morte. Como ensina o Concilio Vaticano II na Constituição Dogmática LG 56, “Maria não foi instrumento passivo, mas cooperou ativamente na salvação dos homens com fé e obediência livres”.

A Semião juntou-se depois a profetiza Ana, representando todos aqueles que esperavam a salvação de Israel. São os pobres, os simples, o resto de Israel para quem Javé é a única esperança. São os que sabem ler os sinais dos tempos; são os que não se escandalizam com um Deus feito Menino, oferecido no templo como todos os primogénitos varões, resgatado com o preço do choro dos pobres, não com ouro ou prata mas com duas pombinhas ou duas rolinhas.

A segunda leitura, retirada da carta aos hebreus, apresenta-nos a Misericórdia de Deus, que não julgou indigno de Si fazer-se homem. A sua solidariedade com os homens foi tão longe, que se fez homem, em tudo igual a nós, exceto no pecado. E depois do seu percurso histórico, agora participa na gloria de Deus. Junto do Pai, Ele é o defensor da causa dos homens diante de Deus Pai.

Podemos dizer que a Festa da Apresentação do Senhor, mais do que um mistério gozoso, é um mistério doloroso. Jesus é levado ao templo para ser oferecido ao Pai. Aí começa a sua oferta dolorosa, que só terminará no Calvário e Maria estava lá comprometida na mesma oferta, formando, com o Seu Filho, a mesma hóstia imaculada. O Altar daquela Missa foram os braços de Maria. Pelos braços de Maria, toda a humanidade foi ao templo; nos braços de Maria, a humanidade e o universo tornam-se com Cristo a oblação pura.

É, neste contexto litúrgico, que dou graças ao Senhor pelos consagrados e consagradas da nossa Arquidiocese. Vós sois os braços de Maria que abraçam a humanidade e lhes testemunha a beleza do Amor de Deus. Vejo-vos como presença amorosa do mistério da encarnação, pois com a dádiva da vossa vida, tornais Cristo presente na nossa geração, através do vosso SIM constante à humanização pelos imensos serviços que prestais à humanidade. Sois presença silenciosa e orante; sois mãos que socorrem e acarinham; sois colo e afago que recolhe; sois coração, afeto e acolhimento; sois vinho novo e odres novos, alimentados pela Eucaristia; sois Eucaristia, Corpo de Cristo, no coração do mundo; sois Maria, que dá Cristo ao mundo. Bendito seja Deus por cada um e cada uma de vós!

Nesta Eucaristia, coloco o nosso Seminário com cada um daqueles que o constituem, no regaço amoroso do Ícone da Igreja, Maria, a Discípula e Mãe do Senhor. Que ao contemplá-la, toda a família do Seminário Maior de Évora, cresça e amadureça como Igreja Discípula Missionária, porque testemunha da Luz das Gentes.

Estimados seminaristas, nas rotundas complexas da vida, com imensas saídas e sem sinalética, rezo convosco para que façais sempre o vosso discernimento e o exercício livre da vossa escolha, iluminados pela Luz de Cristo. Que essa Luz vos revele a beleza do Seu rosto e do Seu chamamento. Eis-me aqui para servir! Envia-me!

Sintamo-nos todos convidados a renovar a alegria, que nos vem do nosso Batismo, discípulos missionários, com o nosso coração iluminado pela Luz, que é Cristo. Renovemos as promessas batismais e coloquemos a nossa vida sob o altar de Deus, como dádiva e consagração, que o nosso sacerdócio comum batismal nos leva a renovar, à maneira de Maria e de José.

 

+ Francisco José, Arcebispo de Évora

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