Homilia da Entrada Solene de D. Francisco Senra Coelho na Arquidiocese de Évora

Homilia da Entrada Solene de D. Francisco Senra Coelho

na Arquidiocese de Évora

1. Senhor Núncio Apostólico em Portugal, Dom Rino Passigato, saúdo, com amizade, Vossa Excelência Reverendíssima e, na sua veneranda pessoa, saúdo o Santo Padre, a quem agradeço a confiança ao enviar-me como Bispo para a vetusta Igreja Eborense, e manifesto a minha Comunhão com a sua pessoa, o seu Magistério, a sua profética e corajosa proposta e o seu compromisso em prol da renovação da Igreja. Comigo, a Igreja Eborense, neste momento e sempre, se une ao Papa, em profunda Comunhão e o coloca na sua permanente oração, confiante nos esforços empreendidos em mostrar ao mundo uma Igreja acolhedora, familiar, transparente e coerente.

2. Estimados irmãos no Episcopado, muito obrigado pela vossa presença! A vossa participação nesta Celebração testemunha a unidade da Igreja Católica em Portugal. Seja-me permitido saudar ainda pessoalmente a alguns Irmãos Bispos.

– D. Manuel Clemente e D. António Marto, muito obrigado pela vossa presença, a qual fortalece ainda mais a comunhão do colégio Episcopal e com o Sucessor de Pedro.

– D. José Alves, muito obrigado pela sua fidelidade a Deus e à Igreja, pelo seu dedicado serviço à nossa Arquidiocese. É para a Igreja eborense uma alegria saber da sua decisão de ficar entre nós, pois muito contamos com a sua sábia experiência, testemunho de vida e fraterna amizade.

– Ao D. Maurílio de Gouveia, que está espiritualmente unido a nós, no Eremitério do seu sofrimento, onde muito recentemente o visitei. Aí contempla, na serenidade e na paz, a beleza da Fidelidade a Deus e o encanto de, ao longo de mais de 60 anos, ter servido, com o melhor de si, a Esposa de Cristo, a Igreja. Para todos, trago os seus Cumprimentos. Permanecemos unidos a si, D. Maurílio, por meio da oração.

– D. Jorge Ortiga, Pastor da Arquidiocese onde permanecem as minhas origens familiares e onde iniciei o meu ministério Episcopal, muito obrigado pela maneira como me acolheu e pela confiança que em mim depositou. Que a Imaculada Conceição do Sameiro o continue acompanhar com o seu manto maternal e, com o caríssimo D. Nuno de Almeida, meu bom amigo e companheiro de Ministério, façam acontecer a Beleza da Comunhão e da Unidade no reflexo da Santíssima Trindade.

– D. Manuel Madureira Dias, dou graças a Deus pela sua presença e permanência no meio de nós. Conto sempre com a sua sábia experiência.

3. Uma palavra de boas vindas ao Sr. Duque de Bragança, agradecendo a sua presença nesta Celebração. Vossa Alteza faz parte da História viva desta Nação, desta cidade e desta Arquidiocese.

4. Cumprimento e agradeço a presença das Exmas Autoridades civis, militares, de Segurança e académicas. Cumprimento e agradeço também a presença dos Srs. presidentes das Câmaras Municipais, das Assembleias Municipais e Executivos. Querendo Deus, teremos tempo e oportunidade para dialogar e cooperar na edificação do bem comum, a favor das populações. Bem-hajam!

5. Não levarão a mal que eu, neste dia, com muito carinho e gratidão, vos apresente a minha mãe, que nos seus 83 anos, decidiu deixar tudo e vir comigo, para que eu tenha todo o tempo para vós. Muito obrigado, Mãe! E, nela, saúde e agradeça a toda a minha família, que se quis unir nesta celebração, os irmãos vindos da Arquidiocese de Braga, aos padres e amigos do Minho, particularmente os grupos organizados de Barcelos, Adães e da Comissão Arquidiocesana do Laicado e da Família, com os seus diversos movimentos. Muito obrigado pela vossa presença!

6. Por fim, desejo saudar, todos e cada um de vós e em vós, abraço todos os cristãos, da minha querida e amada Arquidiocese de Évora. Na peugada de Santo Agostinho, gostaria de vos poder dizer que “convosco sou Cristão e para vós sou Bispo”: que eu seja todo de Deus, todo da Igreja, todo vosso!

– Saúdo-vos, com o olhar do meu coração e profunda amizade, caros Padres, com quem partilhei a vida ao longo de 28 anos de Ministério, particularmente vós, Padres doentes e idosos, que com heróica generosidade continuais a servir até ao fim e também quisestes estar aqui hoje.

– Saúdo-vos, caros Diáconos Permanentes, as vossas esposas, as vossas famílias, as vossas Comunidades e a vossa missão. Sois a esperançosa presença da Igreja junto da humanidade, sinais vivos de serviço em união com o Bispo e o seu Presbitério.

– Saúdo-vos com gratidão e especial afecto, membros dos Institutos de Vida Consagrada, de vida contemplativa (as Monjas de Santa Beatriz, as Monjas de Belém e os Cartuxos) e de vida ativa, membros de Institutos Seculares e de outras formas de consagração, compromisso e disponibilidade. Sois sinal do Reino de Deus que já chegou e anunciais, desde já, a vinda gloriosa do Ressuscitado!

– Saúdo-vos, caros seminaristas e formadores dos três Seminários presentes na Arquidiocese. Sois o futuro promissor da Igreja. Sois um tesouro, porque, em vós, vigia a luz de Deus.

– Saúdo-vos queridos amigos e irmãos leigos desta querida Arquidiocese de Évora! Na alegria de estar convosco, vejo-vos como Corpo de Cristo. Convosco e em vós transfiguro Cristo ressuscitado a acolher o meu pobre “Sim” e a enviar-me convosco em missão: “Todos, tudo e sempre em Missão”, porque somos, por vocação baptismal, Discípulos missionários!

A ti, que és discípulo missionário, chamado a semear nesta Igreja o Dom Profético no anúncio vivo da Palavra, desejo compartilhar contigo a missão, porque te dedicas ao serviço comunitário do anúncio e aprofundamento da Palavra de Deus; a ti, que és discípulo missionário e dedicas o teu compromisso comunitário, preferencialmente ao serviço da Liturgia, a minha comunhão na oração; a ti, que és discípulo missionário, chamado a ser Pastoral profética e sócio-caritativa num amplo e mesmo compromisso de com todos mostrar o Coração paterno e materno de Deus e por todos concretizas o mandamento novo em obras de misericórdia; a ti, que és discípulo missionário, e não pudeste estar fisicamente aqui, mas estás connosco, através dos meios de comunicação social, recebe o meu fraterno, amigo e reconhecidíssimo abraço!

Contigo, que és discípulo missionário, coloco o meu Ministério nas mãos da Mãe de Jesus e da Igreja, Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da Arquidiocese. Que o pálio que recebi, e levo sobre os ombros, tecido com lã de ovelha e abençoada pelo Sucessor de Pedro, me faça lembrar sempre as ovelhas mais frágeis e carentes. O termo palium tem a mesma origem etimológica do termo paliativo: que ele me cubra e proteja com a Misericórdia de Deus e, comigo, a todos os pobres e a todos os que têm fome e sede de justiça. E assim: Bispo, Padres, Diáconos, Consagrados, Consagradas e Leigos, todos juntos, com Cristo, fomos, somos e seremos DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS!

7. O Evangelho de S. Marcos, servindo-se de uma narrativa espontânea e ainda sem grande elaboração, mostra-nos hoje, como os fariseus, vindos de Jerusalém, ao verificarem que os Discípulos tomavam as refeições sem antes realizar o ritual da purificação das mãos, se escandalizavam com Jesus. Perante o escândalo dos Fariseus, Jesus denuncia as vivências Religiosas que apostam apenas na repetição de práticas externas e formais, sem se preocupar com a vontade de Deus e com as necessidades dos Irmãos. A estes, Jesus chama hipócritas, mais preocupados com a aparência do que com o ser, cumprem regras, mas não amam e, por isso, não servem, mas servem-se de Deus para se imporem e dominarem os outros.

A verdadeira preocupação do Discípulo de Jesus é moldar o seu coração para que os seus desejos, sentimentos, pensamentos, projetos e decisões se concretizem no seu quotidiano, iluminados por critérios Evangélicos, os quais levam a desafios de verdade, transparência e humanização. Sim, a vivência da verdadeira relação com Deus levar-nos-á sempre a aprofundar a nossa Comunhão com todos os seres humanos e alargar a nossa tenda interior ao acolhimento, à tolerância e à construção do Bem Comum, a Paz.

O legalismo religioso deturpa e caricaturiza a verdadeira relação com a beleza de Deus; no seu entendimento, cumpridas todas as regras e prescrições, Deus seria apenas chamado para apreciar e testemunhar o nosso esforço e para nos atribuir o prémio que reclamamos. Este orgulho leva à soberba da auto-suficiência, da auto-contemplação e da auto-salvação. Reside nesta compreensão da religião a base de muitas atitudes fundamentalistas, soberbas, hipócritas e até violentas que todos reconhecemos e lamentamos na história e na atualidade. Não nos esqueçamos que o nosso Deus é próximo do Seu povo, confia-nos os Seus Mandamentos para que os guardemos e amemos com sabedoria e inteligência, saboreando assim, e desde já, a herança prometida àqueles que, na fidelidade ao Amor do seu Senhor, se tornam Seu Povo.

8. Como novo Israel, a Igreja Eborense revê-se no chamamento de Deus à humildade, à fidelidade e ao serviço. Só na transparente busca da Verdade, pela coerência, seremos uma Igreja acolhedora, uma família em tenda alargada; disponível e preparada para acolher todos o que chegam feridos pela vida, deserdados pelo abandono, e, por isso, buscam uma porta aberta de assumida humanização.

A proximidade que o Bom Pastor pede à Sua Igreja nasce da autêntica experiência do Seu Amor e da Sua libertação, para amarmos com o Amor com que somos amados. Só neste Amor Agápico, e não em estéreis e legais formalismos, é possível cuidar dos tecidos rasgados da Sociedade e da Igreja e refazer a plena confiança na possibilidade da partilha e da comunhão. Por isso, a Igreja de Évora pede humildemente, ao seu Senhor, o Dom da permanência e da docilidade na e à Sua Palavra. Importa abrir o Coração à Palavra semeada por Deus, para que esta possa lançar raízes e desenvolver-se nas nossas vidas e na vida das nossas Comunidades.

A escuta da Palavra de Deus conduz-nos ao abandono do homem velho e ao nascimento do homem novo, identificado com os valores e critérios de Cristo. Nunca a palavra de Deus nos fecha no intimismo autocentrado, estéril e alienante, mas abre-nos ao compromisso efetivo com a transformação humanizante do mundo, na cooperação com todos os humanos de boa vontade. “A religião pura e sem mancha aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo” (Tg 1, 27).

9. Com o Evangelho, sentimo-nos chamados a, em união com o Papa Francisco, estar na proximidade de todas as periferias; a sabermos acolher, consolar, cuidar e integrar nas nossas Comunidades os que chegam feridos pela desumanidade descartante de um mundo que tantas vezes se torna imundo.

A fidelidade à Palavra de Deus exige de nós estudo, formação e ação. À maneira do Bem-aventurado Paulo VI, queremos continuar e incentivar os pequenos grupos e comunidades, nas nossas opções de Evangelização. Sem esquecer a importância dos grandes encontros e eventos, sabemos que a respiração quotidiana da Fé acontece nos encontros personalizados, na partilha da Palavra, pela Lectio Divina e no compromisso fraterno e comunitário. Eis uma longa experiência da nossa Arquidiocese! Importa nunca desfalecermos!

10.Quem entrará no Santuário do Senhor? O que vive sem mancha, pratica a justiça e diz a verdade que tem no seu coração”.

Eis a tarefa e o testemunho que nos pedem com todo o direito os jovens neste tempo pré-sinodal: uma Igreja familiar, transparente e coerente.

Caros jovens, os sinais dos tempos convidam-nos a alargar horizontes de dádiva de vida e serviço voluntário, vós não sois só a Igreja do amanhã, sois já o hoje, o rosto jovem, primaveril, criativo e esperançoso da Igreja em renovação. Vós, jovens tendes voz e insubstituível lugar na Igreja, porque sois Igreja.

Quem entrará no Santuário do Senhor? Os que têm o coração jovem e, por isso, são criativos e conduzem consigo muitos irmãos às fontes da Salvação. Que as nossas Comunidades saibam convocar, chamar, confiar e enviar, apoiados pelos ministérios eclesiais, que são expressão e concretização da Comunhão e da Sinodalidade.

Estimados irmãos e irmãs, com as crianças, adolescentes e jovens, de mãos dadas pela paz, na tolerância e no respeito, aprendamos, com a Palavra de Deus, a construir a casa comum, comprometemo-nos com uma cultura ecológica global para olharmos para o futuro com esperança.

11. Em Ano Missionário, peçamos ao Senhor renovadas Graças, para que, com renovado entusiasmo, continuemos a ser Igreja em saída. Com a riqueza da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, sejamos profecia da nova Humanidade e semeadores de Esperança. “Que ninguém nos roube a Esperança!”

A Seara é grande e o trigo está maduro que ninguém se sinta inútil e incapaz, pois todos sabemos amar e fazer o bem, como proclamava o Santo Alentejano João de Deus, “Fazei o bem a vós mesmos Irmãos”.

Igreja de Évora convoco-Te para a Missão! O Sol vai alto! Vamos trabalhar para a Vinha do Senhor que, nesta porção da Humanidade, nos foi confiada! De mãos dadas, porque somos discípulos missionários, não nos esqueçamos: “Todos, tudo e sempre em Missão”. Amen.

+ Francisco, Arcebispo de Évora

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