HOMILIA DO ARCEBISPO DE ÉVORA NO PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

1º DOMINGO DA QUARESMA – Homilia

Basílica Metropolitana de Évora – 11/03/2019

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, as leituras bíblicas lembram-nos que estes quarenta dias são um convite a passarmos também nós pelo deserto, que ainda não chegámos a casa! Somos nómadas que o Senhor libertou do Egipto, da terra da escravatura, pelo Batismo, e a quem prometeu “uma terra onde corre leite e mel” (Dt 26,9), a Páscoa definitiva nos leva para além do deserto desta vida. A Quaresma é o tempo propício para nos darmos conta deste “nomadismo”, ou seja, da nossa radical condição de viandantes, peregrinos e romeiros em direção à casa do Pai, de alguém ainda a caminho e em construção.

É neste contexto de peregrinação a caminho da “ terra prometida” que a Primeira Leitura nos recorda, “O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido”, que a Palavra de Deus nos apela a repensar as nossas escolhas e opções de vida, a fim de nos apercebermos das “tentações” com que muitas vezes somos confrontados e nos podem impedir de vivermos a vida Nova, oferta do nosso Baptismo. Como nos recorda ainda a Primeira Leitura, são os falsos deuses que precisamos de eliminar. São Lucas apresenta-nos “Jesus, cheio do Espírito Santo” e refere que “conduzido pelo Espírito Santo, durante quarenta dias, esteve no deserto, e aí foi tentado pelo diabo”. Jesus Cristo percorre o mesmo caminho de João Batista, mas em sentido contrário: do Jordão partiu para o deserto, ou seja, o encontro com o anúncio do Reino pela Palavra, sugeriu-lhe silêncio e oração. É aí, no desejo de se centrar só na Palavra do Pai, que Santanas O tenta.

O deserto, no Contexto Bíblico, é sempre um lugar desconcertante na qual a pessoa, individual ou coletiva, pode fazer a experiência de Deus e da vida, ou do diabo e da morte. Para Jesus Cristo, o deserto tornou-se lugar de confronto com a tentação, isto é, com a possibilidade de ser infiel à missão confiada por Deus Pai. A resposta de Jesus é absoluta: «Não tentarás o Senhor Teu Deus». Ele recusa radicalmente caminhos de materialismo, de poder e de êxito fácil e vedetistico. Para Ele, é claro que o Plano de Deus, não passa pelo egoísmo, mas pela partilha; não passa pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passa pelo protagonismo pessoal impressionante, mas pela verdade de vida, assumida na coerência da simplicidade e do Amor.

Como nos diz S. Paulo na sua Epístola aos Romanos, proclamada na Segunda Leitura, a Salvação não é uma conquista nossa, mas um dom gratuito de Deus: Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo».(Rm 10, 9). É pois necessária a nossa conversão autêntica e sincera a Jesus, recebendo-O na nossa vida toda como Senhor e acolher no nosso coração a Salvação que em Jesus, o Pai nos propõe e oferece.

«Se és filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão», (Lc 4, 3) desafia Satanás. Contra esta tentação lutou Jesus a vida inteira. A tentação dos privilégios, da vida sem cruz. Ainda hoje, muitos procuram um Jesus sem cruz. Buscam na religião a resolução dos seus problemas pessoais, financeiros e familiares. Desejam somente um Jesus milagreiro, que transforme sem custo as pedras do seu caminho em Pão. Evitando assim o custo da doação de vida e da entrega no amor.

«Se te prostrares diante de mim, tudo será teu», ( Lc 4, 7) continua o tentador. Trata-se de uma provocação real e poderosa, que atravessa transversalmente todas as camadas da sociedade; é a sedução da corrupção e da desonestidade que não olha a meios para atingir fins. «Ao Senhor Teu Deus adoras, só a Ele prestarás culto», (Lc 4, 8) responde Jesus. S. Paulo insistia junto dos primeiros cristãos de Roma: «Se confessares Jesus com a tua boca e com o teu coração, que Jesus é o Senhor, serás salvo». (Rm 10, 9).

«Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo», (Lc 4, 9) foi assim que o pai da mentira tentou Jesus no pináculo do templo. Depois, citou as escrituras: «Ele dará ordem aos Anjos, a teu respeito, para que te guardem». (Lc 4, 10) Percebemos como o demónio manipula as Sagradas Escrituras, servindo-Se da Palavra de Deus para justificar os seus interesses egoístas e ávidos de poder. Também no mundo actual, é frequente misturar a Fé com crenças vagas em “energias positivas” e doutrinas de autoajuda em gestos simétricos, gnósticos e neoplagiamos de autossalvação e autorrealização. A estas tentações da salvação do Homem pelo próprio homem e sem Deus, escusando e encobrindo o valor redentor de Jesus Cristo, respondemos com o salmista «Estai comigo Senhor, no meio da adversidade”. “Sois o meu refúgio e a minha cidadela: meu Deus, em vós confio». (Sl 91, 2)

É longa a experiência a experiência dos Homens nas suas escolhas sem Deus ou contra Deus: a coleção de longas desumanidades registadas pela história sob o denominador comum designado por Humanismos Ateus! Sem a bondade de corações novos não se pode distribuir o pão da justiça, e só a palavra de Deus pode renovar os corações.

Estimados irmãos e Irmãs, como diz o “Ritual Romano de Iniciação Cristã dos Adultos”. O Princípio da Quaresma, que é a preparação próxima da iniciação Sacramental, celebra-se a “Eleição dos Catecúmenos já preparados para a celebração dos Sacramentos da Iniciação Crista na Páscoa que se aproxima. Os Padrinhos e os catequistas dão o seu testemunho, os catecúmenos confirmam a sua determinação e a Igreja emite o seu juízo sobre o estado de preparação dos mesmos, decidindo sobre a sua possibilidade de se aproximarem dos Sacramentos pascais. Com a celebração da “Eleição” encerra-se o catecumenado propriamente dito.

Rezemos para que os catecúmenos aqui presentes e já chamados pelo seu nome, na intimidade dos seus corações, sejam verdadeiramente incluídos entre os eleitos de Deus. Aquele que é o Amor primeiro, «Não fostes vós que me escolhestes, fui Eu que vos destinei para que dês muito fruto». (Jo, 15, 16) Rezemos para que cada um deles tenha Fé esclarecida e vontade deliberada de seguir o Senhor, como Discípulos Missionário.

Nos passos do Mestre, somos todos convidados a ir ao deserto Quaresmal conduzidos pelo Espírito Santo. O deserto Quaresmal confronta-nos com a nossa identidade e Missão, Discípulos Missionários. Entremos no deserto Quaresmal com os pés descalços, mãos vazias e coração aberto, para que se possam encher dos dons divinos. Entremos com os olhos fixos n Palavra de Deus, a qual há-de brotar dos nossos lábios com a confissão de Fé. No centro do combate está a Palavra de Deus: “ É preciso realçar que, quando é tentado pelo diabo, o Senhor responde com textos da Sagrada Escritura. Diz-nos S. Gregório Magno: A Quaresma é um convite para que todos enraizemos a nossa vida com a Palavra de Deus.

As tentações de Jesus, símbolo de todas as tentações humanas, mais do que uma descrição histórica, são uma catequese exemplificada, para que vivamos os valores e os critérios da Palavra de Deus. Que a Palavra de Deus seja a nossa Bússola de vida e que nesta Quaresma seja mais abundantemente rezada por nós.

Preparem-se os catecúmenos pela Lectio – Divina frequente para a celebração do seu Batismo, Confirmação e Eucaristia sempre que possível na Vigília Pascal. Preparemo-nos nós, amados cristãos para os merecermos com as nossas vidas e os recebermos nas nossas comunidades com caridade. Que todos, com Maria a Mãe de Jesus e Primeira Discípula entre os discípulos nos preparemos para as promessas batismais ou para a sua renovação. Eis a Estrada da Salvação! O BATISMO CELEBRADO E VIVIDO.

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

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