Peregrinação das Famílias 2018: Homilia do Arcebispo de Évora

PEREGRINAÇÃO DIOCESANA DAS FAMÍLIAS

Vila Viçosa, 26.05.2018

 

Meus estimados irmãos,

É sempre com redobrada alegria que nos congregamos neste histórico santuário, dedicado pelos nossos antepassados à Imaculada Conceição da Virgem Maria, a quem, com alma iluminada pela fé, invocamos como nossa Rainha, Padroeira e Mãe. Cientes da nossa fragilidade de pobres pecadores, aqui viemos cheios de confiança para pedir a sua protecção de Mãe bondosa sobre cada um de nós e sobre todas as famílias, nomeadamente, aquelas que se encontram em dificuldades. E hoje unimo-nos de modo especial aos casais que no decorrer deste ano comemoram 25 e 50 anos de matrimónio, para agradecer a força interior que lhes permitiu ultrapassar as dificuldades, as graças que consolidaram a sua comunhão sacramental e as múltiplas alegrias que lhes foi dado viver ao longo destes anos em família. Para todos imploramos abundantes bênçãos divinas e vida longa em companhia de todos os seus familiares.

As leituras escolhidas para esta celebração apontam para alguns dos valores fundamentais da vida cristã e da vida em família. Na primeira leitura é posta em evidência a natureza relacional do ser humano, ao colocar na boca de Deus as palavras: não é bom que o homem esteja só (Gen 2,18). E o Criador deu-lhe uma auxiliar semelhante a ele, com a qual podia entender-se, estabelecer relação de reciprocidade, de complementaridade, de comunhão e de amor, de acordo com o modelo divino, a cuja imagem e semelhança fora criado. Ora, o modelo divino – Pai, Filho e Espírito Santo – é Trindade e é Unidade. É relação, é comunhão, é AMOR. O casal humano, criado segundo a imagem de Deus, deverá esforçar-se por traduzir essa imagem no seu comportamento.

São dois. Têm capacidade de relação, uma relação de amor que há de tender para a comunhão e para a unidade, como sugere o texto sagrado ao afirmar: e serão os dois um só. E não apenas por algum tempo mas por toda a vida, tal como o explicitou Jesus Cristo, quando foi interrogado sobre essa questão e respondeu: não separe o homem o que Deus uniu (Mc 10,8).

Porém, a experiência diz-nos que nem sempre assim acontece. Nos nossos dias são muitos os casais que, por razões variadas e complexas, não trilham esses caminhos da união indissolúvel. Mas, nesta hora particularmente dedicada à família, nós queremos tê-los aqui presentes em espírito. Também por eles rezamos a Maria, esposa e mãe, modelo de todas as esposas e mães, pedindo-lhe que os proteja e conduza pelos caminhos da paz, da harmonia e do bem.

No entanto, o ideal apontado por Deus prevalece como o caminho que melhor se ajusta ao modelo divino. É ele que garante fecundidade ao amor e ambiente privilegiado para a educação dos filhos. Pois nada existe que possa substituir o amor sincero, consolidado e incondicional dos pais. Infelizmente, no nosso país, é frequente subtrair os filhos aos pais e colocá-los em instituições do Estado, justificando esse procedimento com a garantia de melhores condições pedagógicas ou de habitação, esquecendo que essas condições, só por si, não podem substituir o amor. Educação sem amor não é educação. E as crianças, acima de tudo, precisam de amor. Foi essa uma bela lição que Jesus deu aos seus discípulos, quando se mostraram impertinentes com as crianças. Jesus repreendeu os discípulos mas acarinhou e abençoou as crianças. Bela forma de nos fazer compreender que as crianças precisam de amor. E amor incondicional só os pais o podem dar. Tudo o resto são paliativos ou remendos das roturas que acontecem nas famílias.

E acontecem muitas roturas nas famílias. A instabilidade familiar é, porventura, um dos maiores problemas da nossa sociedade e o distanciamento entre os pais e os filhos, talvez a sua consequência mais gravosa, para a qual não se antevê remédio. No entanto, o compromisso social e a corresponsabilidade eclesial de que estamos investidos impelem-nos a todos a sair da nossa zona de conforto para ir ao encontro das situações que precisam de ser iluminadas com a luz do Evangelho. Neste sector, as famílias católicas, que acolheram na mente, guardam no coração e se esforçam por pôr em prática a palavra revelada sobre o matrimónio, têm um papel fundamental.

 Estimados casais católicos, a sociedade precisa de vós. A Igreja conta convosco. Deus envia-vos a dar testemunho da vossa fé, do vosso estilo de vida, levando no coração as palavras que S. Paulo dirigiu aos cristãos de Filipos: alegrai-vos sempre no Senhor (Filip 4,4). A alegria interior é o segredo da vida familiar estável e feliz. Porém, para que a alegria brote do interior de cada um, é preciso cultivá-la pela oração e pelo exercício quotidiano que permite afastar o que a perturba e cultivar o que a promove. A alegria nasce de um coração que dá sempre lugar à verdade e à justiça, promove a amabilidade, suporta as fraquezas dos outros, e, à semelhança do perdão gratuito que Deus oferece a todos, perdoa-se a si próprio e torna-se capaz de perdoar aos outros.

Quando entre os esposos se cultiva o perdão, os laços do amor fortalecem-se. Os filhos aprendem as diferentes facetas do amor. Experimentam a beleza do amor e percebem como ele precisa de ser cultivado, sempre sem desfalecimento: nos dias de festa, nos dias comuns, nos dias de trabalho duro, nos dias de zangas, de impaciências ou de amuos. Sempre. O amor sincero e gratuito não é espontâneo e sentimental. É mais profundo, mais genuíno e mais autêntico. Mas precisa de ser cultivado com gestos simples e palavras sinceras. Como recomenda o Apóstolo: não se ponha o sol sobre os vossos desentendimentos. Aqui se encontra o segredo do amor indefectível, que, em vez de diminuir, cresce ao longo da vida. Pode diminuir em sentimento mas aumenta em verdade, em profundidade e gratuidade. Uma gratuidade que leva à dedicação mesmo quando a vida do outro se deteriora e já não lhe permite retribuir, porque a vida é sempre um dom inestimável de Deus, para o próprio e para os outros. Só Deus pode dispor dela.

Ora, quando isso acontece, a família transforma-se numa verdadeira escola de humanidade, de sociabilidade, de vida eclesial e de santidade, onde se aprende o caminho da maturidade humana que faz de cada um dos membros um ser amável e capaz de amar sem reserva, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, o verdadeiro homem que amou sem limites e revela ao homem o nele existe. O que existe em cada ser humano é uma sede insaciável de infinito que só Deus pode saciar, não no cenário deste mundo mas na eternidade. Esse outro cenário que só a fé nos permite vislumbrar, abrindo um novo horizonte à vida e ao amor, onde encontram remédio todos os sacrifícios e penas deste mundo. Assim nos ensina a fé da Igreja. E, baseados na fé, continuamos a viver neste mundo, animados pela jubilosa esperança de alcançarmos o mundo novo que há de vir.

+José, Arcebispo de Évora

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