Quinta-feira Santa, Missa Crismal: Homilia do senhor Arcebispo de Évora, D. José Alves

A Celebração eucarística realizada na manhã de Quinta-feira Santa é enriquecida com a bênção dos óleos e com a renovação das promessas sacerdotais de todo o presbitério da Arquidiocese. A bênção dos óleos sublinha de forma expressiva que a eficácia dos sacramentos deriva do Sacrifício de Cristo (S.C. 61), que se renova e prolonga na celebração da Eucaristia. A renovação das promessas sacerdotais traduz com particular beleza que o bispo é “o fundamento da unidade na sua Diocese” (L.G.23). Pela imposição das mãos e a unção com o óleo do Crisma, Bispo e sacerdotes foram constituídos “servos do Mistério” e instrumentos da graça sacramental, pela ação do Espírito Santo que atua neles e por eles santifica o Povo de Deus. Agradecidos pela sublime missão que lhes foi confiada e cientes da sua fragilidade, os presbíteros congregaram-se para implorar a misericórdia de Deus e renovarem o seu compromisso de viverem em íntima união com Cristo que os escolheu, os ungiu e os enviou, como dispensadores dos mistérios de Deus e anunciadores da Palavra, dando testemunho das maravilhas divinas operadas nas suas vidas.

Os presbíteros são servos do mistério. Não atuam por sua livre iniciativa. Devem seguir o exemplo de Cristo que os escolheu. Cristo veio por todos e para todos. Não faz acepção de pessoas. Por isso dialogava com todos e a todos acolhia, mostrando predileção pelos pobres, os fracos, os doentes e os que se encontravam em tribulação, dando assim cumprimento à profecia de Isaías que Ele próprio leu na sinagoga de Nazaré, afirmando, em seguida, que se acabava de cumprir n’Ele mesmo.

Ora bem, todos nós que fomos ordenados para dar continuidade à obra redentora de Cristo, queremos hoje mais uma vez professar a nossa fé no ministério sacerdotal e renovar a nossa fidelidade ao serviço sagrado que nos foi confiado em favor do Povo de Deus.

Meus caros presbíteros, o ministério pastoral quando é assumido com entusiasmo e no seu autêntico sentido sobrenatural, torna-se uma tarefa fascinante, permite-nos tocar o dom de Deus que transforma os corações, levanta os abatidos, conforta os tristes, pacifica os pecadores, orienta os hesitantes e confirma a fé dos humildes. Porém, sendo sublime, o ministério sacerdotal nãos deixa de ser árduo e exigente. Pode mesmo ser causa de incompreensão ou de marginalização. E nenhum ministro ordenado está isento de experimentar o cansaço, a desconfiança, o isolamento e a solidão, sobretudo quando se privilegia o ativismo e se secundariza a vida espiritual, esquecendo que Jesus chamou os Apóstolos, em primeiro lugar “para estarem com Ele” (M3,14) e só depois os enviou a evangelizar.

Com esse procedimento, Jesu quis ensinar-nos que a fecundidade do apostolado depende, antes de mais, da vivência interior e do tempo passado em intimidade com o Mestre. Assim, o presbítero, se quiser que a pregação, a administração dos sacramentos e a gestão das realidades paroquias ou socio- caritativas produzam frutos, há de encontrar tempo para estar com o Mestre, porque a vida espiritual merece prioridade absoluta. Recorrendo a uma terminologia profissional, poderíamos dizer que “a profissão” do presbítero é rezar, a exemplo de Jesus. As suas múltiplas ocupações com a pregação, o acolhimento das pessoas, a cura dos doentes, o diálogo com aqueles que o procuravam em particular, eram de tal ordem que quase o privavam de comer. Mas nunca o impediram de dedicar longos períodos de tempo à oração, à intimidade com o Pai.

Com essa sua atitude, Jesus quis, certamente, ensinar-nos a importância da oração e fazer-nos compreender que sem oração não há verdadeira atividade pastoral, tanto mais que o próprio sacerdócio foi instituído na sequência de uma longa oração de Jesus dirigida ao Pai. Sem essa ligação de proximidade com o Senhor, o ministério presbiteral corre o risco de deixar de ser genuíno serviço pastoral para se transformar em hábito rotineiro ou mero funcionalismo, gerador de vazio interior, que facilmente deriva para o individualismo, com o consequente afastamento da comunhão eclesial.

Caros irmãos em Cristo, se quisermos evitar a deriva do individualismo, dediquemos tempo à oração, à intimidade com o Senhor. Pois, só Ele nos pode libertar do isolamento e da solidão. Só ele nos conduz à comunhão com os irmãos e nos ensina a viver em espírito de serviço, de fidelidade e de obediência eclesial. Só Ele nos pode fazer compreender que os fiéis a nós confiados têm direito às celebrações litúrgicas como a Igreja as propõe e à apresentação do Evangelho “como potência de Deus para a salvação daqueles que creem” (Rom. 1,16) e não segundo o entendimento individual de cada um, como se a parcela do Povo de Deus que nos está confiada não fosse parte integrante da única Igreja de Cristo.

A concluir, proponho-vos que nos voltemos para Maria, Mãe da Igreja e Serva humilde do Senhor. Peçamos-lhe que venha em nosso auxílio e nos ensine a acolher a Palavra de Deus e a meditá-la profundamente para a testemunharmos com a nossa vida.

Évora, 29.03.18

+ José, Arcebispo de Évora

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