Conclusões das jornadas de actualização do Clero das Dioceses do Sul (Évora, Beja e Algarve)

ACTUALIZAÇÃO DO CLERO DAS DIOCESES DA PROVÍNCIA ECLESIÁSTICA DE ÉVORA

Diálogo, opção Evangélica e ponte civilizacional

            As jornadas de actualização do clero das Dioceses de Évora, Beja e Algarve, organizadas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, decorreram, este ano, entre os dias 18 e 21 de Janeiro. Este encontro era costume realizar-se no hotel Alísios em Albufeira, Algarve, e congregava cerca de uma centena de sacerdotes e diáconos das três dioceses sendo que, nos últimos anos, também havia participação do clero da diocese de Setúbal. Este ano, por motivo da pandemia, as sessões foram on-line e os participantes cerca de setenta, incluindo os três Bispos, que acompanharam todos os trabalhos.

O tema do diálogo foi abordado por vários conferencistas em três âmbitos: o diálogo inter-religioso, o diálogo ecuménico e o diálogo com os sem religião no contexto de um mundo secularizado e descristianizado.

Os documentos da Igreja e o magistério do Papa Francisco apresentam o diálogo inter-religioso como uma necessidade vital e não como algo opcional. O diálogo não se opõe à missão mas, acompanha-a e faz parte da própria missão evangelizadora da Igreja (Redemptoris Missio, 55). “Nunca se deve descuidar o vínculo essencial entre diálogo e anúncio” (Evangelii Gaudium, 251). Nas orientações fundamentais para o diálogo, face a algumas objecções que, por vezes, são colocadas, ou aos receios manifestados por determinados sectores da Igreja, o Papa Francisco recorda “o dever da identidade, a valentia da alteridade e a sinceridade das intenções”.

Foi dedicada uma atenção especial ao diálogo com os crentes do Islão promovido pelo Pontifício Conselho para o diálogo inter-religioso, um organismo da Santa Sé, que tem este nome desde 1988. Ao longo dos últimos anos têm-se realizado vários encontros e o resultado mais significativo é o Documento sobre a fraternidade humana pela paz mundial e a convivência comum, assinado no dia 4 de Fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, por dois homens anciãos e sábios, o Papa Francisco e o Imã Ahmed Al-Tayyeb. Este documento manifesta que o diálogo entre as religiões é essencial na construção da paz e da fraternidade e que as próprias religiões não são estruturas fechadas mas estão, elas próprias, em caminho. Para consolidar a importância deste documento parece que o dia 4 de Fevereiro vai ser consagrado como o dia da Fraternidade Universal.

Sublinhou-se que o diálogo inter-religioso tem um alcance que ultrapassa a esfera de actuação das religiões e está ao serviço de toda a humanidade como o demonstram as recentes Encíclicas sobre a ecologia integral (Laudato Si) e a fraternidade universal (Fratelli Tutti). São dois documentos intimamente ligados que se complementam entre si. O capítulo VIII da Fratelli Tutti trata das religiões ao serviço da fraternidade no mundo e recorda que somos todos irmãos, que ninguém está excluído, e que é preciso passar da tolerância à convivência fraterna.

No que se refere ao diálogo ecuménico, recordou-se a história da separação das Igrejas ao longo dos séculos, tanto no Oriente como no Ocidente. Contudo, deu-se particular realce ao caminho percorrido pelo movimento ecuménico até chegar ao momento actual. Não deixa de ser curioso que estas jornadas tenham acontecido em plena semana de oração pela unidade dos cristãos, que se celebra entre os dias 18 e 25 de Janeiro, todos os anos. Foi uma coincidência muito interessante.

Depois de cinquenta anos de ecumenismo há ainda caminho a percorrer: é preciso encontrar um conceito comum de unidade da Igreja; uma forma de um ministério universal de comunhão; redescobrir os campos comuns onde se deve investir mais com ardor e comunhão e acompanhar este trabalho com o esforço de ir às raízes das nossas identidades; apoiar acções comuns na relação da Igreja com a cultura e manter sempre vivo o desejo ardente da unidade.

O diálogo católico-ortodoxo ocupa largo espaço no Decreto Conciliar Unitatis Redintegratio. Já antes do Concílio Vaticano II tinham sido dados passos de aproximação e, depois, multiplicaram-se os contactos e os documentos comuns aclarando conceitos como os da sinodalidade e do primado. Apesar das dificuldades, devido, sobretudo, à multiplicidade de expressões eclesiais no Oriente, o diálogo não pára e notam-se alguns progressos.

Um aspecto importante do diálogo ecuménico é o que o Papa Francisco chama de “ecumenismo de sangue”. Quando os cristãos são perseguidos e martirizados, não o são por serem desta ou daquela Igreja ou tradição cristã. São perseguidos por acreditarem na Redenção de Cristo e, sendo assim, esta comunhão no martírio será semente, não só de cristãos, como dizia Tertuliano, mas também de unidade dos cristãos.

A catolicidade da Igreja, entendida como a presença da totalidade de Cristo na sua plenitude em cada lugar e com diferentes expressões, implica o reconhecimento da pluralidade, e é sempre um convite a agir naquilo que é comum e a evitar aquilo que pode dividir.

A abertura ao diálogo envolve, não apenas os crentes pertencentes a uma determinada religião, mas também os sem religião, crentes e não crentes. A situação actual das nossas sociedades, que é caracterizada pelo “nomadismo religioso” obriga a repensar as formas comunitárias e a dar resposta ao fenómeno da mobilidade, que caracteriza o estilo de vida actual.

Hoje, não obstante todas as dificuldades, apresentam-se grandes oportunidades à Missão e à Nova Evangelização. A modernidade e o progresso não trouxeram a prometida felicidade ao homem. Sempre a partir de Cristo, pelo caminho da humildade e do diálogo, com alegria, esperança e apontando caminhos de libertação, há espaços de encontro com o mundo actual nas suas diversas expressões religiosas e culturais.

 

P. José Morais Palos