Às Terças Com...

«Ensinava-os como quem tem autoridade» (Mc 1, 22).

Passou o “Tempo do Natal” com o cumprimento das promessas messiânicas e com ele passou também o tempo das epifanias ou manifestações do Senhor. Estamos já no início do tempo comum, mas o evangelho de hoje situa-nos na continuação das manifestações que revelam o mistério de Jesus. De nada teria valido saber a história do Messias que, há dias, contemplámos nascido em Belém, se, escutando as suas palavras e vendo as suas obras, não soubéssemos responder àquela pergunta que, no evangelho, faziam a si próprios os que haviam contemplado o poder de Jesus sobre os espíritos: “Que vem a ser isto?” (Mc 1, 27).

Surpreende o facto de que, em plena oitava do Natal, a liturgia nos proponha a celebração do martírio de Santo Estevão, o primeiro mártire cristão, e ainda o martírio dos Santos Inocentes. A seguir à manifestação da vida com o mistério da Incarnação do Verbo, somos confrontados com a dura realidade da história que, todavia, em Cristo, Verbo incarnado, adquiriu um horizonte novo de sentido. Na verdade, Estevão, antes do martírio, viu o Céu aberto e nele o Ressuscitado que vinha ao seu encontro no martírio que de imediato teve lugar. E os Santos Inocentes pagaram, com sangue derramado, o preço do ódio contra o próprio Messias. Como se a luta contra o mal, a que a Incarnação dera uma nova reposta, na história, fosse confiada também a cada um de nós: “ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida pelos seus amigos” (João 15,13).

Creio ser este o sentido grande da nossa fé: Cristo entrou na história para nos tornar participantes e protagonistas, com Ele, na Redenção da humanidade e na transformação da história e da realidade que a compõe. Não podemos comportar-nos como espectadores e continuar a perguntar simplesmente: “Que vem a ser isto?”.

Nós sabemos que Cristo vive no meio de nós e que Ele é o verdadeiro sentido da história. Nos tempos conturbados que atravessamos, àqueles que continuam a interrogar-se sobre o que é isto e que sentido têm os acontecimentos que parecem nos esmagar, somos chamados a ver, por de trás de tudo isso, o Ressuscitado que é sentido último para tudo aquilo que ainda não conseguimos decifrar no hoje da nossa história.

Com este primeiro contributo está delineado o estilo do que entendo propor para o apontamento “às terças com…”. Partir sempre da palavra da liturgia do dia: o Verbo incarnado que cada dia fala aos homens, para descobrir nela o sentido da história e identificar os desafios a que somos chamados, para neles actualizar, em Cristo ressuscitado, o mistério da sua incarnação redentora.

Cónego Silvestre Ourives Marques