Às Terças Com...

“…como se olha para uma pessoa…”

No próximo dia 11 de Fevereiro, a Igreja celebra o XXV Dia Mundial do Doente, desta vez com o tema: “Admiração pelo que Deus faz: o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas”. O Papa Francisco decidiu centrar a Jornada em Lourdes, lugar onde a iniciativa principiou, pela mão de João Paulo II, em 1993.

Na sua mensagem alusiva a este dia, Francisco dá o tom para as celebrações: “Como Santa Bernadette, estamos sob o olhar de Maria. A jovem humilde de Lourdes conta que a Virgem, por ela designada «a Bela Senhora», a fixava como se olha para uma pessoa. Estas palavras simples descrevem a plenitude dum relacionamento. Bernadette, pobre, analfabeta e doente, sente-se olhada por Maria como pessoa. (…) Os doentes, tal como as pessoas com deficiências mesmo muito graves, têm a sua dignidade inalienável e a sua missão própria na vida, não se tornando jamais meros objetos, ainda que às vezes pareçam de todo passivos, mas, na realidade, nunca o são.”

O melhor contributo que o cristianismo pode dar, no que se refere à doença e aos doentes é, talvez, insistir e persistir na necessidade de manter a “pessoa” no centro de todos os olhares. Pessoa enquanto sujeito inviolável, livre, responsável, que sendo corpo e biologia, transcende a corporeidade e as fronteiras biológicas, situado na história e intrinsecamente relacional.

Para isso, importa ajudar a que todo o doente que se veja ao espelho continue a ver-se “como pessoa”; contribuir para que todos os intervenientes nos processos de cuidado e de tratamento olhem para o doente “como pessoa”.

A doença é, frequentemente, “lugar” de despersonalização a vários níveis. Sublinho três.

Em primeiro lugar, a partir do próprio doente e da sua experiência de sofrimento, desespero e angústia. A doença contamina todas as dimensões da vida e pode chegar a assumir-se como o rosto a partir do qual se vive e interage. A pessoa desaparece atrás de um véu…

Em segundo lugar, a própria rede pessoal (familiares e amigos) se pode deixar levar pela tendência despersonalizadora, quando deixa de interagir com o pai, mãe, irmão ou amigo e passa a relacionar-se com o doente. A pessoa desaparece atrás de uma ajuda…

Por último, a rede prestadora de cuidados e tratamentos (desde o médico de família ao hospital, unidades de cuidados continuados, lares, etc…). Este universo, cada vez mais especializado, tecnologicamente sofisticado e estranho à vida quotidiana, pode facilmente tornar-se num interlocutor hostil (mais que cuidador); frio (mais que aconchegante) e redutor. A pessoa desaparece atrás de um monitor…

O cristão sabe que a pessoa não deve desaparecer atrás de nada.

Pe. Manuel Vieira