Às Terças Com...

A minha palavra cumpre a minha vontade

«A minha palavra cumpre a minha vontade» A Palavra de Deus é, antes de mais e em última análise, o próprio Cristo, que saiu do Pai e veio ao mundo para manifestar a vontade do Pai que nos é proposta qual via de santidade para a nossa vida.

Na linha do que nos propusemos, partir sempre da Palavra de Deus, temos hoje à nossa disposição, em Isaías, uma das mais belas imagens para descrever a grande finalidade da Palavra:

«A chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer. Assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão» (Is 55, 10-11).

A Palavra é uma Pessoa e, como tal, o seu ser é ser em relação que se abre ao outro, doando-se e estimulando à reciprocidade no amor. Neste sentido, escutar a Palavra é abrir-se ao encontro pessoal com Cristo e deixar-se transformar por Ele: a Palavra a produzir o seu efeito e a realizar a sua missão.

Na sua mensagem para a Quaresma de 2017 o Papa Francisco, comentando o Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro e recordando-nos que a Palavra é um dom de Deus, afirma, a dada altura, que «o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não escutar a Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e de orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão».

Deste modo, nesta quaresma, a melhor conversão possível e o caminho mais rápido para entrar em comunhão com os outros e assim tornar visível aos olhos do mundo a Ressurreição de Cristo consiste em viver a Palavra de Deus. Sim, é precisamente esta a primeira razão pela qual a Palavra nos é anunciada, para a vivermos, para nos tornarmos palavra viva e para que ela se torne o alimento da nossa vida e, continuamente, nos transforme nela própria, em Cristo. Sem este passo, corre-se o risco de não chegarmos, realmente, a nos encontrar, seja com Cristo e o seu mistério seja com os irmãos e a Sua Igreja. Esta foi, afinal, a experiência dos Apóstolos e das comunidades que eles fundaram, tal como, nos deixou como testemunho, S. João: «O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida… O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão connosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo» (1 Jo 1, 1 e 3).

Cónego Silvestre Ourives Marques