Às Terças Com...

A caridade de Maria de Nazaré

O evangelista S. Lucas, no capítulo 1 do seu evangelho, nos versículos 39-56, relata-nos uma visita que Maria de Nazaré – na altura com os seus 16-18 anos – fez à sua parente Isabel, de quem ouviu dizer pela boca do Arcanjo Gabriel que estava grávida de seis meses e que precisava de ajuda. Por iniciativa própria, saiu da sua aldeia, caminhou uns 180 km pela serra e foi até Hein-Karen, onde Isabel morava. Era idosa e vivia sozinha com o marido, Zacarias, um pouco mais velho do que ela.

Parece que, na troca de saudações, as duas descobriram mutuamente que tinham entrado nos planos misteriosos com que Deus resolvera salvar a humanidade e puseram-se a bendizê-l’O, por ambas estarem grávidas: Isabel, grávida de João Batista; Maria, grávida de Jesus. A tradição não fala de visita, fala de visitação – coisa bem diferente. Uma visita é rápida, muitas vezes superficial. Uma visitação é demorada (a de Maria terá demorado uns três meses) e teve, por objetivo, ajudar a resolver as complicações dos últimos meses de gravidez de Isabel. Além do mais, as duas mulheres ter-se-ão apercebido do respetivo papel de, uma, vir a ser a mãe do último profeta do antigo testamento; a outra, vir a ser a mãe do primeiro e único profeta do novo testamento – que o mesmo é dizer: uma, simbolizando a antiga Aliança; outra, simbolizando a nova e eterna Aliança. Foi um ato profundo e sério de Caridade? Sim. Uma visitação é sempre um ato profundo e sério de caridade.

E não se pode dizer que, em vez de caridade, aquela visitação foi solidariedade com a prima? Poder, pode, mas não seria a mesma coisa. Há enormes diferenças entre os dois conceitos, e maiores ainda se quiséssemos dizer que Maria usou de filantropia. Aceita-se que, em vez de caridade, se diga misericórdia; mas não solidariedade nem filantropia. Os dicionários ajudam-nos a compreender o significado de cada termo. Mas, muito mais que nos dicionários, é no texto evangélico acima citado que se encontra todo o alcance da caridade de Maria. Nele lemos que Maria uniu a Oração à Misericórdia. O cântico do “Magnificat” concretiza essa união. É que a caridade “exige” oração, espiritualidade, contemplação, entrada no Mistério e, acima de tudo, muita humildade.

Por isso, não pode identificar-se com a solidariedade nem muito menos com a filantropia – como gostam de repetir os laicos, republicanos e maçons. Sejamos honestos. A filantropia é ajuda ao próximo, sim senhor, mas utiliza bens e dinheiros alheios – do Estado, das Fundações, das Fábricas, das diversas Instituições. A solidariedade, conotada politicamente com os serviços sociais e o rendimento social de inserção – utiliza dinheiros públicos sem a espiritualidade que a caridade “exige”, levando-nos a pensar que ser solidário e filantrópico com o dinheiro dos outros não é vantagem nenhuma. As pessoas que se lembram dos pobres que batiam às portas das casas dos nossos pais a pedir uma esmola «por amor de Deus», lembram-se também que a resposta era a caridade, não a solidariedade nem muito menos a filantropia. A resposta nascia no coração e concretizava-se na partilha do que era de cada um.

P. Manuel Maria