Às Terças Com...

Passageiros da missa quotidiana

João anda pelos 45 anos, mais coisa, menos coisa. Desalinhado no estilo e pesado no porte. Pele curtida e calos nas mãos contam histórias de um trabalho ao sol. Entra sempre uns bons minutos antes de começar a missa e senta-se num dos últimos bancos. Não se lhe ouve a voz e nunca comungou. Acompanha respeitosamente os ritmos que o rito propõe ao corpo: levanta-se, senta-se, ajoelha-se, volta a levantar-se. Entrou em silêncio e sai discretamente. Nunca se apresentou.

Sílvia ainda é nova e nunca chega a horas. Entre a primeira leitura e o fim do salmo, vejo-a entrar. Pontual, à sua maneira. Irrompe apressadamente, enquanto ajeita o cabelo e compõe a camisola, sempre da mesma cor. Provavelmente o que ficou da farda de trabalho em alguma das instituições sociais das redondezas. Faz o sinal da cruz e avança, ligeira, até ao meio da igreja. Escolhe um banco onde não haja mais ninguém e senta-se. E fica sentada durante toda a missa. Em silêncio. De olhos fechados e sorriso tranquilo. No fim, ajoelha-se uns minutos e sai. Nunca comungou. Nunca lhe ouvi a voz.

Paulo aparece mais ou menos uma vez por mês. É cabo-verdiano, com vinte e poucos anos e estuda música. Aliás, é um virtuoso nas cordas. Já o ouvi, sem que ele se desse conta, num qualquer evento público. Chega a horas e participa. Reza, responde, comunga. No fim, invariavelmente, pede para se confessar. Sempre educado, mas não se demora em mais conversas. Até ao mês que vem.

Maria vem sempre meia hora antes. Quando vem… mais ou menos, de quinze em quinze dias, à sexta-feira. Já acusa o peso dos anos. Talvez setenta. Talvez mais. Veste discretamente, com bom gosto. Pele delicada, cabelo arranjado e uma humildade nobre na pose. Há uma névoa de tristeza nos olhos. Reza o terço com as outras senhoras, mas sempre uns três ou quatro bancos mais atrás. Participa na missa e vai murmurando, entre dentes, as orações da missa, ainda assim o padre não se engane… Comunga e sai imediatamente. Nunca conversámos.

Vicente espera cá fora que a missa comece. Duas ou três vezes por mês, em dias incertos. Fuma um cigarro e vê quem passa. À saudação inicial, entra e dirige-se para um dos últimos bancos, sozinho, colocando ao lado o capacete preto cheio de autocolantes. Terá, talvez, vinte anos. Fecha os olhos e baixa a cabeça. Os movimentos dos braços e das pernas, que parecem ter dificuldade em parar quietas, sugerem ansiedade. Durante as leituras, rói as unhas. Confirma-se. Acompanha a celebração, mas à sua maneira. Às vezes senta-se durante a consagração; outras vezes fica de joelhos até ao Pai-Nosso. Às vezes comunga. Outras vezes não. No fim, senta-se, com a cabeça entre as mãos e fica assim. Cinco minutos. Dez minutos. Depois sai. Nunca me dirigiu palavra.

A igreja é lugar de comunidade e de encontro, mas também de fugas, de refúgio e de silêncio. As pessoas entram e saiem, levando e trazendo os mistérios do mundo e as angústias da alma. Trazem sorrisos que evocam amores e festas; ou trazem para a troca os cromos da vida. Cada uma delas traz uma biografia em escrita corrida, que ali encontra pontuação. À sua maneira e ao seu ritmo… com um toque de Deus.
Bem-vindos.

Pe. Manuel Vieira

(Os nomes são fictícios; as descrições são verdadeiras, mas de diferentes contextos e lugares.)