Às Terças Com...

Quando me vires olha-me com alegria!

Quando estamos apaixonados é isto que acontece: se vemos a pessoa que amamos, só olhar para ela, já nos enche de alegria. Mas sempre que não nos arde o coração de paixão, olhamos tantas vezes quem se cruza connosco, com indiferença, com medo, ou mesmo desprezo. Temos medo de não saber como lidar, o que fazer, o que dizer e preferimos não ver.

A frase do título foi-me inspirada pela Comunidade Fé e Luz da Golegã, uma comunidade que está a nascer naquele lugar, cheia de entusiasmo, acarinhada e apoiada pela comunidade paroquial onde se insere.

Na apresentação à comunidade paroquial a frase foi: “Quando me vires olha-me! Quando me olhares fixa-me! Os meus limites estão algures no teu horizonte… O amor tudo vence!”
Gostei muito desta frase porque nos coloca perante o desafio que todos temos dificuldade em enfrentar: amar sem condições e acreditar no poder do amor. Olhar os outros com a esperança que constrói, o outro e nós mesmos!

Tão difícil quando estamos perante a deficiência, o envelhecimento, o que nos violenta…!
Jesus deu-nos um único mandamento: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Ele olhava as pessoas que recorriam a Ele com alegria e expectativa, reconhecendo o seu valor.
O meu amigo Zé é muito expansivo e, quando aborda pessoas que não o conhecem bem, os seus abraços apertados causam, muitas vezes, estranheza e rejeição nas pessoas, mas, tenho visto que, por vezes, esses abraços levam os presentes a ultrapassar as convenções sociais e, aceitando uma manifestação de ternura e carinho, começam a sorrir e aceitam alegrar-se, simplesmente. As pessoas com deficiência intelectual, em torno das quais o Movimento Fé e Luz se organiza, têm frequentemente este carisma de descomplicar as relações e marcá-las com gestos espontâneos de ternura. Esta ternura além da alegria traz consigo a esperança e o reconhecimento do valor destas vidas.

A Carta das Comunidades da ARCA refere que “para desenvolver as suas capacidades e os seus dons e se realizar, cada pessoa precisa dum meio em que se possa exprimir. Precisa de tecer laços com outras pessoas no seio da família ou duma comunidade. Precisa de viver em confiança, em segurança, sentir-se acolhida e apoiada por relações calorosas e verdadeiras.” Isto é necessidade comum a todas as pessoas: mas como criar este ambiente para as com deficiência? As nossas comunidades precisam de ir ao seu encontro e fico com esperança que o tema do próximo ano pastoral – “A minha família comunica a Alegria do Amor” – possa ajudar-nos a todos a aprender a fazê-lo em nome de Jesus.

Alice Caldeira Cabral