Às Terças Com...

Cristo família minha

As mãozinhas postas, colocadas em frente ao nariz, mesmo por debaixo dos olhos fechados com fervor. A sala mergulha na luz da vela que arde no nosso pequeno altar, construído por todos lá de casa, e os risinhos dos meninos desafiam-nos a sorrir enquanto ensaiamos as primeiras notas do cântico do dia. É noite. O cansaço já chegou e atira-nos lá para cima, na direção das camas, no entanto, nunca estamos demasiado cansados para agradecer o dia, as pessoas da nossa vida, as conquistas, as perdas. E assim nos direcionamos lá para cima, na direção do céu. Pedimos pelo novo dia, pela família, pela escola, pelo trabalho. Pedimos pelos outros, pelo mundo, pelos corações que não se arrependem e pelos que arrependidos, encontram Jesus nas suas próprias mãos.

Deus está connosco e nem espera que se acenda a vela para se acomodar no mesmo chão que ocupamos. Esteve lá todo o dia onde estiveram os nossos corações. Os meninos sabem que Ele está connosco. Arrumam-se por cima dos nossos colos, o meu e o teu, para O recebermos em cada palavra, em cada nota, em cada risinho que não se conseguiu guardar. Ele vive da nossa vida, é parte do nosso dia, é presença nas aventuras da vida moderna, pois a sua ancestralidade não é engulho nos dias de hoje, as famílias é que são…

Viver as coisas de Deus, não é viver um Deus que não está e que não nos acrescenta nada. Viver as coisas de Deus, é colocar Deus nas coisas nossas, deixar que Ele faça parte de nós e das nossas coisas, permitir que na loucura do tempo que não temos nunca, façamos da sua presença um tempo sempre, mesmo que esse tempo seja pouco, seja curto. Mas então que o seja, que a família tenha coragem de ganhar tempo de vida, tempo de família, ao tempo todo que nada vale perante o valor que somos todos juntos.

O dia desencontra-nos uns dos outros. Saíamos de manhã cedo, a correr, e nem reparamos bem que roupa leva o outro vestida, nem nos olhamos bem. À noite, depois de sermos devolvidos pela máquina dos dias, criamos espaço de encontro, tempo de Deus, dimensão nossa que ninguém nos tira. E assim, enquanto as crianças prepararam a mantinha no chão, acende-se em nós a chama da oração que nos devolve a Deus, que nos devolve uns aos outros. As luzes do mundo desligam-se e cada um de nós, olhando a Senhora Auxiliadora, liga-se de novo, carregando o coração na bateria familiar.

Nuno Camelo