10 de abril/Catedral de Évora: Celebração do Domingo de Ramos (Com Homilia, Fotos e Vídeo)

Neste dia 10 de abril, iniciou-se a Semana Santa, com a celebração do Domingo de Ramos na Catedral de Évora.

Com presidência do Arcebispo de Évora, D. Francisco José Senra Coelho, às 17h30, na Igreja da Misericórdia de Évora foi celebrada a Bênçãos dos Ramos.

Às 17h45, a partir da Igreja da Misericórdia de Évora saiu a Procissão dos Ramos que percorreu algumas vias do Centro Histórico até à Catedral Eborense, onde foi celebrada a Missa da Paixão do Senhor, presidida pelo Prelado eborense.


HOMILIA

Domingo de Ramos – 2022-04-10

Domingo de Ramos do Senhor: assim se designa este Domingo que abre a Semana Santa, Semana Maior, pois nela somos convidados a contemplar a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, centro da nossa vida cristã.

Como refere o Papa Francisco na sua homilia na XXXIV Jornada Mundial da Juventude a 14 de abril de 2019: «As aclamações da entrada em Jerusalém e a humilhação de Jesus. Os gritos festeiros e o encarniçamento feroz. Anualmente, este duplo mistério acompanha a entrada na Semana Santa com os dois momentos característicos desta celebração: ao inicio, a procissão com os ramos de palmeira e de oliveira e, depois, a leitura solene da narração da Paixão».

Não podemos ficar apenas na contemplação da entrada gloriosa de Jesus, mas tomar renovada consciência que o Domingo de Ramos se faz na Paixão do Senhor, isto é, que em Jesus Cristo a glória não está desligada da Cruz, que o caminho que conduz à eternidade está marcado pela vulnerabilidade e fragilidade da nossa contingente existência.

As diversas leituras que escutámos neste Domingo, sublinham bem este dinamismo, desde a proclamação do Evangelho na bênção dos Ramos, que narra a entrada de Jesus em Jerusalém, até à Liturgia da Palavra em que escutámos a narração da Paixão do Senhor. Uma multidão que aclama Jesus jubilosamente na sua entrada em Jerusalém e uma multidão que diante de Pilatos grita: «Crucifica-O! Crucifica-O!» Porventura a bipolaridade destas aclamações sejam o paradigma da nossa vida, tantas vezes convicta e disposta a testemunhar com alegria a nossa fé em Jesus Cristo, mas também tantas vezes titubeante e silenciosa, condenando e desviando-se do caminho certo.

Jesus Cristo assume a nossa humanidade, na sua integridade e totalidade. De braços abertos na Cruz abraça cada homem e cada mulher para nos ensinar que a dor e o sofrimento não têm a última palavra. Em Jesus Cristo não há glória sem Cruz e os sofrimentos e as dores unem-se na Sua entrega generosa à vida nova que Ele nos oferece: «o Senhor Deus, veio em meu auxilio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido».

O Papa Francisco diz-nos que: «Jesus mostra-nos como enfrentar os momentos difíceis e as tentações mais insidiosas, guardando no coração uma paz que não é isolamento, não é ficar impassível nem fazer o super-homem, mas confiante abandono ao Pai e à sua vontade de salvação de vida, de misericórdia; e Jesus, em toda a sua missão viu-se assaltado pela tentação de “fazer a sua obra”, escolhendo Ele o modo e desligando-se da obediência ao Pai. Desde o inicio na luta dos quarenta dias no deserto, até ao fim, na Paixão, Jesus repela esta tentação com uma obediente confiança no Pai».

Como comenta Henri de Lubac o triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimentando-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos, falhados… Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja. Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão.

João Paulo II refere que atrás de Jesus, a primeira que o seguia foi a sua Mãe, Maria, a primeira discípula. A Virgem o os Santos tiveram de padecer para caminhar na fé e na vontade de Deus. No meio dos acontecimentos duros e dolorosos da vida, responder com a fé custa «um particular aperto no coração». É a noite da fé. Mas, só desta noite é que desponta a aurora da ressurreição. Ao pé da cruz, Maria repensou nas palavras com que o Anjo lhe anunciara o seu Filho: Será grande (…). O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim» (Lc, 1, 32-33). No Gólgota, Maria parece deparar-se com o desmentido total daquela promessa: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Deste modo o triunfalismo, destruído pela humilhação de Jesus, foi igualmente destruído no coração da Mãe; ambos souberam viver o aparente silêncio de Deus naquele momento.

Como nos diz o Santo Padre: «é impressionante o silêncio de Jesus na sua Paixão. Vence inclusivamente a tentação de responder, de ser “mediático”. Nos momentos de escuridão e grande tribulação, é preciso ficar calado, ter a coragem de calar, contando que seja um calar manso e não rancoroso». Meus irmãos, a Cruz não se compreende, contempla-se e é na contemplação da entrega de Jesus que entramos na nova lógica do Reino em que a vida é tanto mais nossa, quanto mais for dos outros, que a vida é verdadeiramente vida, quando entregue sem medida.

Contemplar a Cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias. Significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens. Significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

O nosso lugar seguro será sob o manto de Maria a Mãe da Igreja.  Enquanto esperamos que o Senhor venha e acalme a tempestade, com o nosso testemunho silencioso, orante e comprometido na caridade fraterna e solidária,  demos a nós mesmos e aos outros a «razão da esperança que está em nós» (1 Ped 3, 15). Isto ajudar-nos-á a viver numa santa tensão entre a memória das promessas, a realidade do encarniçamento palpável da cruz e a esperança da ressurreição.

Unido a todos os que sofrem os horrores das guerras, com os seus cortejos de desumanidades, nomeadamente os nossos irmãos Ucranianos, rezo para que a Igreja de Cristo em Évora viva uma fecunda e renovada Semana Santa.

 

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora


Foto-reportagem (Paulo Azadinho)

 


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