17 de outubro: Abertura do processo sinodal na Arquidiocese de Évora (C/ Homilia)

REVEJA AQUI A TRANSMISSÃO DA EUCARISTIA:

 

A Arquidiocese de Évora vai realizar a abertura do processo sinodal, dia 17 deste mês, às 18h30, na Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora (Salesianos), em Évora.

A celebração vai ser presidida por D. Francisco Senra Coelho, Arcebispo de Évora, e vai ser transmitida em direto pelos canais digitais da Arquidiocese.

 


 

 

ABERTURA DO SÍNODO NA ARQUIDIOCESE DE ÉVORA

Igreja de N. ª Senhora Auxiliadora 17/X/2021

HOMILIA

 

1. A Primeira Leitura que acabamos de acolher, é retirada de um dos chamados “Cântico do Servo de Deus”, do Livro de Isaías (53, 10-11). Este servo é apresentado como alguém que leva o seu espírito de serviço, até ao extremo de dar a própria vida pela salvação de todos. Jesus é a realização desta figura do Servo de Deus, como acabamos de perceber pela Sua Catequese testemunhada na Leitura do Evangelho que hoje nos é proclamada.

Todos percebemos que este é o caminho justo também para nós que queremos ser seus discípulos.

Enquanto Jesus caminha decididamente à frente dos discípulos para Jerusalém, cumprindo a professia de Isaías e pela terceira vez lhes prediz com maior riqueza de pormenores, a via messiânica do sacrifício e do serviço total que ali pretende percorrer, os Doze discutem entre si pela segunda vez qual é o maior,  pois  temem ser excluídos, pelo “expediente” de Tiago e João, dos dois primeiros lugares no reino. Então Jesus aproveita as circunstâncias para de novo os instruir sobre um ponto para Ele essencial, e que não entra na mentalidade dos Doze; entre os cristãos, os chefes devem ser servos de todos, a exemplo de Cristo.

A disponibilidade para o serviço é testemunho da vinda do Reino. São anúncio do Reino a pregação de Jesus e a sua Palavra, as suas obras e milagres, a expulsão dos demónios. “Antes de tudo, porém, o Reino manifesta-se na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir  e dar a vida pela redenção de muitos” (LG 5).

Por isso o Concílio Vaticano II exorta os Bispos (LG 27), os Sacerdotes (PO 4) e toda a Igreja a seguir o modelo de Cristo Pastor; “ Nenhuma ambição terrena move a Igreja; uma única coisa procura: continuar sobre o impulso do Espírito Consolador; a própria obra de Cristo, vindo ao mundo para dar testemunho da verdade, e não para julgar, para servir, e não para ser servido” (GS 3).

2. Segundo a comparação do corpo que une em si enorme quantidade de membros, na Segunda Leitura proclamada, S. Paulo desenvolve uma conceção da Igreja, corpo de Cristo. Num primeiro momento evidencia a unidade: a Igreja é o conjunto dos batizados, animados pelo Espírito e, por isso, radicalmente unidos a Cristo, a quem são incorporados. Apresenta depois a pluralidade existente no interior da Igreja, assim Paulo compara os fiéis a um corpo imerso no Espírito e percorrido pelo seu sopro. Isso implica unidade, ou melhor; unanimidade na diversidade de culturas, sensibilidades, ambientes, nacionalidades. Implica também comunhão visível, porque cada fiel é movido pelo mesmo Espírito. Esta comunhão é comunhão do Povo de Deus a caminho, na qual cada um participa na criação comum. Cada um tem os seus dons, mas para reparti-los com os demais. Cumpre então superar o muro das divisões e da linguagem.

3. À Luz da Palavra de Deus que meditamos e na fidelidade ao Bispo de Roma, sucessor de Pedro, convoco toda a Arquidiocese de Évora a acompanhar na oração e na participação a XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2023, em Roma, a que se seguirá a fase de execução, envolvendo todas as Dioceses.

A Santa Sé publicou, a 7 de setembro, o documento preparatório do Sínodo dos Bispos onde indica os princípios da “sinodalidade como forma, como estilo e como estrutura da Igreja. O documento de trabalho intitulado «Para uma Igreja sinodal; comunhão, participação e missão» aponta para a vivência de um “processo eclesial participativo e inclusivo, que ofereça a cada um – de maneira particular àqueles que por vários motivos, se encontram à margem – a oportunidade de se expressar e de ser ouvido, a fim de contribuir para a construção do Povo de Deus”.

O Caminho teve início nos dias 9-10 de outubro de 2021, em Roma, e inicia neste Domingo, 17 de outubro, em cada uma das Dioceses. Eis-nos aqui!

O Papa Francisco falando numa audiência aos diocesanos de Roma, em 18 de setembro de 2021, afirmou: «o tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado de eclesiologia, muito menos uma moda, um slogan ou o novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão. “Sinodalidade, tudo aquilo que a caracteriza está contido na palavra synodos, caminho conjunto”». (Papa Francisco).

Deste modo a primeira fase, de outubro de 2021 a abril de 2022, dedicada à consulta nas dioceses, há-de «contribuir para colocar em movimento as ideias, as energias e a criatividade de todos aqueles que participem no itinerário, e facilitar a partilha dos frutos do seu compromisso».

No contexto da Abertura do Sínodo, em Roma, no passado Domingo, dia 10, o Papa Francisco lembra-nos, na sua homilia, que tal como Jesus Cristo, a Igreja deve seguir pelas «estradas por vezes acidentadas da vida», ao encontro dos outros.(…)

Ao abrir este percurso sinodal, comecemos todos (Papa, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, irmãos e irmãs leigos) por nos interrogar: nós comunidade cristã, encarnamos o estilo de Deus, que caminha na história e partilha as vicissitudes da humanidade?

Francisco precisou que o Sínodo implica «caminhar pela mesma estrada, em conjunto», e interrogarmo-nos: «Permitimos que as pessoas se expressem, caminhem na fé – mesmo se têm percursos de vida difíceis – contribuam para a vida da comunidade sem serem estorvadas, rejeitadas ou julgadas?», questionou.

O Santo Padre na sua reflexão aponta três verbos centrais para este processo de consulta às comunidades católicas: «Encontrar, Escutar. Discernir». Assim, «nós que iniciamos este caminho, somos chamados a tornar-nos peritos na arte do encontro; peritos, não na organização de eventos ou na proposta de uma reflexão teórica sobre os problemas». O Papa convida-nos «a dar espaço à oração, à adoração, àquilo que o Espírito quer dizer à Igreja», deixando-se «tocar pelas perguntas das irmãs e dos irmãos». Francisco sublinha que: «Jesus nos chama a esvaziar-nos, a libertarmo-nos daquilo que é mundano e também dos nossos fechamentos e dos nossos modelos pastorais repetitivos, a interrogarmo-nos sobre aquilo que Deus nos quer dizer neste tempo e sobre a direção para onde Ele nos quer conduzir».

Francisco admite que aprender a escuta recíproca, entre bispos, padres, religiosos e leigos é «um exercício lento, talvez cansativo», mas sublinhou que é necessário evitar «respostas artificiais e superficiais». Para o Sucessor de Pedro,  «Fazer Sínodo é colocar-se no mesmo caminho do Verbo feito homem: é seguir as suas pisadas escutando a sua Palavra juntamente com as palavras dos outros».

Respondendo a este apelo do Espírito Santo, vindo até nós pela Palavra do Papa Francisco, nós assumimos as três palavras-chave: comunhão, participação, missão.

“Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra». (LG 5)… a segunda palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos abstratos, se não se cultiva uma praxis eclesial que se exprima em acões concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um”, ou seja a plena participação. A terceira palavra “Missão” é inerente a participação, todo o discípulo é missionário, contagiando com a alegria do Evangelho, a liberdade interior e o Amor em que vive.

Vivemos três oportunidades.  A primeira é encaminhar-nos para uma igreja sinodal: um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Na segunda o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja em escuta ao fazer uma pausa dos nossos ritmos, ao controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração irmanando-nos assim numa Igreja de proximidade. A proximidade, fruto da Sinodalidade é a terceira oportunidade.

O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor… uma Igreja que não se alheie da vida, mas antes se comprometa. Cuidemos das fragilidades e pobrezas do nosso tempo curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus, a começar por dentro de nós e das nossas comunidades, inserindo cada um na comunidade, fazendo-o sentir-se filho e irmão, como nos aponta o Programa Pastoral para este ano 2021/2022, “Cuidar e inserir”. Seremos Discípulos Missionários da Esperança.

Ao interiorizarmos o refrão do Salmo 32 que cantamos, «Desça sobre nós a Vossa Misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor» cruzo-me com o olhar maternal de Nossa Senhora,  Auxiliadora dos cristãos e rogo-lhe que nos estenda as suas mãos e nos conduza nesta Caminhada Sinodal até ao Pentecostes, onde nos sentiremos unidos e iluminados, pela mesma Luz, saindo com Ela em Missão Jubilosa como testemunhas da Ressurreição de Jesus e, por isso, mais amadurecidos e unidos na Alegria e na Esperança do Evangelho.

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

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