Causa de Beatificação: A infância de Manuel Mendes da Conceição Santos

Manuel Mendes da Conceição Santos nasceu a 13 de dezembro de 1876, numa localidade da freguesia de Olaia, denominada Pé de Cão, Concelho de Torres Novas, às 6 horas da tarde. Seu pai era Manuel Mendes, casado em primeiras núpcias com Maria dos Reis, da qual teve uma filha de nome Maria, falecida em tenra idade; dele se afirmava ter sido um homem de abastada fortuna, empreiteiro de obras, e que tudo perdeu por ter sido fiador de alguém pouco sério ao pagar o que devia, ficando reduzido a uma quase pobreza. E sua mãe era Maria da Conceição Rodrigues Mendes, casada em segundas núpcias com Manuel Mendes.
Neto paterno de Joaquim Mendes e de Justina Rosa Mendes e materno de Manuel Rodrigues dos Santos e Sebastiana Maria, foi batizado na Igreja Matriz de Olaia no dia 28 de Dezembro de 1876, tendo recebido, como Madrinha de batismo, Nossa Senhora do Ó.
Crescido num ambiente de profunda religiosidade, fomentado pela sua mãe, cujo segredo da sua vida era a fé e a oração, Manuel Mendes sempre impressionou os seus companheiros de escola e de vida, pelo seu “odor de inocência”, tantas vezes por ele pedida ao Senhor, como se pode ler ainda nos apontamentos do retiro que fizera aos 76 anos: “Senhor, fazei-me puro como um anjo”, graça esta que o Senhor lhe ia concedendo. De tal modo que, para os seus pares, sempre foi considerado um anjo e, por isso, teve lugar na pintura da Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz do Cartaxo.
Tendo havido a necessidade de vender a casa de Pé de Cão, Manuel Mendes deslocou-se com os pais e irmãos para os Soudos. E, aos nove anos, depois de aprendidas as primeiras letras, parte para Carvalhal da Aroeira, a fim de estudar Português e Latim com o seu tio-avô, o Padre Joaquim Gomes Duque, um humanista de grande saber. Dali foi para Torres Novas, onde frequentou uma escola particular a fim de se habilitar para o exame de instrução primária elementar, em que ficou reprovado, quando, ao tempo já lia correntemente os clássicos latinos.
E, no ano seguinte, faz os exames do elementar e do complementar, passando em ambos com distinção.
Porém, há um outro acontecimento que marca a sua vida e cujas agendas pessoais não poucas vezes fazem referência. Tinha Manuel Mendes 11 anos quando, a 3 de junho de 1888, fez a sua Primeira Comunhão, graça que tantas vezes agradece e pela qual oferece a Eucaristia que celebra. Por exemplo, em 1916 escreve: “Missa em honra de Nossa Senhora para que me faça fiel à graça da primeira comunhão”; em 1924, oferece a Eucaristia “em ação de graças pela minha 1.ª Comunhão e pelos que nela me acompanharam e para ela me prepararam”. E ainda em 1938 faz referência que oferece a eucaristia em “ação de graças pela primeira comunhão feita há cinquenta anos e por todos os benefícios que dela derivam”.
Podemos afirmar que estas foram as bases intelectuais e espirituais que fizeram dele um dos Bispos mais ilustres, sócio da Academia de Ciências e de quem Júlio Dantas escreveu: “Doutor pela Universidade romana de Santo Apolinário, latinista, helenista, espírito cultíssimo, escritor notável, o Senhor Dom Manuel Mendes impôs-se, sobretudo, à admiração dos contemporâneos como orador, pelo prestígio, pelo trabalho e pela autoridade da sua palavra.

 


QUE DIZEM DE TI, MANUEL MENDES DA CONCEIÇÃO SANTOS?

Antes de sabermos quem é Manuel Mendes da Conceição Santos – e em jeito de introdução a esta nova rubrica do nosso jornal “A Defesa” – é importante sabermos o que dizem deste grande homem de Deus ao serviço dos seus irmãos, a partir das três palavras com que, em 1926, numa sessão solene realizada em Torres Novas, Alberto Dinis da Fonseca e Zuzarte de Mendonça resumiram a sua vida: fé, amor, otimismo.

O seu testemunho de verdadeiro discípulo missionário levou e continua a levar homens e mulheres a dizerem que: “Homens deste vulto, dum tal vulto, estimam-se, admiram-se, veneram-se, amam-se, imitam-se, seguem-se”.

“Português às direitas, seguro na fé, de rija têmpera, sacerdote modelar, Bispo comme il faut pelos seus talentos literários, pelas suas poderosas faculdades de trabalho, pelos títulos científicos que tem conquistado. É um dos mais esforçados obreiros dum Portugal maior, não conhecendo dificuldades nem temendo obstáculos para fortalecer a organização católica, que pode prestar, e há-de prestar, ao País, os mais assinalados serviços.

A sua vida, sempre esmaltada pela mais pura gema de trabalho é um exemplo, um alto e luminoso exemplo de honra, de aprumo e de bondade. E a sua bondade sente-se, não se define. Manifesta-se em tudo e por tudo: pela doçura, pela generosidade, pelo esquecimento de si próprio e por aquela disposição que o leva a não fazer mal a ninguém, nem mesmo àqueles que injustamente o ferem; é a bondade, a par de um diamantino carácter e de um cérebro privilegiado que dá, ao Senhor Arcebispo de Évora, no meio desta sociedade decadente, uma formidável força moral, que faz dele um varão forte e tenaz, sempre intrépido e calmo.

O seu nome, os seus sermões, os seus trabalhos em favor da Igreja são conhecidos de todo o país e no meio do enorme prestígio que o rodeia, conserva no coração tesouros de ternura, que só podem ser avaliados pelos que o conhecem intimamente. A forma do seu apostolado escandaliza talvez os homens de hoje; mas esse apostolado entusiasma quem ama a verdade. A sua inconfundível eloquência ergue-o muito acima da comum vulgaridade. No olhar adivinha-se-lhe a perspicácia e firmeza de pensamento.
Na fronte nobre e altiva, no olhar suave e penetrante, vê-se uma alma que olha a fito contra as flechas da injúria. A sua lealdade e a sua retidão desarmam os que porventura procurem embaí-lo

com as travessuras da intriga e com as objeções de vil esperteza. Há, no seu semblante, a tranquilidade risonha de quem não sente na consciência nada que lhe anuvie”.
A sua grande divisa era “Coragem e Confiança”. Nada abalava a sua alma, nada fazia recuar aquela coragem que nascia da sua entrega, da sua total entrega ao Senhor, a Quem pedira como condição, “fosse a sua força e o seu amparo”; e o seu lema encontrou na jaculatória “Minha Mãe, Confiança Minha” a sua força e a sua âncora.

A partir deste preâmbulo, testemunho extraordinário de homens do tempo do Servo de Deus, será mais curioso conhecer a vida e a espiritualidade deste discípulo missionário em terras da planície alentejana: Manuel Mendes da Conceição Santos.

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