Arcebispo de Évora presidiu à “Festa da Casa” do Seminário Maior de Évora (Com Homilia e Vídeo)

No dia 2 de Fevereiro, Solenidade da Apresentação do Senhor e também dia do Consagrado, foi celebrada no contexto da Pandemia apenas com a comunidade do Seminário Maior de Évora, a Festa de Nossa Senhora da Purificação, também denominada “Festa da Casa”.
Às 11 horas, o Arcebispo de Évora encontrou-se com a equipa Formadora e com Seminaristas, tendo abordado o tema ” O Seminário à luz da história – do Real Colégio da Purificação ao Seminário Maior de Évora”.
 Às 12 horas e depois da bênção das velas, e da procissão pelos claustros,  foi celebrada Eucaristia,  transmitida pelos meios digitais (reveja aqui), de modo a possibilitar que toda a comunidade Arquidiocesana pudesse viver espiritualmente esta celebração pelo Seminário Maior de Évora e por todos os Consagrados.

 

DIA DO SEMINÁRIO MAIOR – N. ª SENHORA DA PURIFICAÇÃO E DO CONSAGRADO

 HOMILIA DO ARCEBISPO DE ÉVORA

1. Ao celebrarmos a Festa da Apresentação do Senhor, sentimo-nos vinculados e recordamos a celebração da Solenidade do Natal do Senhor há quarenta dias por nós vivido. De facto, a História da Igreja diz-nos que a data escolhida para a festa da Apresentação pela Igreja de Jerusalém, foi a princípio, 15 de fevereiro, 40 dias depois do nascimento de Jesus que o Oriente celebra a 6 de janeiro, em conformidade com a lei hebraica, que impunha esse espaço de tempo entre o nascimento de um menino e a purificação de sua mãe. Quando, nos Séculos VI e VII, a festa se estendeu ao Ocidente, foi antecipada para 2 de fevereiro, porque o nascimento de Jesus é celebrado a 25 de dezembro.

Se é verdade que habitualmente, contemplamos o mistério da Apresentação do Senhor no conjunto dos mistérios gozosos, porém se refletirmos atentamente e à luz da teologia e da história compreendemos que não é um mistério gozoso, mas doloroso, pois Maria apresenta a Deus o Seu Filho Jesus em atitude de oblação. Ora toda a oferta é uma renúncia, assim, começa o mistério do Seu sofrimento que atingirá o seu cume aos pés da Cruz. A Cruz é a espada que trespassará a sua alma, conforme profetizou Simeão: “Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; e uma espada trespassará a tua alma». (Lc 3, 34-34).

Todo o primogénito judeu era o sinal permanente e o memorial quotidiano da libertação da grande escravidão: tal como Isaac os primogénitos do Egito haviam sido poupados, Jesus, porém, o Primogénito por excelência não será poupado, mas com o Seu Sangue trará a nova e definitiva libertação. O Sim de Maria, se une ao sim incondicional  do Seu Filho a Deus, está presente  no gesto litúrgico de cada Eucaristia, onde o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho do homem nos são restituídos como Corpo e Sangue de Cristo. Neste Sinal, experimentamos a paz do Senhor, contemplamos a Sua Salvação e esperamos a Sua vinda gloriosa: “Anunciamos, Senhor, a vossa more, proclamamos a Vossa Ressurreição; vinde, Senhor Jesus!”

Marcados pela fragilidade que se revela sobretudo na desobediência que os nossos pecados significam, não podemos, como Maria, oferecer ao Senhor uma oblação pura e agradável aos Seus olhos. Como o profeta Miqueias refere na primeira leitura (3, 1-4), este impedimento será ultrapassado no “Dia do Senhor”. Nesse “Dia”, o próprio Senhor nos purificará no fogo, nos branqueará na lixivia, como fazem os lavandeiros e transformara os nossos corações para nos apresentarmos irrepreensíveis diante d’Ele, como oblação agradável e justa a Seus olhos. Nesta festa da Apresentação do Senhor no Templo, é-nos dirigido o convite para irmos à Sua presença e nos deixarmos iluminar, purificar por Ele, para que se apaguem, por Sua Misericórdia, os nossos pecados e assim nos ofereçamos, expiados da escravidão do pecado por: «Aquele que sofreu e foi posto à prova, para socorrer os que são postos à prova» (Heb 3, 18).

O autor da segunda leitura, da Carta aos Hebreus, esclarece que Jesus não nos salva mediante um qualquer gesto de solidariedade para connosco, mas vivendo a nossa condição humana até ao extremo e limite das nossas possibilidades, a morte. A única realidade humana não assumida por Cristo foi o pecado. O primeiro fruto da Sua redenção é a nossa libertação da escravidão da morte, principal expressão do mal sobre o homem. Pela sua experiência das nossas fraquezas quotidianas, Cristo é o Salvador, capaz de uma compaixão infinita e efetiva perante os nossos pecados. Fruto da obra redentora de Cristo, a Sua Páscoa, nós rezamos após a comunhão: «Contemplai em nós a obra da vossa graça e concedei-nos alcançar a vida eterna».

O Evangelho de São Lucas (2, 22-40), na sua primeira parte e na sua conclusão, apresenta a Sagrada família a cumprir a Lei, ou seja, plenamente inserida na ordem cultual, cultural e social do seu tempo. Para além desta apresentação, São Lucas propõe um desenvolvimento teológico pascal, onde Maria aparece estreitamente unida, na dor, e na fidelidade dada ao destino do Seu Filho. Assim, Jesus é descrito como o Messias do Senhor, isto é, como o Ungido por excelência, destinado a uma obra de salvação, que cumprirá ao realizar em Si a figura do Servo Sofredor, anunciada por Isaías, nos seus capítulos 42, 49, 50 e 52 os três cânticos do Servo de Jahvé. Ele, a Luz das nações e do mundo, coloca cada homem e mulher perante a necessidade de decidir e escolher entre a Luz e as trevas, entre o Reino de Deus e o príncipe do mundo imundo.

O nascimento de Jesus dá-nos a face humana de Deus; homem como todos nós, nascido de mulher e submisso às tradições da Lei. A Eucaristia que celebramos é Jesus que continua a estar no meio dos homens e a reunir todas as vozes em um só louvor e ação de graças ao Pai. O pão e o vinho são o sinal da sua vida simples escondida confundida com as nossas vidas quotidianas e simples.  Eis o nosso Sim à Luz e ao Reino de Deus.

Maria, com o seu silêncio e meditação, mostra-nos como o devemos acolher, reconhecer e oferecer aos irmãos como discípulos missionários da esperança. Com Ela, está o resto de Israel, representado em José, Simeão e Ana de Fanuel, que ao reconhecerem o Messias n’Aquela criança, nos evidenciam que o seu olhar era guiado pela luz de Deus, feito Emanuel para servir e não ser servido e jamais pelos critérios do mundo, conduzidos pelo espírito do poder, da hegemonia e da ganância.

Caros seminaristas, temos a alegria de pertencer, hoje e aqui, a este resto de Israel e a fazermos parte daqueles que reconhecem o Reino de Deus no grão de mostarda dos pequenos gestos, assumidos e vividos com amor. Fazemos parte da comunidade de Simeão, Ana de Fanuel, Maria e José que reconhecem a beleza do rosto misericordioso de Deus, na ternura indefesa de uma criança e, na criança, em todos os simples, pobres e pequenos, que se cruzam connosco nos caminhos da vida e continuam a aguardar pela libertação que a Harmonização do Mandamento Novo lhes pode trazer. Não estamos aqui como quem procura singrar na vida, mas como quem procura servir e dar a vida. Eis os discípulos de Cristo! Ser cristão é o nossos fascínio, o nosso projeto e a nossa construção…

2. Também celebramos hoje o Dia do Consagrado sob o tema “Consagrados; Fiéis e felizes?”. A iniciativa decorre desde o dia 26 de janeiro e encerra hoje a 2 de fevereiro, propondo uma opção de vida religiosa como alternativa à «cultura do provisório». «Nestes tempos em que predomina a cultura do provisório que instiga ao experimentalismo, a fidelidade aos compromissos, sobretudo aos que implicam a entrega da totalidade da vida na lógica do Evangelho, é desvalorizada. Talvez isso ajude a perceber melhor a razão pela qual à nossa volta há tanta gente insatisfeita e insegura, pessoas com medo de tomar decisões e outras ainda com as marcas da frustração ou as feridas do fracasso», escreve D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios (CEVM) na mensagem para esta iniciativa.

Na sua mensagem também para este dia, redigida no passado dia 18 de janeiro, o Santo Padre, o Papa Francisco, lembra que “há meses acompanhamos nas notícias que chegam das comunidades religiosas espalhadas nas diversas nações: falam de perplexidade, de infeções, de mortes, de dificuldades humanas e económicas, de institutos religiosos que vão diminuindo, de medos… mas falam também de fidelidade provada pelo sofrimento, de coragem, de testemunho sereno mesmo na dor ou não incerteza, de partilha de cada dor e de cada ferida, de cuidado e proximidade com os mais abandonados, de caridade e de serviço à custa da própria vida. Não podemos pronunciar todos os vossos nomes mas sobre cada um e cada uma pedimos a bênção do Senhor para que possam passar do ‘eu’ ao ‘nós’, sabendo que ‘estamos todos no mesmo barco’, frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo, todos importantes e necessários, todos chamados a remar juntos. Sejamos os samaritanos destes dias, vencendo a tentação de se retirar e chorar sobre nós mesmos, ou de fechar os olhos diante da dor, do sofrimento, da pobreza de tantos homens e mulheres, de tantos povos”. Como lembra afinal a Mensagem da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios: «Precisamos hoje de um renovado compromisso comunitário que favoreça a construção de comunidades cristãs mais evangélicas e por isso mais fraternas. Para que a fraternidade não fique numa proclamação bonita ou num ideal utópico e vazio, o mundo precisa do testemunho profético de comunidades religiosas orantes, acolhedoras, alegres, o que só acontece quando elas vivem unidas em autêntica fraternidade».

Podemos concluir com o sucessor de Pedro que: “Consagradas e consagrados a institutos religiosos, monásticos, contemplativos, seculares e dos novos institutos, membros do Ordo Virginum, ermitas, membros de sociedade de vida apostólica, […] não podemos prescindir desta verdade: somos todos irmãos e irmãs como, de facto, rezamos no Pai Nosso, porque ‘sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões estáveis para um apelo à fraternidade’”. Daqui a importância de cada consagrado e de cada comunidade religiosa pois com a sua vida fazem o anúncio e testemunho de que a fraternidade, nasce na consciência de sermos filhos e pertencermos todos ao mesmo Pai.

3. Com o Papa Francisco, também nós “confiamos cada um e cada uma de vós a Maria, nossa Mãe, Mãe da Igreja, Mulher fiel e a São José, seu esposo, neste ano a ele dedicado. Que, em cada um e cada uma de vós se fortaleça uma fé viva e apaixonada, uma esperança certa e alegre, uma caridade humilde e laboriosa”.

Amados Irmãos e Irmãs Consagrados nós, Igreja de Évora «damos graças a Deus pelos homens e mulheres que, nas variadas formas de consagração, permaneceram fiéis ao espírito e ao compromisso que assumiram. Esta fidelidade é razão forte para se sentirem felizes e para merecerem o reconhecimento de toda a Igreja e da própria sociedade».

Neste dia, com todos e por todos rezo: Maria, Senhora da Purificação, Mãe de Jesus e nossa Mãe, aproxima-nos do vosso coração, tantas vezes esquecidos e frios, essa luz que trazes em tuas mãos, para que também nós passemos da noite ao dia, das trevas à luz admirável, do esquecimento à vida.

Senhor Jesus, que no colo de vossa Mãe entraste no templo santo de Jerusalém e agora permaneces vivo e ressuscitado na Jerusalém do alto, transforma as nossas vidas em oblação agradável aos olhos do Pai. Abençoa o teu povo e este Seminário ao serviço do Teu Povo e faz de cada consagrado e consagrada um testemunho e reflexo vivo do Teu Amor.

Ámen.

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora


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