Centenário/Causa de Beatificação: Elevando ao Episcopado

20 – Elevando ao Episcopado

A figura moral, intelectual, sacerdotal e apostólica do Cónego Dr. Manuel Mendes da Conceição Santos era de tal projeção no país, pela sua defesa da doutrina católica e da liberdade da Igreja de Jesus Cristo, ante todos e quaisquer tipos de poder que, ao vagar uma sede episcopal, logo o seu nome era apontado como futuro Bispo dessa Diocese. Um exemplo interessante e com alguma piada passa-se em 1914. Qual não é o seu espanto, quando Manuel Mendes lê, no jornal “Legionário Transmontano” que fora eleito Bispo de Bragança…
Imediatamente se apressa a desmentir tal informação e, valendo-se das relações de amizade com antigos condiscípulos, agora ocupando altos cargos na Cúria Romana, a quem pede que haja um desmentido oficial por parte da Santa Sé, ao que lhe é respondido, por um dos seus grandes amigos: “Em resposta à tua carta devo dizer-te que não posso fazer sentir no ‘Legionário Transmontano’ a falsa (ou verdadeira) notícia da tua nomeação para Bispo de Bragança, porque mal conheço o Dr. Fernandes. Será mesmo verdadeiramente falsa tal notícia que hoje foi confirmada pelo ‘Libertá do Porto’? Mas, para te deixar mais contente, escreverei a um amigo de Braga para publicar em ‘Ecos do Minho’ que não está provado que tu sejas nomeado Bispo Bragantino. É o que posso fazer por ti”.
Se, por um lado, esta carta tão enigmática prova que Manuel Mendes não fora indigitado como Bispo de Bragança, por outro lado, contrariamente ao que era o seu maior desejo, também não veio comprovar que nunca seria elevado ao Episcopado…
Enquanto andava à procura do seu lugar (se na vida sacerdotal secular ou se na vida religiosa, ingressando na Companhia de Jesus), – destinos de Deus…, pois um ano antes havia posto pela segunda vez a hipótese de entrar na Companhia de Jesus. A primeira havia sido nas vésperas da sua ordenação sacerdotal – o Espírito Santo preparava o “novo lugar” para o Cónego Manuel Mendes da Conceição Santos e não era, com toda a certeza, o exercício do seu sacerdócio na Companhia de Jesus nem o seu exercício no ministério presbiteral. Tudo o Espírito Santo orientava para que o seu lugar fosse ao serviço de uma Diocese, não como presbítero, mas sim como Bispo, como era preconizado pela voz do povo de Deus. Nos caminhos da Providência divina estava escrito que, como descreve Francisco Maria da Silva na sua emblemática obra “A Alma do Arcebispo Apóstolo”, “a barca de Pedro se fizesse não rumo ao Norte, para Bragança e outras paragens, mas rumo ao Sul, a Portalegre e a Évora”, o que veio a acontecer a 09 de dezembro de 1915, data em que é assinada, pelo Santo Padre, o Papa Bento XV a Bula de nomeação do Presbítero Manuel Mendes da Conceição Santos como Bispo de Portalegre.
O Senhor, que o chamara ao sacerdócio, fazendo-o, porém, buscador do seu lugar como presbítero da Santa Mãe Igreja, vai mostrando onde seria verdadeiramente o seu lugar, fazendo-o coluna da Igreja, como sucessor dos apóstolos, ao serviço de uma Igreja diocesana, com quem se desposa e por quem dá a sua vida, vivida sempre no limite da condição e do cuidado humanos e da entrega a Deus e aos filhos, que a Igreja lhe concede. Consciente da missão, ainda que não conhecedor das inúmeras e terríveis vicissitudes que teria de viver, confia a sua vida nas mãos do Senhor e da sua “boa e terna Madrinha”, Nossa Senhora, o seu episcopado e o retiro preparatório para a sua sagração episcopal, como se dizia na época, o qual se realizou em Ciudad Rodrigo.
Seguindo o esquema dos exercícios espirituais inacianos adaptados àquela circunstância concreta, o já eleito Bispo de Portalegre, Dom Manuel Mendes da Conceição Santos, fruto da intensidade espiritual e mística com que viveu aquela experiência de Deus, deixa-nos um verdadeiro e extraordinário manual da teologia e espiritualidade do Bispo, com uma profunda atualidade, passados mais de cem anos da sua realização.
Na sua mente e no seu coração, analisava com profunda lucidez o momento histórico que se estava a viver e a missão que lhe era confiada: “nesta hora solene da minha vida: marchar intrépido para o sacrifício com os olhos em Deus. Estamos em tempo de guerra. Um comandante reúne os soldados durante um certo tempo, ensina-lhes o exercício das armas, depois manda-os marchar para a guerra e os soldados vão serenos e impávidos para a morte ou ao menos arriscando-se a ela. Assim devo ser eu. O Senhor chama-me e manda-me ocupar um posto difícil e arriscado”.
A confiança em Deus era a palavra de ordem e a razão de ser de todos os seus propósitos: “Eis-me aqui, envia-me; irei, não quero nem devo ser menos generoso do que os soldados que vão para a guerra. Senhor, para trabalhar, para sofrer, para morrer, eis-me aqui! É assim que eu me quero considerar, como um batalhador que se oferece para morrer, por uma causa tão nobre, por um Senhor tão bom, que nada se lhe pode comparar”.

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19 – A sua força estava na oração

De onde recebia o Padre Manuel Mendes a força para continuar a lutar, não obstante tantos embates? De onde lhe vinha a luz para ultrapassar os momentos de escuridão? De onde lhe vinha o entusiasmo que o levava a ultrapassar as injúrias vindas de fora e não menos de dentro da Igreja e que ele tão bem conhecia, vivendo como se não existissem? Onde era a fonte da tenacidade que o ajudava a suportar tão grande e exigente missão de levar por diante Cristo e a Sua mensagem a toda a criatura, em tempos tão hostis à Igreja e tão adversos a Jesus Cristo? De onde lhe vinha a robustez para, na fidelidade ao Santo Padre e aos seus ensinamentos, influenciar e apoiar o nascimento do Partido Nacionalista, que se propunha defender a Doutrina Social da Igreja? De onde recebia o ânimo para marcar, com a sua presença nos diversos Congressos, o apoio a este partido? De onde lhe vinha a inspiração e o conhecimento para, mesmo quando teve de fazer uma conferência de forma absolutamente improvisada acerca da ação da Igreja no campo social, como defensora dos pobres e oprimidos, como aconteceu em Braga, em 1909? De onde lhe vinha a capacidade de perdoar a quantos, na refrega com que esclarecia os adversários, o apelidavam de forma pejorativa de “jesuíta”?
A fonte de toda essa vitalidade interior advinha-lhe da estreita união com Jesus Cristo e Sua santíssima Mãe, a quem confiava a sua vida e a sua missão; a quem se oferecia em reparação pelos atos cometidos contra o Coração do Divino Salvador; a quem levava para todos os seus ambientes e situações, nunca faltando, a quem quer que fosse, uma atitude respeitadora e cordial, uma atenção especial e uma palavra delicada e cristã. Tudo isso só era possível porque, em Cristo, encontrara a Sua razão de viver; com Cristo encontrara a razão de servir e, por Cristo, a razão de sofrer… ainda que, a cada dia que passava, a vida fosse mais difícil.
Para se aquilatar da intensidade da sua vida espiritual, durante estes anos em que audazmente lutou por Deus e pela Pátria na arena difícil da cidade da Guarda, não possuímos, infelizmente, muitos documentos escritos. As suas obras, todas de fomento da vida sobrenatural, e o testemunho de muitos que receberam o seu benéfico influxo, são o argumento externo que nos confirmam no que temos como axioma: à medida que os dias passavam e que a luta era mais difícil, mais o seu espírito se unia a Deus numa doação total.
É de 7 de junho de 1907, festa do Sagrado Coração de Jesus, a consagração escrita por seu punho, que transcrevemos, porque nos dá a justa medida da sua ascensão espiritual: “Coração dulcíssimo de Jesus, profundamente humilhado e intimamente confundido pela minha ingratidão e mesquinhez para convosco, venho, neste dia, prostrar-me a vossos pés e pedir-vos humildemente perdão. Coração abrasado, não me recusareis de certo esta graça. Eu quisera também compensar-vos das ofensas que neste sacramento sofreis, tendes sofrido e sofrereis de mim e de tantos outros; mas que poderei eu oferecer-vos que seja digno de vós?
Ah! meu Jesus, não permitais que eu vos torne a ofender ou que de vós me afaste. Dai fervor, generosidade, amor ao meu coração, para que ele seja uma vítima imolada por vós. Vejo-me tão fraco, tão inconstante, tão indigno, que não me atrevo a grandes promessas; faço-vos, porém, ó meu Jesus, plena e irrevogável oferta de mim mesmo. Ofereço-me a vós, em honra de Maria e pelas mãos de Maria, para o que vós quiserdes e como vós quiserdes, sem reserva nem condição alguma. Se quereis que eu sofra, seja humilhado e desprezado, tudo isso eu quero por vós, peço-vos, porém, amor para amar isto tudo, porque eu nada posso. Irrevogavelmente a vós me consagro, não quero nada por mim, mas tudo por vós, meu amor supremo.
Ao vosso Coração me consagro, nele quero viver, nele quero morrer para mim e para o mundo. Já não pertenço a mim mesmo, fazei de mim o que vos aprouver. Abençoai o meu sacerdócio, abençoai a minha missão nesta casa, abençoai os seminaristas que me confiastes, abençoai o meu Prelado, abençoai os meus parentes, e tomai posse de mim. Ó Jesus, amor e só amor!”

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18 – Na formação de uma Igreja consciente e responsável

O jornalista insigne Joaquim Dinis da Fonseca, em jeito de testemunho, apresenta, de forma bastante esclarecedora, a missão do Padre Manuel Mendes na formação de uma Igreja consciente e responsável: «Quando o conheci, era eu menino e moço e tinha à minha volta todas as consequências sociais e todas as perversões sociais do liberalismo: o arrefecimento da fé católica ancestral, a invasão naturalista e paganizadora, a indisciplina e o descrédito da autoridade civil e religiosa, o culto idolátrico do estrangeiro e o vilipêndio de tudo o que ainda era português! Foi neste meio e nesta atmosfera que teve de atuar o apostolado cristão do então novel sacerdote P. Mendes dos Santos.
Recordo-me do primeiro artigo escrito, pelo recém-chegado reitor do Seminário, para a revistinha, A Guarda, precursora do que viria a ser, com o mesmo título, o glorioso órgão da imprensa católica. Esse artigo glosava uma velha lamentação suscitada pela invasão agarena na Península, arrasadora da antiga florescência cristã. Quem é hoje ainda cristão e godo nestas terras pisadas pelas hostes agarenas! Perante a invasão maçónica que avançava, o Padre Mendes Santos exclamava por seu turno: quem há aí ainda católico e português nestas terras outrora de Santa Maria?!…
Desse artigo podia extrair-se todo o programa que o novo Reitor do Seminário se propunha executar, com acendrado espírito sobrenatural e ascético fervor: era preciso renovar as fontes sobrenaturais do cristianismo do nosso país; era preciso libertar a Igreja das gargalheiras regalistas que a asfixiavam; era preciso renovar a velha alma nacional, que fizera toda a nossa grandeza histórica, renovando o conceito da autoridade e o respeito e cooperação que lhe são devidos, contra os fermentos desagregadores da anarquia individualista; renovar o conceito de justiça social e de caridade social de que a vida portuguesa fora exemplo, contra os fermentos da desordem económica e financeira que haviam empobrecido a nação e feito o seu descrédito no mundo! A Providência chamava-o para mestre e orientador deste movimento, embora poucos o pudessem suspeitar, ao vê-lo tomar conta da reforma de um seminário provinciano!
Essa missão de que a Providência o incumbira, exerceu-a até ao fim, com insuperável inteligência e intemerata fidelidade, restaurador do espírito eclesiástico, como Reitor do Seminário da Guarda; impulsionador do movimento em favor da independência e liberdade da Igreja, contra o regalismo, ou cesarismo disfarçado, fingindo este dar apoio às regalias episcopais contra a autoridade da Santa Sé, para, no fundo, acorrentar sacerdotes e Bispos à tirania balofa de um poder civil cuja autoridade desservia os interesses da Pátria e afundava o prestígio da Nação!
Em todos estes lances, a Igreja encontrou, em D. Manuel da Conceição Santos, o Mestre e orientador arguto e intemerato na defesa das liberdades da Igreja, contra os que as negavam, ou falsamente as defendiam, fazendo delas apenas trampolim político!
A sua formação eclesiástica fora completa e doutrinalmente esclarecida; a sua atividade sacerdotal sempre iluminada pelos esplendores de um espírito sobrenatural incorruptível; a sua autoridade de professor e de Prelado sempre atenta aos ensinamentos, advertência e diretrizes da Igreja, fazendo dele um guia sempre pronto e seguro, um Mestre sempre escutado, um Chefe sempre acolhido com respeito, nas horas perturbadas e trágicas em que a Autoridade da Igreja foi abertamente negada por uns, e respeitosamente desacatada por outros, numa rebelião perturbadora da disciplina católica e da própria unidade da fé!»

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17 – Na formação de uma Igreja consciente e responsável

A missão do Padre Manuel Mendes que mais deixou marca na Diocese da Guarda foi, sem dúvida, por um lado, a de vice-reitor do Seminário diocesano e impulsionador da obra das vocações, por outro lado, a de governador na prática dessa mesma Diocese. Porém, como alguém afirmou um dia, “as paredes do Seminário não eram capazes de reter cativo o espírito do Vice-Reitor”.
Impelido pela missão de levar a Boa Nova a todos os que, naquele contexto histórico e social tão adverso à Igreja e à doutrina deixada por Jesus Cristo, fez-se voz e testemunho de Cristo na vida dos homens. Rezou e fez rezar, anunciou e viveu o que propôs a cada cristão: encontrar-se com o Senhor na oração, encontrar o Senhor na caridade. Com o objetivo de levar cada cristão à vida de oração, tudo fez para que, em cada Paróquia, existisse um centro do Apostolado de Oração, criando onde não existia e animando os decaídos; onde era possível, fundava a Associação das Filhas de Maria e, ante a pobreza existente, porque a “fé sem obras é morta”, fundou a obra do Agasalho dos Pobres, como consequência prática dos ensinamentos do Papa Leão XIII, apresentados através da Encíclica Rerum Novarum, com a qual se iniciou, de forma organiza e esquematizada, a Doutrina Social da Igreja, a ponto de, pelos grupos mais conservadores da sociedade egitaniense, ser apelidado de “Socialista”.
Convencido do prodigioso poder da Imprensa para a difusão dos ensinamentos da Igreja, dedicou-se, de alma e coração, ao jornalismo onde a sua ação foi ainda mais saliente: nesta fase da sua vida, colaborou na revista Estudos Sociais de Coimbra e no jornal diário Novidades e fundou o jornal diocesano “A Guarda” e, para que os seminaristas aprendessem a importância do jornalismo e dessem os primeiros passos nesta ciência, fundo o jornal A Abelha.
Como jornalista, anotam os Anais Torrejanos, “bem conhecido é o valor e o brilhantismo da sua pena” e o jornal A Guarda, numa homenagem ao Padre Manuel Mendes, escreve: “durante anos foi ele que escreveu todos os artigos de orientação e de responsabilidade aí publicados como foi ele quem sempre dirigiu o jornal. À sua proficiente direção se devem, pois, os magníficos triunfos que A Guarda conta no seu passado e as gloriosas tradições que ilustram a sua vida”.
Manuel Mendes não foi apenas diretor, mas também “um intemerato batalhador, mestre dos mestres do jornalismo e, em larga medida, o criador do jornalismo católico, no sentido com que a Santa Sé o definiu e o Patriarca de Lisboa um dia explicou: com a eloquente gentileza que é timbre do seu talento oratório e padrão da sua sapiente prudência literária, foi um príncipe dos jornalistas, na vastidão da cultura, na técnica da composição, no desinteresse pessoal, no zelo ardente das altas e nobres ideias que a Igreja representa, defende e espalha”, como Francisco Maria da Silva, seu biógrafo, realça na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”. Também o jornal A Guarda, num dos seus números do ano de 1956, refere que “desde o princípio, ainda que as afanosas lides lhe roubassem o tempo, estivesse longe ou perto, sempre o seu primeiro pensamento, o seu mais útil trabalho era o jornal, certo de que, hoje como ontem, é à imprensa, mais que aos tablados dos comícios e mesmo às grades dos púlpitos, se deve o melhor quinhão na evangelização social do povo”.
Para suportar os preços da edição do jornal e não depender de qualquer outra reprografia, ousou o Padre Manuel Mendes criar a empresa “Veritas” e a ela dedicou toda a sua alma e todos os recursos da sua vastíssima inteligência. Pode mesmo afirma-se que terá sido umas das suas melhores e mais perduráveis obras.
No intuito de criar o gosto pela necessidade da evangelização, o Padre Manuel Mendes, nos princípios de dezembro de 1905, ou seja, pouco tempo após chegar à diocese da Guarda, levou por diante a realização do primeiro Congresso da história da Igreja em Portugal sobre a Catequese, motivado pela belíssima Encíclica “Acerbo Nimis” do Papa Pio X, onde apresenta à Igreja egitaniense o célebre “Catecismo de São Pio X” e profere uma conferência subordinada ao tema “Pio X e o Catecismo”. E, na continuidade deste trabalho em prol da catequização de todas as faixas etárias, traduz e adapta à realidade portuguesa o famoso “Compêndio da Doutrina Cristã”, o qual formou cristãmente tantos católicos durante décadas e décadas.

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16 – No governo da Diocese

A perseguição à Igreja não desarmava. Dirigia-se principalmente contra o episcopado, sobretudo devido à sua reação contra a Lei da Separação da Igreja do Estado, pela forma como se encontrava redigida. Prevendo tempos difíceis e anormais para o governo da Diocese, D. Manuel Vieira de Matos, depois de, em 1909, por proposta sua ao rei D. Manuel II, conforme os costumes da época, o padre Manuel Mendes ter recebido o canonicato, decidiu nomear três governadores para a Diocese: os cónegos Barbas Freire, António Augusto Lopes e Manuel Mendes da Conceição Santos; e a razão está bem patente na Provisão de nomeação de 1911: “… para no caso de nos vermos forçado a deixar a diocese ou de sermos impedido de a administrar” porque, como refere D. Manuel Vieira de Matos no mesmo documento, é necessário “providenciar à regular administração da nossa Diocese na época anormal que a Igreja vai atravessando no nosso País”.
Afirma Francisco Maria da Silva na grande Alma do Arcebispo Apóstolo que “embora juridicamente seja o reverendo cónego Barbas Freire o governador, de facto, quem exerceu esse múnus foi o cónego Mendes dos Santos. São centenas as cartas que se conservam do Arcebispo exilado para o ‘Senhor Reitor’, tratando os mais variados assuntos relativos à Diocese, aos padres e ao apostolado em geral. Como centenas são as cartas recebidas por ele de sacerdotes, muitas repletas de pessimismo e do desânimo que lhes ia na alma. A todos encorajava, fortalecia, traçava normas com caridade, prudência e firmeza. E a todos defendia, sobretudo aos que eram perseguidos por amor da Igreja.
Pode mesmo afirmar-se que, nos momentos difíceis que a revolução de 5 de outubro de 1910 trouxe à vida das dioceses em Portugal, o Cónego Mendes Santos esteve à altura das circunstâncias na luta intrépida pelos direitos da Igreja, como bem se compreende ao ler-se a transcrição da sua intervenção em pleno tribunal em defesa de um sacerdote, da qual ousamos transcrever alguns excertos: “Pela primeira vez, nos anais deste tribunal, se viu um luzido grupo de Senhoras da primeira sociedade de Trancoso, a assistir a uma audiência. Gentilmente o senhor juiz mandou-lhes oferecer cadeiras adentro da teia, onde se viam também numerosos advogados e cavalheiros dos mais distintos da vila”.
“Quem afinava também de grande era o senhor administrador do concelho cuja ciência canónica não emparceira com o brilho do seu apelido e com ele a igrejinha doméstica, incluindo o infeliz sacerdote que se prestara a esta burla. Contra esse padre foi instaurado processo na cúria episcopal, por causa de gravíssima irregularidade que praticava”.
“Reaberta a audiência continuou a ser inquirido o senhor dr. Mendes Santos, ou melhor, continuou o debate entre o sr. dr. Delegado e esta testemunha, sobre o assunto que fora discutido na véspera. Por vezes a discussão acalorou-se, tornou-se palpitante, apaixonando o público que a ia seguindo com avidez, manifestada no religioso silêncio com que era escutada; e terminou após uma hora e meia, durante a qual, sempre com delicadeza irrepreensível e numa forma elevada se trocaram de parte a parte rijos botes de argumentação”.
“E voltando ao ponto de partida, como o sr. dr. Delegado tivesse aludido à possibilidade de o arguido ter desacatado as leis da República, o sr. dr. Mendes Santos disse que a República, pela letra da Constituição, garante a liberdade de consciência e esta supunha a liberdade integral da religião; mas se um dia uma lei pretendesse ingerir-se no domínio da sua consciência e impedir-lhe a prática da religião que professa e ama, ele sujeitar-se-ia às penalidades da lei, mas não atraiçoaria por ele a sua consciência e a sua religião”.
Palavras proféticas.
Junho de 1923

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15 – Vice-Reitor do Seminário da Guarda

Tempos difíceis para a Igreja: arrombavam-se as portas dos templos, violavam-se os sacrários, mutilavam-se as imagens sacras, espoliavam-se os bens da Igreja, perseguiam-se os sacerdotes e os bispos, afastavam-se os fiéis do culto comunitário e vigiava-se o culto familiar e privado. É neste contexto que, em abril de 1903, Dom Manuel Vieira de Matos é nomeado Bispo da Guarda. Levava como plano pastoral para aquela diocese formar solidamente o clero, animar a Pastoral Juvenil e fortalecer o apostolado no meio operário.
Um plano tão divinamente ambicioso como humanamente impraticável neste contexto histórico. A não ser que, a seu lado, tivesse um colaborador tão inteligente como modesto, tão ativo com contemplativo ou sobrenatural, tão competente como afetivo… Com estas caraterísticas Dom Manuel Vieira de Matos, dos tempos de Bispo Auxiliar de Lisboa, só conhecia um sacerdote, na diocese de Lisboa, oriundo dos lados de Torres Novas e que estava a exercer o seu ministério no Seminário patriarcal de Santarém como professor, o Padre Manuel Mendes da Conceição Santos.
Havia, porém, um problema: esse sacerdote, porque era da diocese de Lisboa, só poderia ser deslocado para a diocese da Guarda se o Cardeal Patriarca o permitisse, o que percebeu, por resposta a cartas suas que era impossível, o que o levou a recorrer às mais altas instâncias eclesiásticas e a um diálogo muito pouco cordial, até que Dom José Sebastião Neto finalmente acedeu enviar o Padre Manuel Mendes para a Guarda, a fim de assumir a formação do futuro clero daquela diocese. Com a responsabilidade de ser “vice-reitor do Seminário da Guarda”, chega àquela cidade episcopal, sob os auspícios da Santíssima Virgem, sua “boa e querida madrinha”, no dia 8 de setembro de 1905 e, com ele, a fama que o acompanhava de cavaleiro ilustre, sacerdote exemplar e professor cheio de mérito.
As instruções recebidas do Bispo diocesano e a personalidade do Vice-Reitor do Seminário, alicerçada numa sólida piedade, numa vida disciplinar perfeita e de uma nítida compreensão da alta e exigente missão sacerdotal, foram influenciando a decisão livre e responsável de cada um dos candidatos ao sacerdócio que, não revelando quaisquer aptidões, fossem pedindo para abandonar aquela instituição. Ao mesmo tempo que internamente cuidava da disciplina da comunidade residente no Seminário, exteriormente defendia a sua honra, os seus direitos e os seus formadores e formandos. Provam-no a carta por si enviada ao “Jornal do Povo”, em 1912, a fim de corrigir algumas afirmações que punham em causa a seriedade dos sacerdotes ali residentes e com missão formativa, através da qual deixa os seguintes esclarecimentos: “todos eles são dignos, de comprovada honradez e probidade, incapazes de abusar do seu ministério (no que aliás, cometeriam um crime gravíssimo) e eu prezo-me também de ter a hombridade necessária para não admitir infâmias desta ou doutra espécie”.
E quando tentam pôr em causa a parcialidade do Vice-Reitor, este responde com toda a firmeza: “dessas informações assumo toda a responsabilidade, desde que tenham sido dadas por mim, pois me guio sempre pela minha consciência e assim espero continuar a fazer, aconteça o que acontecer. Dos meus atos estou pronto a dar contas a quem tenha direito de mas pedir; os motivos que imperam no meu ânimo ao dar qualquer informação não posso nem devo assoalhá-las em público, proíbe-mo a dignidade e o respeito que devo às minhas funções e ao bom nome alheio”.
Estas injúrias vindas de fora e de dentro da Igreja eram simplesmente fruto do desejo de esvaziar a Igreja da sua moralidade com o intuito de, com justificação, encerrar o Seminário, o que veio a acontecer, sem motivo algum, a 28 de outubro de 1914, através de uma intimação na qual estava escrito que o Vice-Reitor deveria enviar os alunos para casa, despedir os formadores, abandonar a casa, entregar as chaves… depois de a 15 de abril de 1913, terem encerrado a sua Igreja e proibido o culto. Porém, não se deixou o Padre Manuel Mendes quebrar ante tal decisão e, a 30 de dezembro do mesmo ano, já estava a celebrar a Eucaristia num edifício, no Fundão, para onde iria, a partir de janeiro de 1915, o “Internato Académico” (Seminário da Guarda) com 25 alunos (seminaristas)…

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14 – Os primeiros anos ao serviço do Reino

Ordenado Presbítero, Manuel Mendes continua a exercer as funções para as quais tinha recebido nomeação do Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom José Sebastião Neto, aquando da sua chegada a Portugal, ou seja, ser o Prefeito de Estudos do Seminário Patriarcal de Santarém, ministério que o acompanhou durante 5 anos, de 1900 a 1905, e professor do terceiro ano de latim, de conversação latina e de teologia dogmática. Em 1903, a estas disciplinas juntou ainda a lecionação da disciplina de Alemão e participação no júri dos exames de Inglês, no Liceu Nacional de Santarém.
A par da docência, a vida do Padre Manuel Mendes ao serviço do Reino abarcou muitas outras áreas, fundamentalmente no campo espiritual, fomentando uma verdadeira e profunda vida espiritual em tantas almas que, através dos retiros por ele pregados, da confissão sacramental ou da direção espiritual, foi considerado unanimemente um homem de coração e de talento.
Ocupa ainda um lugar muito importante no exercício do seu ministério destes primeiros anos de sacerdócio o serviço da pregação. Fruto do conhecimento que lhe vinha do estudo, da sensibilidade que lhe vinha da oração e da eloquência simples da palavra tocante que lhe vinha do conhecimento da pessoa humana e ainda da sua história de vida, amassada na Palavra de Deus, torna-se um inflamado e bem conhecido pregador (caraterísticas que manteve até aos últimos dias da sua vida para os mais variados e ilustres auditórios), porque anunciava Jesus Cristo aos homens com sede de Deus, matando a sede dos homens com a sede de Deus.
Exemplos claros são os seus escritos nestes primeiros tempos, onde se percebe que cada pregação era preparada com todo o cuidado e conhecimento da doutrina da Igreja, minúcia e arte no uso da sua língua materna e maturidade nascida da reflexão, que o levava a escrever com maestria, simplicidade, profundidade, musicalidade e extremo coração. Proferida na sua terra Natal, a sua primeira pregação manifesta, com profunda clareza, as caraterísticas anteriormente referidas: “Bela e consoladora é para todos vós e para mim esta coincidência […]. Para vós, porque no dia da glorificação da Virgem, vindes render pública e solene homenagem ao culto do Divino Espírito Santo, àquele por cujo hálito a Igreja é bafejada, cuja ação a anima, cujo influxo a vivifica […]. Para mim, porque filho desta freguesia, batizado nesta Igreja e tendo passado entre vós os primeiros anos da minha existência, não posso deixar de sentir um não sei quê de extraordinário em meu coração ao ver-me de novo entre vós a distribuir-vos o pão da divina palavra”.
Testemunha Francisco Maria da Silva, na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”, que o Padre Manuel Mendes “começou por onde todos começam: subiu, porém, a alturas de pouco atingidas. Foi Mestre na arte de dizer e entrou na Academia. Uma nota impressionante desde já: a fidelidade ao Evangelho. A sua pregação tem uma constante, que são as verdades eternas e reveladas, aplicadas sempre às necessidades dos novos tempos. Começou o seu magistério no púlpito, mostrando os flagelos inerentes ao pecado; quem o ouviu, ainda nos últimos anos de vida, quando subia à cátedra solene da Sé ou se dirigia a auditórios simples, pode testemunhar que o tema ainda era idêntico. Cristalizará? Mas o Evangelho não é constante? Uma só coisa o preocupava: a glória de Deus e que os homens, com a sua vida honesta e pelo cumprimento integral do seu dever, prestassem ao Senhor as homenagens que Lhe são devidas”.
Todo este trabalho nunca o impediu de estudar, familiarizando-se e aperfeiçoando os seus conhecimentos nas línguas inglesa, francesa, alemã, espanhola e italiana, usando-as tanto na escrita como na oralidade com altíssima correção e “manejando-as com excecional facilidade”, como, mais tarde, grandes literatos o testemunham. Guilherme de Vasconcelos Abreu, notável orientalista, contemporâneo do Padre Manuel Mendes e considerado por muitos “insuspeito e sábio professor”, testemunha que “fazendo um propositado, embora disfarçado, exame ao saber do sr. Dr. Mendes Santos, concluí que era mais sabedor do que eu podia suspeitar”.

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13 – Manuel Mendes prepara-se para a Ordenação Presbiteral

Manuel Mendes, como ficou conhecido desde os tempos do Roma, regressa a Portugal. Depois de, a 4 de maio de 1898, terminar o seu doutoramento em teologia, regressa ao país que o viu nascer e crescer na vida e nas virtudes naturais, como na vida sobrenatural e na caminhada vocacional, para, a 12 de dezembro do mesmo ano, ser ordenado diácono. E, cinco meses mais tarde, a 27 de maio de 1899, recebe, na Igreja do Seminário patriarcal de Santarém, pela imposição das mãos e oração consecratória, a sua ordenação presbiteral.
Antecedeu a esta data o seu retiro preparatório para a ordenação, aquele dia tão esperado e desejado pelo jovem Manuel Mendes e que, pelas circunstâncias da sua débil saúde, algumas vezes terá pensado não vir a passar de sonho, com início no dia 19 de maio. Colocando-se ele diante de si mesmo e do Senhor, a sua primeira atitude é reconhecer a razão daquele tempo de intimidade e que, fruto dos sentimentos do seu coração, transcreve no seu bloco de apontamentos: “A importância deste retiro deduz-se do seu fim, que é regular as nossas contas com Deus e pôr-nos no caminho da salvação. Os meios que temos para tirar dos exercícios todo o fruto devido são uma grande pontualidade em cumprir o horário e uma grande generosidade para com Deus”. E termina os seus apontamentos com uma breve oração: “Ó Jesus, eu me lanço nos vossos braços, disponde de mim como Vos aprouver, fazei de mim o que quiserdes. Que eu me reforme!”.
Meditando o Diácono Manuel Mendes no fim último do sacerdócio, conclui que é um dom “altíssimo, mas tremendo. É continuar a obra de Jesus Cristo na salvação das almas e oferecer o sacrifício augusto em que se imola o mesmo Deus. É um ministério que faria tremer os anjos… quais os meios para desempenhar bem estas funções e conseguir o fim? A oração mental, o Ofício Divino e a santa Missa”; o propósito que tira desta meditação é o seguinte: “Não deixar nunca a meditação, não deixar a preparação e ação de graças da Missa”; e o seu lugar é com Cristo Crucificado e Maria, no alto do Calvário: “Como obedece o meu Rei àqueles malfeitores, como os perdoa e reza por eles… E eu? Pelo menos, vou imitá-lo de agora em diante: ouvi os meus clamores. Reza pelos que o crucificam, dá-nos a sua Mãe como nossa Mãe. Como te amamos, ó Mãe? Ó Maria, lembra-te do testamento do teu Filho e faz de mim o teu verdadeiro filho. Tenho sede! Sede de quê, ó Jesus? Do sofrimento e das almas. Aqui está a sede que devo ter como sacerdote, principalmente se o Senhor quiser algum sacrifício e desapego de mim mesmo. Depois de tanto sofrimento, Ele entregou o Seu Espírito ao Pai. Porquê? Para poder dizer que tudo está consumado. Ele cumpriu a vontade de Seu Pai. Também eu quero repetir as mesmas palavras no fim da minha vida; e, todos os dias, quero sacrificar e fazer o que Deus quer que eu faça. Então, começo a paz!”
Fruto deste mesmo retiro, que durou uma semana e no qual procurou rever toda a sua vida, fazendo da sua ordenação presbiteral uma “repartida” que o levaria à meta onde Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote estaria à sua espera e o acolheria com o abraço da Trindade, no reino dos céus, nasceram grandes propósitos, os quais foram preocupação constante ao longo de toda a sua vida, não só na dimensão espiritual ou sobrenatural mas também na dimensão natural, a fim de, cada vez mais, se aproximar do Senhor e com Ele viver uma profunda e séria comunhão. Exemplos desse desejo são, a fim de alcançar a virtude da temperança, “não me exceder na comida e sobretudo na bebida. Não me levantar da mesa sem ter feito alguma mortificação de gula” e, para obter a virtude da caridade, “ser muito afável e doce para com todos. Não me impacientar com os pecadores e usar para com os pobres de uma benevolência especial”. Para alimentar e sustentar a sua vida de fé, propõe-se “fazer todos os dias, apenas levantado, meia hora de meditação. Fazer sempre a preparação para a missa e no fim pelo menos um quarto de hora de ação de graças. Muito recolhimento na Missa. Confissão Semanal. Retiro mensal, nas quintas antes da primeira sexta-feira. Exame geral quotidiano e particular sobre o amor próprio. Terço quotidiano e devoção a São José”.
Foi com estes profundos propósitos – sem deixarem de ser simples e acessíveis a todos –, que o jovem Manuel Mendes subiu ao Altar do Senhor para se tornar Sacerdote do Senhor, segundo a ordem de Melquisedec, no dia 27 de maio de 1899, sendo ordenado por D. Manuel Batista da Cunha, Bispo Auxiliar de Lisboa e Arcebispo de Mitilene.

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12 – Na cidade eterna nem tudo foram rosas… (25-27)

O ano de 1897 foi, para o jovem Manuel Mendes, um ano muito difícil. Os problemas de saúde que não permitiram que ele fosse para Roma iniciar os estudos teológicos, em outubro de 1894, e que o prenderam à cama até 12 de dezembro, voltam a atormentá-lo ao longo de todo o ano de 1897, desde o primeiro dia do ano até aos finais de outubro.
Percorrendo as suas agendas pessoais que, acima de tudo, são o seu diário, pois é nelas que, desde 13 de dezembro de 1896 até à sua morte, Manuel Mendes vai escrevendo algumas notas de experiências vividas cada dia, percebemos que foi, sem dúvida, um ano muito difícil, de uma crise de saúde muito acentuada. No dia 1 de janeiro escreve: “Recebi hoje uma caixa com cápsulas que amanhã começarei a tomar por causa de uma tosse que trago há dias” e, no dia 5, escreve: “hoje fiquei na cama para ver se curava a tosse. Veio o médico novo, Pergallo, e mandou-me para a enfermaria. Cá estou, portanto, na enfermaria, pela primeira vez desde que estou no Seminário Romano. Deus queira que seja por pouco tempo”. Dois dias depois, explica que “toda a minha doença é tosse, mas como ela é muito forte tenho que ter cautela”.
Por aconselhamento do médico, muitos meses do ano de 1897 foram passados no Sanatório marítimo de Nettuno. Porém, não foi tempo perdido, pois o jovem Manuel Mendes foi aproveitando para se preparar para os exames, ainda que, pelas circunstâncias de saúde, não pudesse ter participado nas aulas, como ele próprio escreve na sua agenda, no dia 9 de Julho, onde pode ser lido: “Passei todo o dia a preparar-me para o exame de licença que farei amanhã”. E, no dia 10 escreve: “Fiz o exame de 3.º ano de Teologia hoje, às 6 horas da tarde e, graças a Deus, passei a pieni voti. Foi decerto uma graça que Nossa Senhora me fez, pois eu estava com muito medo”.
Terminados os exames, a 27 de julho, vai para Rocantica, para, numa quinta do Seminário ali existente, fazer alguns tratamentos com os ares do campo. Mas, no dia seguinte, o médico reenvia-o para Nettuno, onde ficará até ao dia 28 de outubro de 1897, data em que regressa totalmente refeito da sua saúde.
Não obstante a circunstância de estar longe dos seus companheiros e dos objetivos que o levaram para Roma, nos apontamentos que vai registando nas suas agendas, tudo e todas as circunstâncias vai aproveitando para viver na alegria de se sentir filho e amado por Deus. Na sua profunda confiança em Nossa Senhora, nesta hora que terá sido difícil para Manuel Mendes, escreve: “Eis-me de novo nesta praia, longe dos meus companheiros e quem sabe por quanto tempo? Nossa Senhora queira que seja pouco e melhore depressa”. E foram ainda mais três meses…
Até na doença e na recuperação da sua saúde tudo era “aproveitado” por ele como dom de Deus, até a passagem de sacerdotes de outras origens, para aprofundar e praticar os seus conhecimentos em língua estrangeira. São de realçar ainda duas facetas do jovem seminarista: a alegria, o tempo.
Mesmo em ocasiões de sofrimento, a gratidão que leva à alegria cristã era uma constante em todas e por todas as circunstâncias, como se pode ler na sua agenda, em duas ocasiões diferentes deste mesmo tempo: no dia 11 de agosto escreve: “dei um passeio de barco com mais 12 ou 13 pessoas. Foi uma excursão verdadeiramente poética e alegre que deixou todos contentes. Havia bons cantores na comitiva e no meio do majestoso silêncio da noite, sobre a superfície ondulada do mar, eram de um mágico efeito os harmoniosos cantos que se entoavam”. E a 1 de outubro escreve: “partiram hoje os missionários do Sagrado Coração (companheiros em Nettuno), com quem tenho estado em tão alegre companhia”.
O sofrimento ensinou Manuel Mendes a valorizar o tempo como dom de Deus e que, como tal, não pode ser desperdiçado, como ele próprio escreve: “Oxalá que o ano que hoje começa seja todo passado no fiel cumprimento dos meus deveres, a fim de que ao fim dele, se Deus permitir que eu lá chegue, eu não sinta o mínimo remorso por haver empregado mal o tempo que Deus me concede.”

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11 – Ainda na cidade eterna… dois marcos importantes

Na Cidade Eterna, Manuel Mendes vive dois marcos muito importantes: o primeiro é a celebração do seu vigésimo aniversário, a 13 de dezembro de 1896 e a receção da sua ordenação subdiaconal, celebrada em Roma, um ano depois, a 18 de dezembro de 1897.
O jovem estudante considera a celebração do seu vigésimo aniversário um marco importante na sua vida, um tempo de análise e de exame de consciência, por um lado, e a ocasião propícia para iniciar um novo tempo na sua vida, um tempo de maior conformidade com a vontade de Deus, como ele próprio escreve nos seus apontamentos: “Completo hoje 20 anos. Passou por mim uma parte importante da vida, quem sabe até, se a maior parte dela? Que emprego tenho eu feito destes anos que Nosso Senhor me tem concedido? Ah! Eu devera tê-los empregado muito melhor do que tenho feito… Deus concedeu-mos para que eu amasse e o servisse, e eu, pelo contrário, tenho abusado do seu dom para ofendê-lo!… Perdão, ó meu Deus, por tal ingratidão! Ao menos que o novo ano de vida que para mim vai começar seja todo dedicado ao vosso santo serviço! Eu não sei o tempo que me resta de vida, mas seja ele qual for, eu quero consagrá-lo a Vós”. Consagração esta que o jovem Manuel Mendes da Conceição Santos concretizou nos seguintes propósitos: “1.º, consagrar o novo ano da minha vida ao Coração Dulcíssimo de Jesus, à minha querida Mãe Maria e ao Sr. São José; 2.º, procurar convencer-me do nada que é o mundo e pensar frequentes vezes na morte; 3.º, obedecer prontamente aos meus superiores e usar caridade com os companheiros; 4.º, evitar o dizer palavras em louvor próprio e atribuir a Deus todo o bem que em mim puder haver, pois que é verdadeiramente seu e não meu; 5.º, procurar crescer na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora e a São José; 6.º, esforçar-me por conseguir um verdadeiro espírito de sacrifício”.
Nos apontamentos relativos ao retiro preparatório da ordenação de subdiaconado que aconteceu em Roma, a 18 de dezembro de 1897, consciente da sua vocação e do passo importante que irá dar e que o levará ao sacerdócio, Manuel Mendes faz os seguintes propósitos, fazendo eco daqueles que faz para o ano de 1897, o qual consagra aos Corações de Jesus e Maria: “Eu coloco este ano sob a proteção do Coração dulcíssimo de Jesus e da Santíssimo Virgem, Mãe de Deus e minha Mãe e do Senhor São José, meu especial protetor. Eu o consagro à Sagrada Família e procurarei com o auxílio do meu Jesus pôr em prática os seguintes propósitos, poucos, para poder fazer alguma coisa: 1.º, procurar adquirir um amor terno e filial ao Coração dulcíssimo de Jesus e a sua Mãe Santíssima; 2.º, esforçar-me por adquirir a santa virtude da humildade; 3.º, não perder tempo”.
Há, porém, outros propósitos que foram sendo constantes nestes e noutros retiros mensais e que foram solidificando a vida deste jovem promissor da história da Igreja portuguesa e que poderíamos resumir em dois propósitos: 1.º, procurar ser mais humilde, usando de doçura para com os companheiros e abatimento do seu eu; 2.º, ter devoção terna e prática a Maria que, como se pode ler nas suas “Notas Íntimas” de 1925, passar por “ter por Ela alta estima, admirar as suas virtudes e prerrogativas, falar dela com sincero entusiasmo, inculcar aos outros que recorram a Ela mas, sobretudo, amá-la com amor filial e portanto espontâneo. Eis as caraterísticas que eu quero ver em mim”.

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10 – Ainda na cidade eterna

Roma, para Manuel Mendes, não foi apenas um lugar e um tempo de formação intelectual e de preparação para a missão que lhe havia de ser confiada, tanto na docência, como professor do Seminário de Santarém e da Guarda, como na vida pastoral, primeiro em Santarém, e depois na cidade da Guarda, em Portalegre e, por fim, em Évora. Acima de tudo, este jovem seminarista aproveitou este tempo como um tempo de graça e de crescimento espiritual. Fruto desta sua preocupação espiritual, são os apontamentos e os propósitos que retirava em cada retiro anual ou recoleção mensal e que chegaram até nós. Transcrevê-los é uma ocasião para conhecermos um pouco mais a vida interior deste jovem estudante de teologia e a sua forma de ser e de viver como sacerdote, Bispo de Portalegre e Arcebispo de Évora, e os pilares da sua devoção e, por conseguinte, da sua espiritualidade.
Em Setembro de 1896, com apenas 19 anos, Manuel Mendes faz quatro propósitos para esse mês muito sucintos: “1.º Não me gabar nem procurar ser gabado, especialmente quanto a coisas espirituais; 2.º Fazer alguma mortificação, ao menos interna; 3.º Preparar-me atentamente para a Santa Comunhão e não deixar jamais uma recolhida ação de graças; 4.º Atender bem à meditação; 5.º Não murmurar”.
No mês seguinte vai esforçar-se para adquirir as graças da castidade, da humildade e da alegria. Para tal, faz os seguintes propósitos: “procurar despertar em mim uma profunda contrição dos meus pecados e fazer frequentes atos de contrição perfeita; suplicar instantemente ao Coração Dulcíssimo de Jesus, a Sua Santíssima Mãe, ao meu especial protetor, o Senhor São José, e ao glorioso São Luís Gonzaga, a graça da Santa castidade, que é tão necessária a todos, mas especialmente àqueles que se sentem chamados ao estado sacerdotal. Oh! A castidade! Ela nos torna émulos dos anjos e nos aproxima do trono de Deus! Estar sempre, com o auxílio de Deus, preparado para combater o demónio da impureza, o qual nunca descansa, mas sempre procura atacar-nos. Mortificar, portanto, os sentidos (ainda com respeito a coisas lícitas), a curiosidade, etc…”; “procurar compenetrar-me bem do meu nada e alcançar a santa e indispensável virtude da humildade. Deus resiste aos soberbos e desampara-os, mas enche de graças aos humildes. Para chegar a conseguir esta virtude é necessário orar, orar e depois orar, orar sempre. É um dom de Deus que só se obtém com oração e oração perseverante.” Por fim, “procurar adornar agora, na minha juventude, a minha alma com a doce beleza da graça, com a alegria e paz do Senhor e com uma santa generosidade. Para isso: 1.º, fugir de todo o pecado, ainda que venial. Note-se bem ainda venial, porque o pecado venial deliberado é a maior desgraça que possa acontecer depois do pecado mortal; 2.º, fugir da ociosidade e, por isso, estudar com afinco, não por mesquinhos fins terrenos, mas para uma maior glória de Deus”.

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9 – Na Cidade Eterna

O jovem seminarista Manuel Mendes da Conceição Santos, quatro dias depois de iniciar a sua viagem e do presente de Nossa Senhora, que foram as 28 horas em Lourdes, finalmente chega a Roma, à cidade Eterna, para ali continuar os seus estudos teológicos, iniciados no Seminário de Santarém, contrariamente àquela que era a vontade dos seus superiores, mas que não pôde ser vivida de forma diferente, por causa da fragilidade da sua saúde.
Chegado a Roma, vai até ao Seminário Pontifício Romano, a sua casa durante os três anos seguintes, a fim de frequentar a faculdade de Teologia e terminar os seus estudos teológicos, obtendo o grau de doutor no fim do ano letivo de 1897-1898, em Teologia e em Letras Latinas, pelo Instituto Leão XIII. Com a bagagem e os dois cursos, trouxe ainda para Portugal um apreciável conhecimento em espanhol, italiano, inglês, francês e alemão, além do grego, do árabe e do hebraico. Porém, o mais importante que trouxe na sua bagagem foi o amor incondicional à Santa Igreja e ao Santo Padre e “uma consciência cristalina e pura numa alma a arder em anelos de apóstolo”, como escreve o seu grande biógrafo, Dom Francisco Maria da Silva, na obra “Alma do Arcebispo Apóstolo”.
Apesar da sua extraordinária inteligência e astúcia intelectual, o que mais marcou os condiscípulos de Manuel Mendes da Conceição Santos foi a sua extrema bondade e a profunda simplicidade e modéstia, alicerçada na sua vida e numa sólida cultura. Dom João Evangelista Sousa Vidal apresenta-nos Manuel Mendes da seguinte forma: “Pouco mais ele era então do que uma viva e graciosa criança, com aquela estrela branca que lhe ria e brilhava na testa, com as duas luzes acesas dos olhos, com os ss a sibilar nos lábios, com o seu todo de Menino Jesus no meio dos doutores da Lei a fazer-lhe perguntas e a comentar as respostas.
Ele não era como qualquer um de nós. Não lhe pareciam interessar grande coisa as infinitas flores do jardim, a sucessão dos famosos italianos consagrados no bronze e no mármore ao longo das avenidas do parque, nem os dois irmãos Caioli no seu pedestal de heroica bravura, nem a Mãe de Moisés com o berço do seu menino à beira do Nilo, nem mesmo o esplêndido panorama de Roma a estender-se dali com as suas trezentas maravilhosas cúpulas, com as suas incomparáveis ruínas, com a luz, própria e única da sua história!
O que quase por completo parecia encher aquele pequenino predestinado crânio era a compreensão e a dor dos males religiosos da Pátria e, diante desse lastimoso quadro, a organização do futuro. Esse jovem Manuel tomava já os caminhos de cursor do ressurgimento religioso, social, cultural, académico, que, mais tarde, sob a sua poderosa e indefetível mão de chefe, havia de tomar entre nós formas tão belas, tão cheias de esperança e de encanto”.
Compreendemos, pois, que Manuel Mendes bem aproveitou o tempo para a sua formação intelectual com o intuito de, como veremos em grandes e difíceis momentos da história de Portugal, da Igreja e do servo de Deus, mais e melhor servir e defender a fé católica e os valores cristãos, formando leigos conscientes, crentes e militantes.
A 4 de Maio de 1898, Manuel Mendes termina o doutoramento em Teologia e regressa imediatamente a Portugal, sem ter recebido as ordenações de Diácono e de Presbítero. Vem ainda formado em Línguas clássicas e com bastantes conhecimentos em outras várias línguas.

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8 – Encontro com a Mãe

O dia 23 de outubro de 1895 fica marcado para sempre na vida do jovem seminarista Manuel Mendes da Conceição Santos. Indo ele a caminho de Roma para continuar os seus estudos, com os seus medos, as suas inseguranças, a responsabilidade de representar um país e os seus futuros sacerdotes no centro da Cristandade, passados os Pirenéus e entrando em França, ele encontrou a Mãe, Nossa Senhora de Lourdes. Aquele encontro foi tão importante que para sempre marcou a sua vida.
Mais uma vez, vamos ao seu caderninho de apontamentos ou diário de bordo e transcrever o que se refere às curtas 28 horas em que Manuel Mendes se encontra com a Mãe e com o seu solar, em Lourdes.
«Erguiam-se, diante de nós, majestosamente, os Pirenéus coroados de nuvens, e ao nosso lado estendiam-se vastas campinas onde se notavam os benéficos efeitos da drenagem. Havíamos passado a estação de Mouthant-Betharram quando, pouco depois, os Pirenéus nos apresentaram um espetáculo inteiramente novo e cheio de atrativos. Um grande crucifixo coroava a montanha e mais abaixo erguia-se majestosa a Igreja de N.ª S.ª de Lourdes – espetáculo fascinador, sensação extraordinária. Os nossos corações apressam as pulsações e anelam pela ocasião solene de orarmos à Virgem nestes lugares que ela santificou com a sua presença.
Chegados à estação, dirigimo-nos à Igreja de N.ª S.ª de Lourdes. Ao entrarmos na igreja, que sublime espetáculo fomos encontrar! Que majestade!, que elevação de pensamento! – Centenas de bandeiras pendem da parte superior do edifício e as paredes estão literalmente cobertas de lápides comemorativas de graças e, em toda a extensão das naves, pendem inúmeros ex-votos, corações dourados e pequeninos quadros, tudo comemorando graças da Imaculada.
A igreja é majestosa, consta de três naves e tem numerosos altares e muitas estátuas. Predominam as da Virgem e do SS. Coração. Tem uma só torre sobre a porta principal, segundo o estilo francês. Lá ao fundo, sob um gracioso baldaquino simulando uma basílica, eleva-se uma estátua de Nossa Senhora de Lourdes em cuja honra são todas as magnificências que aqui se admiram. Orei por algum tempo neste templo bendito e depois desci à cripta onde tive a invejável felicidade de confessar-me e comungar. Aqui se dizem continuamente muitas missas e, em todas elas, há numerosas comunhões de homens e senhoras de todas as condições. Aqui as formas são pesadas e severas, convidando ao recolhimento, ao passo que as formas graciosas e arrojadas da igreja arrebatam a imaginação fazendo-a adejar pelos coros celestiais. Na cripta há um recolhimento difícil de imaginar; ali todos os lábios murmuram preces ferventes, todos os corações pulsam de amor, todos estão repassados de uma devoção que só santuários como este podem contemplar. Daqui passei à gruta: não sei nem posso explicar a comoção que se sente quando, depois de descer a ladeira que vai expirar nas margens do Gave se vê a gruta fragosa, a Imagem da Virgem alva de neve numa cavidade alpestre, dezenas de lumes ardendo continuamente, centenas, para não dizer milhares de muletas, talos e outros instrumentos próprios de doentes e, dentro da gruta e nas lajes da avenida, ajoelhada, uma multidão de crentes, uns derramando lágrimas, outros murmurando preces, outros beijando a gruta bendita.
Aqui um cristão necessariamente ajoelha, ora, suplica, agradece e sente-se preso a este lugar perfumado pelos suaves odores da presença de Maria. Aqui um ímpio arrepende-se, um ateu crê, um fatalista ora. Se há no mundo lugares que possam comparar-se com o Céu, é Lourdes um deles, ou antes, Lourdes é um vestíbulo, uma miniatura do Céu. Há ainda a Basílica do Rosário, soberba construção, onde a par da grandeza se admira a beleza das proporções e que deve ser esplêndida, quando concluídos os magníficos mosaicos das capelas. Já está concluído o do Nascimento do Menino Jesus, o qual engana a vista parecendo pintura finíssima. Visitei o Convento dos Missionários do Imaculado Coração a cujo superior fiquei sobremaneira obrigado.
Foi com a saudade no coração que me afastei destes Santos Lugares para seguir a viagem no dia 24, às 10 horas da manhã, depois de ter estado em Lourdes 28 horas que me pareceram poucos minutos. Lourdes é, por excelência, a Cidade da Virgem. Aqui chegou no dia 24, às 7 horas da manhã, uma peregrinação da Ordem Terceira de Pau, a qual, quando entrou, elevou à Virgem cânticos tão ferventes e tão harmoniosos que me pareciam hinos angelicais, entoados ao som das harpas dos Querubins. A igreja parecia-me um céu.
Disse adeus a Lourdes e, a par da saudade, levava na alma a esperança de que a Virgem me auxiliaria e escutaria meus rogos. Quem estiver desanimado, em Lourdes encontra necessariamente alento e esperança».
É longa a transcrição, mas não é certamente inútil. Por ela se compreende a profundidade da sua devoção a Nossa Senhora e o lugar que Lourdes ocupou no seu coração e na sua vida: foi lá que, não poucas vezes, foi como peregrino da Mãe de Deus, pedindo por si e pelos seus diocesanos; decisivas resoluções foram tomadas por ele naquele lugar, onde rezava horas seguidas em favor do governo e da Sua esposa, a Igreja de Évora, e a salvação das almas dos seus Diocesanos.
A confiança e o espírito filial para com Nossa Senhora não se ficou pelas suas peregrinações a Lourdes, mas com a vinda de Lourdes com o prelado eborense para o Paço Arquiepiscopal… quando se entrava, em seu tempo, na simplicíssima Capela do Paço, havia de se reparar que o vão de uma porta tinha sido aproveitado, por ele, para ali colocar uma minúscula reprodução da Gruta de Massabiele com uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes. E, mesmo ao lado, fizera colocar o seu genuflexório, como que Nossa Senhora lhe segredasse ao ombro o caminho por onde deveria conduzir a Igreja Diocesana que lhe tinha sido confiada. No quintal havia também uma Imagem da Virgem de Lourdes onde, não poucas vezes, foi visto a falar com Nossa Senhora e a desabafar as mágoas contidas do seu coração de Prelado.

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7 – Rumo à Cidade Eterna

Em virtude das suas excecionais qualidades morais e intelectuais, o Patriarca de Lisboa, o Cardeal Dom José Sebastião Neto, escolhe Manuel Mendes para ir completar, em Roma, a sua formação académica e ocupar um dos três lugares criados no Seminário Pontifício Romano (também denominado por Seminário do Papa), com a bolsa de estudos oferecida pelo Papa Leão XIII para os alunos provenientes do Patriarcado de Lisboa.
Quem conheceu de perto a sensibilidade da sua alma, o seu amor à família, a sua dedicação aos professores e aos colegas, o seu ardor patriótico e se apercebeu também da sua grande fé e amor à Santa Igreja, compreenderá que seria ele, um dos escolhidos para se formar em Roma…
Tudo estava preparado para que Manuel Mendes partisse em outubro de 1894, para iniciar os seus estudos em Roma, não fosse o problema de saúde que dele se apoderou. É ele próprio que escreve sobre isso no seu caderninho das contas: “Em outubro de 1894 vim para o Seminário no dia 1 para estudar alguma coisa de italiano e no dia 3 partir para Roma. No dia 3 adoeci e, ainda no Seminário, tomei 20 cápsulas de sulfato de quinino, meio litro e mais 700 gramas de limonada sulfúrica e um litro de limonada saturada de citrato de magnésio. No dia 27 do mesmo mês, parti para a minha casa onde se me agravou o estado de saúde e lá estive em tratamento até ao dia 11 de dezembro, em que voltei para o Seminário. No dia 12, apresentei-me aos professores que, de muito má vontade, me admitiram na aula, principalmente o Sr. Dr. Jerónimo”.
Porém, nada disto obsta a que, nesse mesmo ano, apesar das vicissitudes de saúde e da pouca vontade dos professores, tenha frequentado, com aproveitamento, o primeiro ano de teologia no Seminário Patriarcal, tendo partido para Roma, no ano seguinte, no dia 20 de outubro de 1895, a fim de frequentar a Universidade de Santo Apolinário, onde havia de doutorar-se em Teologia, em maio de 1898 e o Instituto fundado por Leão XIII, onde se diplomou em Letras Latinas, especializando-se em Grego, Hebraico e Árabe e aprofundado os seus estudos das “línguas vivas”, como italiano, castelhano, francês, inglês e alemão, sem nunca descurar a sua vida espiritual. Pelo contrário, a ela se entregava com todo o empenho, alicerçado em quatro grandes pilares: na coragem aprendida do Sagrado Coração de Jesus, na confiança em Nossa Senhora, e na devoção a São José e identificação com São Luís de Gonzaga, seu angélico protetor, pedindo-lhe que o fizesse um sacerdote santo.
A sua viagem para Roma inicia-se a 20 de outubro de 1895 e, com ele, vai o seu amor fiel ao Seminário de Santarém. Amor fiel que durou até ao fim da sua vida; “se eram para ele saudosas as paredes daquele glorioso Seminário, igualmente o eram companheiros e superiores; mais tarde, nunca passará por Santarém sem entrar nesse santuário para conviver por instantes com os mestres, os seus antigos condiscípulos. Nas suas festas mais importantes estará presente: no alargamento das instalações «reconquistadas», nas homenagens ao Venerando Reitor, etc…. Não só pela posição que ocupava na Igreja, mas ainda pelos laços do coração que o prendiam ao velho Seminário, ele era a mais alta glória do Seminário de Santarém”, como havia de escrever o Cardeal Cerejeira.
A bonita viagem que o jovem seminarista está a fazer até à Cidade de Roma vai sendo descrita no seu pequenino caderno de apontamentos: descreve as terras portuguesas e espanholas por onde vai passando na sua viagem de comboio, nota se as pessoas e os empregados são atenciosos e delicados, regista que aquela senhora vai a rezar o terço e fixa a hora exata da sua entrada em França e a impressão que os Pirenéus lhe causam, com surpreendente beleza das suas paisagens, até se deter, no dia 23 de outubro de 1895, em Lourdes, momento marcante da sua vida.

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6 – O Despertar Vocacional de Manuel Mendes da Conceição Santos

Quando a idade o permitiu, Manuel Mendes da Conceição Santos começou a aprender as letras, na sua terra natal e, aos 9 anos de idade, vai para casa do seu tio-avô, o Padre Joaquim Duque, humanista de grande saber, residente em Carvalhal da Aroeira, concelho de Torres Novas, onde se preparou para o exame da instrução primária. Mas a sua mente e o seu coração estavam muito mais à frente, estavam no mundo dos grandes clássicos latinos e no estudo sério e fecundo das línguas latina e portuguesa, desvalorizando aquilo que era essencial para o exame da instrução primária. Resultado: chumbou no exame. Porém, no ano seguinte, superou com distinção os exames de Instrução Elementar e Complementar.
Aos 14 anos, sentindo o chamamento ao sacerdócio, o jovem Manuel Mendes inicia a sua caminhada vocacional desejando, por isso, entrar no Seminário de Santarém, o que se ia tornar difícil, pelo facto de a sua família não ter posses económicas para pagar a sua formação naquele estabelecimento de ensino. O seu pai escreve ao Patriarca de Lisboa, pedindo que o seu filho entre no Seminário na categoria de aluno gratuito, carta esta escrita à mão por Manuel Mendes (pai) com data de 02 de agosto de 1890, na qual consta que “Manuel Mendes, casado com Maria da Conceição Mendes, atualmente residentes em Torres Novas, que tem um filho, por nome Manuel Mendes da Conceição Santos, que muito deseja seguir a vida eclesiástica e como não posso acorrer à sua educação, pela falta de meios como mostra pelos documentos, que junta, pede a Vossa Eminência se digne admiti-lo gratuito no seu piqueno Seminário”. A este pedido de seu pai, juntou-se uma carta de recomendação escrita e assinada por Padre José Marques Ventura, coadjutor de Torres Novas, a 31 de junho de 1890 na qual atesta que “Manuel Mendes da Conceição Santos tem sido e é de bons costumes e aptidão para a vida eclesiástica”. Do mesmo teor segue uma carta de Padre João Luciano Saraiva, endereçada ao Patriarca de Lisboa.
Tal pedido é aceite por D. José Sebastião Neto, sendo admitido no Seminário Patriarcal de Santarém a 11 de agosto de 1890.
Fruto dos seus estudos anteriores, “entrando para o Seminário com uma apreciável reserva de conhecimentos adquiridos no ensino doméstico, no fim do primeiro ano, em que fez quase todos os exames dos três primeiros anos do curso de preparatórios, foi classificado com notas muito honrosas e nos outros quatro anos com “Distinção”, “Accessit” ou “Prémio”. Nos exames de Francês e Filosofia foi aprovado com louvor e nos outros de preparatórios sempre com distinção, como nos descrevem os “Anais Torrejanos”.
Logo no começo foi considerado, por colegas e professores, como uma criança de invulgar talento e de uma inteligência precoce. Mas, crescendo em idade e sabedoria, Manuel Mendes cresce também em graça, sendo, por todos, considerado um jovem de virtuosa moralidade, destacando-se sempre pela candura do seu olhar e pela modéstia do seu viver, pela sua piedade despretensiosa e comunicativa, pela sua lhaneza e conversas sempre úteis e edificantes, pela ausência completa de orgulho, como testemunha Mons. Francisco Maria Félix, num depoimento a seu respeito.
As duas palavras que caraterizam o jovem seminarista, nesta fase da sua vida, são “talento” e “bondade”. “Poesia sem lira, nua como o coração, simples como a primeira palavra, sonhador como a noite, luminoso como o dia, rápido como o relâmpago, imenso como a extensão, Manuel Mendes era, sem dúvida, dos que atraíam sobre si, sem disso se aperceber, a atenção, o respeito e a simpatia dos companheiros”, aproveitando, cada momento, para mais se identificar com Cristo, que crescia em sabedoria, em estatura e em graça.

A Postulação


5 – Manuel Mendes e o seu irmão Joaquim

Do casamento de Manuel Mendes com Maria da Conceição nasceram sete filhos. Desses apenas sobreviveram dois rapazes: o Manuel Mendes e o Joaquim, que nasceu a 17 de fevereiro de 1878, cerca de dois anos depois do seu irmão Manuel. Manuel Mendes foi padre e o seu irmão Joaquim, à morte da sua mãe, era o escrivão de direito em Torres Novas. Do seu casamento com Maria Helena Mendes nasceram oito filhos. Tudo estaria preparado para uma vida longa e feliz, com uma grande família, um futuro profissional promissor, ainda que, na carta que o jovem sacerdote M. Mendes escreve a São Luiz Gonzaga, a 21 de junho de 1928, refira: “convertei o meu pobre irmão e fazei que ele seja bem sucedido, se assim for para glória de Deus e bem da sua alma. Fazei que ele deixe aquela cegueira que sabeis”. Mas, a 15 de agosto de 1922, com apenas 44 anos, veio a falecer, perdendo, desta forma, o padre Manuel Mendes o que lhe restava da sua mais “próxima” família, seu amigo e confidente, pois um com o outro partilhavam a vida, as alegrias, as preocupações, etc…
Com a morte de Joaquim Mendes, duas preocupações recaem sobre o seu irmão Manuel: a preocupação da família que deixou na terra e a preocupação pela alma de seu irmão.
No que se refere à preocupação da família, compreende-se que, tendo morrido Joaquim, Manuel, seu irmão, haveria de assumir a responsabilidade material e moral sobre a sua cunhada e os seus sobrinhos, revelando, desta forma, a sua sensibilidade humana e a forte personalidade sobrenatural. De facto, morto o irmão, recai sobre ele a missão de ser o amparo dos seus e fiador da sua fé. Cumpre sacrificadamente até ao fim, não só responsabilidades espirituais ou morais, mas também materiais, que não foram poucas. Basta pensarmos um pouco na personalidade de Manuel Mendes…
Mas a maior preocupação do Pe. Manuel Mendes era a salvação do seu irmão Joaquim. Por ele orava, fazia orar, pedia que orassem, oferecia missas pelo eterno descanso do seu irmão. Ao passarmos os olhos pelas agendas do Servo de Deus notamos que, no dia do aniversário da morte, a missa era oferecida pelo seu irmão Joaquim. Porém, há um aspeto curioso: até 1930, sempre escreve: “fazia hoje X meses (anos) que Nosso Senhor o chamou. Pobre irmão. Lembro-o tanto! Fiat!”. E em 1930, já está escrito: “Missa em ação de graças por dons concedidos a meu irmão que hoje [17 de Fevereiro] faria 52 anos e cuja salvação e entrada no céu me foi assegurada pela Madre Inês de Jesus, irmã de Santa Teresinha”. Tendo terminado as exclamações de aflição quanto à salvação do seu irmão, recebeu, assim acreditamos, a certeza espiritual da sua salvação.
Há, neste “capítulo” da vida de Manuel Mendes, um aspeto muito curioso, que importa realçar, o amor corresponsável pela sua família, não só em questões morais mas também materiais, pois muitos foram os sacrifícios monetários feitos por ele para que nada faltasse aos seus sobrinhos e à sua cunhada, muitas mortificações fez pelos do seu sangue, para que nada lhes faltasse ao corpo e à alma.

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4 – Manuel Mendes e seu pai

Do jovem Manuel Mendes da Conceição Santos pouco se sabe. Sabemos, sim, que o Sr. Manuel Mendes morreu cedo, com muito pouca idade, no dia 24 de março de 1906. Mas dele, como se refere Francisco Maria da Silva, “herdou o exemplo nobre de quem tudo sacrifica à palavra honrada. Empreiteiro de obras, viu um dia o seu nome comprometido. Foram-se os bens, mas a consciência nada perdeu da sua limpidez e serenidade”, o que revela, com tanta lucidez, a “têmpera austera e cristã”, que nunca fugiu às suas responsabilidades humanas, cristãs e familiares. De seu pai, dizia Manuel Mendes: “como em toda a sua vida, meu pai se dedicou à lavoura, entende ele que afora com as forças quebradas como tem e, apesar do regime que tem a seguir, deve ainda continuar na mesma faina. E note V. Ex.cia que meu pai não é de muitas medidas. Para tratar de fazendas esquece tudo, o estado melindroso da sua saúde, as horas de refeições, as precauções que deve tomar. Assim não é nada para admirar vê-lo às vezes encharcado em água e, como tem pouca agilidade, cai e chega à noite estafado e tão abatido que chega a inspirar cuidado. Se lhe digo que se deixe da lavoura e trate de si, que se contente com uns passeios pequenos pela vila (Torres Novas), responde que não pode ser, que ainda tem forças e que isto lhe dá vida”, a ponto de implorar de São Luiz de Gonzaga, a 21 de junho de 1899: “mudai o génio de meu pai”.
Este amor ao trabalho, esta tremenda força de vontade que fazia o pai esquecer tudo o resto que estava à sua volta, herdou-o o filho Manuel Mendes na totalidade. Quando estava em jogo a salvação das almas, o bem do próximo ou o bem da Igreja, o jovem Padre e depois Bispo Manuel Mendes da Conceição Santos nunca teve horas para descansar, para os lazeres ou mesmo para os tratamentos da sua saúde. Como diziam os seus colaboradores mais próximos entre si: “obedecerá ao médico, mas há-de morrer a trabalhar”. E, quando esses mesmos lhe tentavam pregar usando o mesmo tom que ele usava para seu pai, a necessidade do descanso, a sua resposta era sempre a mesma, tal como lemos nas biografias dos grandes santos: “Teremos tempo, tenho uma eternidade inteira para descansar e depois de mim virá outro arcebispo!”.
Terá sido – querendo nós imaginar – esta mesma firmeza de caráter, força interior e capacidade de sacrifício, que o jovem Manuel Mendes da Conceição Santos viu na vida de seu pai e que sentiu na mão que o conduziu até à escadaria solene do Seminário Patriarcal de Santarém, a 2 de agosto de 1890, data da sua entrada no Seminário. E a retribuição sentiu-a quando viu o seu filho neossacerdote a “subir os degraus do Altar para imolar o Cordeiro Imaculado. Dessa honra tivera consciência e, em sua humildade, a agradecia ao Omnipotente. Porém, se teve a graça de ver seu filho Padre, o mesmo não se pode dizer de ver o seu filho Bispo, pois o Sr. Manuel, seu pai, veio a morrer a 24 de março de 1906 e a ordenação episcopal só acontecerá dez anos depois, a 3 de maio de 1916. Quanta tristeza, quanta dor, quantas saudades… “Faz hoje 21 anos que ele faleceu. Que repouse em Deus, já que em vida tantos baldões sofreu… Como o tempo foge”. Tudo isto leva o Servo de Deus a escrever na sua agenda de 1924: “Que saudade recorda este aniversário! Que solidão em volta de mim, progressivamente agravada, desde esta separação! Bendito seja Deus por tudo! No céu nos juntaremos!”

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3 –  Manuel Mendes e sua Mãe

A mãe de D. Manuel Mendes da Conceição Santos, de nome Maria da Conceição Rodrigues Mendes, nasceu a 8 de dezembro de 1845, vindo a falecer a 28 de janeiro de 1918. Do casamento com Manuel Mendes, nasceram sete filhos, mas apenas dois sobreviveram: o Manuel e o Joaquim, levando-a a viver uma vida de profunda angústia, temendo pelo futuro dos seus filhos, unido ao sofrimento por ver a derrocada material da sua família, tendo de deixar a sua terra e a sua casa para procurar outro local para recomeçar a vida.
O segredo da sua vida estava na oração. Quem o contou foi, mais tarde, ela mesma a seu filho, já Bispo de Portalegre, em carta datada de 9 de setembro de 1916: “Dizes-me que no meio da tua tão espinhosa missão e de tanta responsabilidade, que vês mais claramente a proteção da nossa boa Mãe do Céu sobre ti: é verdade. Na Capela de Pé de Cão, diante da sua imagem e banhada em lágrimas, muitas vezes pedi que tomasse os meus filhos à sua conta e cuidasse deles como coisa sua; e, na verdade, é-nos bem visível a sua proteção. Oxalá lhe sejamos gratos”.
Se num primeiro momento a vida de Maria da Conceição se resumia em três palavras – Deus, marido e filhos –, num segundo momento apenas se resumia na palavra solidão, pois “tendo dado a Deus o que Deus lhe dera para acompanhá-la na última jornada da vida, satisfazia as amarguras das longas ausências e das rudes solidões da casa com a vivida esperança de que para mais altos e elevados destinos, para mais útil e vigoroso futuro o criara!… Os homens não compreendem este amor, mas Deus compreende-o! É que a mãe do Bispo sabe que não existe o hoje nem o amanhã, mas o sempre!”
Dom José do Patrocínio Dias, na carta que escreve a D. Manuel Mendes da Conceição Santos, por ocasião do primeiro mês da morte de Maria da Conceição, descreve-a como “uma das almas a quem melhor tenho visto representar no seu exterior a bondade de Nosso Senhor” e que esta bondade mostrou e ensinou ao seu amado filho.
Se os sentimentos desta mãe por seu filho são incontáveis, também o amor de Manuel Mendes é impossível descrever em tão pouco espaço e usando a linguagem humana… Escutamos o coração do servo de Deus falando de sua mãe, aquando do terrível sofrimento provocado pela sua partida: “São impenetráveis os juízos de Deus, mas uma voz íntima e suave me está segredando que o Senhor a levou sem tardança para junto de Si, pois para isso a esteve purificando no crisol da longa doença, durante a qual nunca ela murmurou da Providência, mas antes frequentes vezes fazia atos positivos de conformidade com a vontade divina. […] Estás junto daquele Deus que sempre amaste, não é assim? E lá não te lembras de mim e do Joaquim que chorava tão inconsolável junto do leito?” Ou no mesmo dia: “Verdadeira filha de São Francisco, não só pela profissão de Terceira, mas ainda pela humildade, pela austeridade e pela vida de mortificação […] O rosário que lhe pende do cordão e a medalha de Filha de Maria que lhe brilha sobre o peito inerte, estão ali a atestar como ela amou a Mãe Celeste. Foi, depois de Jesus, o seu amor e a sua grande esperança. Bastas vezes ela dizia que, ao ver-se sem meios para nos educar, nos entregava, a mim e a meu irmão, à Virgem Santíssima. A nossa mãe celeste ouviu a súplica e aceitou o encargo que lhe confiava a mãe da terra e tem velado por nós com um carinho excecional. É o caso de repetir, aplicando-a à minha querida finada: a descendência dos justos será abençoada… ou ainda: embora doente e confinada há muito num leito, a sua presença enchia a casa, o sabermos que ela estava ali dava-nos alento; e agora? […] E, contudo, uma ideia divinamente consoladora vem juntar-se a estas desoladoras considerações: parece que o ambiente está perfumado das suas virtudes, a recordação dos seus exemplos é um bálsamo reconfortante e uma esperança suavíssima nos dias que ela está junto de Deus. É a mão bondosa e paternal de Deus a suavizar a minha dor”.


2 – A infância de Manuel Mendes da Conceição Santos

Manuel Mendes da Conceição Santos nasceu a 13 de dezembro de 1876, numa localidade da freguesia de Olaia, denominada Pé de Cão, Concelho de Torres Novas, às 6 horas da tarde. Seu pai era Manuel Mendes, casado em primeiras núpcias com Maria dos Reis, da qual teve uma filha de nome Maria, falecida em tenra idade; dele se afirmava ter sido um homem de abastada fortuna, empreiteiro de obras, e que tudo perdeu por ter sido fiador de alguém pouco sério ao pagar o que devia, ficando reduzido a uma quase pobreza. E sua mãe era Maria da Conceição Rodrigues Mendes, casada em segundas núpcias com Manuel Mendes.
Neto paterno de Joaquim Mendes e de Justina Rosa Mendes e materno de Manuel Rodrigues dos Santos e Sebastiana Maria, foi batizado na Igreja Matriz de Olaia no dia 28 de Dezembro de 1876, tendo recebido, como Madrinha de batismo, Nossa Senhora do Ó.
Crescido num ambiente de profunda religiosidade, fomentado pela sua mãe, cujo segredo da sua vida era a fé e a oração, Manuel Mendes sempre impressionou os seus companheiros de escola e de vida, pelo seu “odor de inocência”, tantas vezes por ele pedida ao Senhor, como se pode ler ainda nos apontamentos do retiro que fizera aos 76 anos: “Senhor, fazei-me puro como um anjo”, graça esta que o Senhor lhe ia concedendo. De tal modo que, para os seus pares, sempre foi considerado um anjo e, por isso, teve lugar na pintura da Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz do Cartaxo.
Tendo havido a necessidade de vender a casa de Pé de Cão, Manuel Mendes deslocou-se com os pais e irmãos para os Soudos. E, aos nove anos, depois de aprendidas as primeiras letras, parte para Carvalhal da Aroeira, a fim de estudar Português e Latim com o seu tio-avô, o Padre Joaquim Gomes Duque, um humanista de grande saber. Dali foi para Torres Novas, onde frequentou uma escola particular a fim de se habilitar para o exame de instrução primária elementar, em que ficou reprovado, quando, ao tempo já lia correntemente os clássicos latinos.
E, no ano seguinte, faz os exames do elementar e do complementar, passando em ambos com distinção.
Porém, há um outro acontecimento que marca a sua vida e cujas agendas pessoais não poucas vezes fazem referência. Tinha Manuel Mendes 11 anos quando, a 3 de junho de 1888, fez a sua Primeira Comunhão, graça que tantas vezes agradece e pela qual oferece a Eucaristia que celebra. Por exemplo, em 1916 escreve: “Missa em honra de Nossa Senhora para que me faça fiel à graça da primeira comunhão”; em 1924, oferece a Eucaristia “em ação de graças pela minha 1.ª Comunhão e pelos que nela me acompanharam e para ela me prepararam”. E ainda em 1938 faz referência que oferece a eucaristia em “ação de graças pela primeira comunhão feita há cinquenta anos e por todos os benefícios que dela derivam”.
Podemos afirmar que estas foram as bases intelectuais e espirituais que fizeram dele um dos Bispos mais ilustres, sócio da Academia de Ciências e de quem Júlio Dantas escreveu: “Doutor pela Universidade romana de Santo Apolinário, latinista, helenista, espírito cultíssimo, escritor notável, o Senhor Dom Manuel Mendes impôs-se, sobretudo, à admiração dos contemporâneos como orador, pelo prestígio, pelo trabalho e pela autoridade da sua palavra.

 


1 – Que dizem de ti, Manuel Mendes da Conceição Santos?

Antes de sabermos quem é Manuel Mendes da Conceição Santos – e em jeito de introdução a esta nova rubrica do nosso jornal “A Defesa” – é importante sabermos o que dizem deste grande homem de Deus ao serviço dos seus irmãos, a partir das três palavras com que, em 1926, numa sessão solene realizada em Torres Novas, Alberto Dinis da Fonseca e Zuzarte de Mendonça resumiram a sua vida: fé, amor, otimismo.
O seu testemunho de verdadeiro discípulo missionário levou e continua a levar homens e mulheres a dizerem que: “Homens deste vulto, dum tal vulto, estimam-se, admiram-se, veneram-se, amam-se, imitam-se, seguem-se”.
“Português às direitas, seguro na fé, de rija têmpera, sacerdote modelar, Bispo comme il faut pelos seus talentos literários, pelas suas poderosas faculdades de trabalho, pelos títulos científicos que tem conquistado. É um dos mais esforçados obreiros dum Portugal maior, não conhecendo dificuldades nem temendo obstáculos para fortalecer a organização católica, que pode prestar, e há-de prestar, ao País, os mais assinalados serviços.
A sua vida, sempre esmaltada pela mais pura gema de trabalho é um exemplo, um alto e luminoso exemplo de honra, de aprumo e de bondade. E a sua bondade sente-se, não se define. Manifesta-se em tudo e por tudo: pela doçura, pela generosidade, pelo esquecimento de si próprio e por aquela disposição que o leva a não fazer mal a ninguém, nem mesmo àqueles que injustamente o ferem; é a bondade, a par de um diamantino carácter e de um cérebro privilegiado que dá, ao Senhor Arcebispo de Évora, no meio desta sociedade decadente, uma formidável força moral, que faz dele um varão forte e tenaz, sempre intrépido e calmo.
O seu nome, os seus sermões, os seus trabalhos em favor da Igreja são conhecidos de todo o país e no meio do enorme prestígio que o rodeia, conserva no coração tesouros de ternura, que só podem ser avaliados pelos que o conhecem intimamente. A forma do seu apostolado escandaliza talvez os homens de hoje; mas esse apostolado entusiasma quem ama a verdade. A sua inconfundível eloquência ergue-o muito acima da comum vulgaridade. No olhar adivinha-se-lhe a perspicácia e firmeza de pensamento.
Na fronte nobre e altiva, no olhar suave e penetrante, vê-se uma alma que olha a fito contra as flechas da injúria. A sua lealdade e a sua retidão desarmam os que porventura procurem embaí-lo com as travessuras da intriga e com as objeções de vil esperteza. Há, no seu semblante, a tranquilidade risonha de quem não sente na consciência nada que lhe anuvie”.
A sua grande divisa era “Coragem e Confiança”. Nada abalava a sua alma, nada fazia recuar aquela coragem que nascia da sua entrega, da sua total entrega ao Senhor, a Quem pedira como condição, “fosse a sua força e o seu amparo”; e o seu lema encontrou na jaculatória “Minha Mãe, Confiança Minha” a sua força e a sua âncora.
A partir deste preâmbulo, testemunho extraordinário de homens do tempo do Servo de Deus, será mais curioso conhecer a vida e a espiritualidade deste discípulo missionário em terras da planície alentejana: Manuel Mendes da Conceição Santos.

 

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