LUTA CONTRA A INDIFERENÇA E APELO À RESPONSABILIDADE SOCIAL EM PERÍODO DE PANDEMIA

Texto da Comissão Diocesana Justiça e Paz:

 

LUTA CONTRA A INDIFERENÇA E APELO À RESPONSABILIDADE SOCIAL EM PERÍODO DE PANDEMIA

 

É visível uma evolução no contexto inerente à pandemia resultante do novo coronavírus SARS-CoV-2 e responsável pela doença Covid-19. Numa primeira fase (entre março e setembro de 2020) pela sua imprevisibilidade, em termos de consequências e duração temporal, a sociedade reagiu com um enorme espírito de solidariedade e proximidade para com as pessoas carenciadas. Nesta segunda fase, contudo, a dádiva de entreajuda tem vindo a esbater-se no tempo, sendo presentemente notória uma grande indiferença em relação aos mais necessitados.

As causas do alheamento ou do desinteresse da nossa sociedade para com quem mais precisa são múltiplas. Certamente que na sua essência está o enfático discurso político sobre os efeitos da COVID-19 na saúde e na economia, secundarizando a componente social, a que se associa, a impotência sentida pelas instituições em geral e, em particular, as de solidariedade social, e a excessiva burocracia imposta no acesso aos diversos programas de ajuda. Sobre estas circunstâncias, acumula-se ainda o cansaço da população no combate à doença, a perda de familiares e amigos, os consecutivos confinamentos, a falta de visão estratégica dos decisores, o comodismo e a nossa anestesia face às carências alheias, assim como a incapacidade de prever o termo deste combate sem tréguas. Estes factos têm dificultado a vida de toda a comunidade, deixando-a exausta, sem saber o que fazer e com um claro decréscimo de esperança e proatividade.

A situação é ainda mais gravosa no caso concreto dos migrantes, na sua maioria oriundos de países da Ásia e do Leste europeu, que vivem e trabalham no Alentejo. São frequentemente trazidos por máfias que os exploram sem escrúpulos, a que se alia uma forma de vida diferente e um desconhecimento da língua e dos costumes. A conjunção destes fatores tem contribuído para que sejam os novos “escravos” dos tempos modernos, plenos de deveres e com poucos ou nenhuns direitos que garantam a sua integração e dignidade. O “vírus da indiferença” ainda é mais evidente no seu dia-a-dia, porque alguma população os encara com desapego e insensibilidade. Tratando-se, na sua generalidade, de pessoas sem família, a sua integração sociocultural é ainda mais difícil, sentindo-se igualmente desmotivados, inseguros e um alvo fácil de exploração laboral.

Tal como a sociedade civil, as instituições, nas quais a Igreja se inclui, como as empresas e os particulares anónimos, habitualmente dispostos a apoiar estes concidadãos, com uma visão positiva e atitude sensata, amplamente reconhecida pela comunidade em geral continuam a ter um papel fulcral para a resolução do problema, mas estão a chegar ao limite das suas capacidades. Como causa desta desmotivação podemos apontar, entre outras, a ausência de uma fiscalização rigorosa das entidades responsáveis, o oportunismo de gente sem princípios nem valores e a falta de apoio efetivo das instituições de carater nacional.

Na ausência de apoios institucionais concretos aos mais desprotegidos e marginalizados, é nosso dever apelar à responsabilidade e consciência individual de cada um de nós com especial enfoque para os cristãos que acabam de iniciar a sua Quaresma. Neste sentido, partindo do evangelho de Mateus (6, 1-6.16-18), procuremos pôr em prática os três pilares de uma quaresma responsável: o dom gratuito (a que se chamava esmola), a oração e o jejum. É curioso que Jesus comece pela esmola (o dom gratuito) que é um acto que nos leva a sair de nós mesmos, e tenha em vista ir ao encontro do outro e, neste caso, dos mais frágeis e necessitados, sem deixar de alertar para o risco de exibicionismo que seria de novo um fechar-se sobre si próprio. A experiência de intimidade com Deus, vivida na oração de contemplação do Seu rosto, purifica-nos de todo o egoísmo e indiferença e torna-nos aptos para estar e viver na presença de Deus e dos irmãos. Todavia, só depois de realizados os dois passos precedentes estamos em condições de realizar o terceiro, o jejum, na sinceridade de um comportamento correcto, de tal modo íntimo e interior, que não seja perceptível externamente. Todavia, este pilar fecha o círculo e leva-nos, de novo, ao início do processo de conversão, com a partilha com os mais débeis daquilo de que nos privámos com o jejum, o dom gratuito; e com ele se relança o processo: dom gratuito, oração e jejum, que se tornam, numa circularidade dinâmica, os instrumentos de uma conversão pessoal, que deve ser continuada no âmbito sagrado das relações fraternas.

Enquanto elementos da comunidade nacional, todavia, é nossa responsabilidade combater esta indiferença. Para isso, teremos que reiterar e exercer pressão nas instituições superiores e nacionais, no sentido da descentralização e auscultação das instituições/organizações de nível intermédio e inferior. As instâncias superiores, donde deriva o processo de decisão central, devem dar maior atenção aos organismos de nível inferior (onde se enquadram as autarquias, as juntas de freguesia, as organizações da sociedade civil e, naturalmente, a igreja), enquanto entidades conhecedoras e apoiantes das realidades regionais e locais. Apenas através da permuta de informação concreta e fiável, na sua credibilização e com o seu apoio, será possível combater e minimizar a pobreza envergonhada que grassa entre nós. Desta forma, melhor se poderá estabelecer uma relação de proximidade com as famílias e assim dimensionar as suas dificuldades.

Nesta linha de pensamento, como incentivo e forma de agitar as consciências, Sua Santidade o Papa Francisco, em 14 de fevereiro, de forma muito oportuna e pragmática, afirmava no Vaticano que é preciso deixar cair as “máscaras” que geram indiferença ao sofrimento. Convidava igualmente os católicos a imitar a “ternura” de Deus. Advertiu ainda que “para respeitar as regras de boa reputação e costumes sociais, muitas vezes silenciamos a dor ou usamos máscaras que a disfarçam. Para equilibrar os cálculos do nosso egoísmo ou as leis interiores dos nossos medos, não nos envolvemos muito no sofrimento dos outros”.

Nesta mesma ocasião, o Papa Francisco observava ainda acerca da terminologia que conotava Jesus como “transgressor” no seu gesto de cura de um leproso que “tocar com amor significa estabelecer uma relação, entrar em comunhão, envolver-se na vida do outro a ponto de compartilhar as suas feridas. Com este gesto, Jesus mostra que Deus, que não é indiferente, não se mantém a uma distância segura, pelo contrário, aproxima-se com compaixão e toca a nossa vida para curá-la, com ternura”.

Em síntese, dentro daquilo que é a esfera de influência da Igreja e a sua recomendável prudência, temos a consciência que se tem feito o que é possível neste contexto em prol dos mais desfavorecidos e, dos migrantes em dificuldades, em particular. Contudo tem esta comissão a perceção de que para dar um maior auxílio e visibilidade a este flagelo, há necessidade desta mesma Igreja ser mais proativa, mobilizadora e detentora de uma voz mais audível. Só assim se poderá conduzir a sociedade a reconsiderar e reponderar um novo modelo de vida que seja mais solidário, mais próximo, mais amigo, mais justo e mais fraterno.

 

Comissão Diocesana Justiça e Paz

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