Imaculada Conceição 2022: Homilias do Arcebispo de Évora

Neste dia 8 de Dezembro celebrou-se a solenidade de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal e da nossa Arquidiocese de Évora.

Vila Viçosa

Às 11h00, no Santuário da Padroeira, em Vila Viçosa, o Arcebispo de Évora presidiu à Eucaristia, cuja homilia, transcrevemos de seguida:

 

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA

Vila Viçosa,  08 de dezembro de 2022

 

1.Como ensinou o Papa Francisco na oração do Ângelus de 8 de dezembro de 2020, «A festa litúrgica de hoje celebra uma das maravilhas da história da salvação: a Imaculada Conceição da Virgem Maria. Ela também foi salva por Cristo, mas de uma forma extraordinária, porque Deus quis que desde o momento da conceção a mãe do seu Filho não fosse tocada pela miséria do pecado. E assim Maria, durante toda a sua vida terrena, foi livre de qualquer mancha de pecado, foi a «cheia de graça» (Lc 1, 28), como o anjo a chamou, e gozou de uma ação singular do Espírito Santo, para que pudesse manter sempre a sua relação perfeita com o seu Filho Jesus; de facto, foi a discípula de Jesus: a Mãe e a discípula. Mas o pecado não estava nela».

Aprofundamos este ensinamento do Santo Padre com S. Lucas através do Evangelho que acabamos de acolher com Fé. O Evangelista revela-nos que a anunciação é uma das múltiplas manifestações da fidelidade de Deus para com o povo. S. Lucas ressalta que Maria concebe Jesus pelo poder criador de Deus, pelo poder da sua palavra e pela ação do Espírito Santo, revelando a soberania divina que atribui ao ser humano uma dignidade profunda. Portanto, o nascimento virginal de Jesus, evidencia a gratuidade e a iniciativa de Deus, que inaugura a nova humanidade (cf. Jo 1,13), a nova criação em Cristo pela ação do Espírito, o qual faz brotar a vida onde isso seria impossível (cf. Ez 37, 12-14; Is 32, 15-17); além disso, revela, pelo mistério da encarnação, o amor gratuito e a proximidade de Deus, que se inclina para a humanidade desejosa do Messias, e reforça não só a filiação divina de Jesus, inserida na história (divindade/humanidade de Jesus), como também o sentido salvífico do seu nascimento. A anunciação está no coração do querigma pascal, pois indica que o Crucificado, o filho de Maria concebido pelo Espírito, é o Ressuscitado e o Santo (Cf. Lc 1, 35). Salienta, também, o carácter pneumatológico da virgindade de Maria, pois nela há a intervenção santificadora do Espírito, a qual marca o momento culminante da sua ação na História da Salvação. Maria é a concebida sem pecado original, com vista à sua missão de nos trazer o Verbo encarnado, o Emanuel, qual arca da Nova Aliança!

Continuando a seguir a catequese do Papa Francisco, percebemos que «No magnífico hino que abre a Carta aos Efésios (cf. 1, 3-6.11-12), São Paulo faz-nos compreender que todo o ser humano é criado por Deus para aquela plenitude de santidade, para aquela beleza com que Nossa Senhora foi revestida desde o início. A meta para a qual somos chamados é também para nós um dom de Deus, que – diz o Apóstolo – nos «escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados»(v. 4); predestinou-nos (cf. v. 5), em Cristo, para estarmos um dia totalmente livres do pecado. E esta é a graça, é gratuita, é um dom de Deus».

No dia 8 de dezembro de 2007, o Papa Bento XVI, após a recitação do Angelus comentou que, nesta festa solene,  recorda-se que «o mistério da graça de Deus envolveu desde o primeiro instante da sua existência à criatura destinada a converter-se na Mãe do Redentor, preservando-a do contágio com o pecado original. Ao contemplá-la, reconhecemos a altura e a beleza do projeto de Deus para cada ser humano: chegar a ser santos e imaculados no amor (Ef. 1,4), à imagem do nosso criador». Assim, esta Solenidade é para nós, filhos de Eva, um estímulo e a certeza de uma esperança de nos tornar-mos como Maria, a Primeira Discípula e nova Eva, novas criaturas e Humanidade Nova, à estatura de Cristo, o Redentor.

  1. Em Portugal a devoção popular a Nossa Senhora da Conceição é bastante antiga e interligada com a História de Portugal, sobretudo com os grandes acontecimentos decisivos para a independência e identidade nacional de Portugal. Aliás, nos primórdios da nação portuguesa, foi celebrada em Lisboa uma Missa Pontifical de Ação de Graças, em honra da Imaculada Conceição, após Lisboa ter sido conquistada aos mouros, em 1147, pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, que teve a ajuda dos Cruzados ingleses. Segundo uma tradição secular, na sequência da crise de 1383-1385 e após a vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota (1385), o Condestável D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria), mandou valorizar a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, e fez consagrar aquele templo católico a Nossa Senhora da Conceição. Para o efeito, ele encomendou em Inglaterra uma imagem de Nossa Senhora da Conceição para ser venerada nessa Igreja.

Após a Restauração da Independência de Portugal (1640) e em plena Guerra da Restauração, o Rei de Portugal, D. João IV, da Casa de Bragança e descendente de D. Nuno Álvares Pereira, jurou e proclamou solenemente, por provisão régia de 25 de março de 1646, que Nossa Senhora da Conceição seria a Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos, após parecer favorável das Cortes gerais de 1645-1646. Nesta provisão régia, que depois foi confirmada em 1671 pelo Papa Clemente X na bula papal Eximia dilectissimi, declarou-se que: “Estando ora juntos em Cortes com os três Estados do Reino (…) e nelas com parecer de todos, assentámos de tomar por padroeira de Nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição… e lhe ofereço de novo em meu nome e do Príncipe D. Teodósio meu sobre todos muito amado e prezado filho e de todos os meus descendentes, sucessores, Reinos, Senhorios e Vassalos à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta escudos de ouro em cada um ano em sinal de Tributo e Vassalagem: E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”.

 

Após a proclamação, D. João IV coroou a imagem de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, que, segundo a tradição, foi encomendada por D. Nuno Álvares Pereira. A partir de então, em sinal de reconhecimento de que Nossa Senhora é a verdadeira Rainha e Padroeira de Portugal, os reis subsequentes nunca mais colocaram a coroa real na sua cabeça, sendo que a coroa, em ocasiões solenes, era apenas posta sobre uma almofada, ao lado direito do rei.

A 8 de dezembro de 1854, Pio IX, na Bula Ineffabilis Deus, fez a definição oficial do dogma da Imaculada Conceição de Maria.

Em 1858, Bernadete Soubirous afirmou ter visto uma aparição que se autodenominou “Imaculada Conceição” na localidade de Lourdes, na diocese de Tarbes, em França.

Após a proclamação dogmática em 1854, desenvolveu-se em Portugal um movimento que apoiava a construção de um monumento nacional que comemorasse a proclamação feita por Pio IX. Em 1869, esse primeiro monumento foi erigido no Sameiro (Braga), o qual foi destruído, pensa-se que violentamente pelas forças anticatólicas. Posteriormente, no mesmo local, foi construído o grandioso santuário dedicado à Imaculada Conceição de Maria, cuja imagem foi coroada solenemente em 1904.

  1. Concluímos com uma bela meditação de Santo Anselmo, Arcebispo Primaz de Inglaterra, donde consta veio a imagem que aqui veneramos.

Interiorizemos as palavras do Doutor da Igreja:

«O céu, as estrelas, a terra, os rios, o dia e a noite, e tudo quanto está sujeito ao poder ou ao serviço dos homens se alegram, Senhora, porque, tendo perdido a sua antiga nobreza, foram em certo modo ressuscitados por meio de Ti e dotados de uma graça nova e inefável.

Deus, que criou todas as coisas, fez-Se a Si mesmo por meio de Maria. E deste modo refez tudo o que tinha feito. Ele, que pôde fazer todas as coisas do nada, não quis refazer sem Maria o que tinha sido arruinado pelo pecado original.

Por esta razão, Deus é o Pai das coisas criadas, e Maria a mãe das coisas recriadas. Deus é o Pai a quem se deve a constituição do mundo, e Maria a mãe a quem se deve a sua restauração. Pois Deus gerou Aquele por quem tudo foi feito, e Maria deu à luz Aquele por quem tudo foi salvo. Deus gerou Aquele fora do qual nada existe, e Maria deu à luz Aquele sem o qual nada subsiste. Verdadeiramente o Senhor está contigo, pois quis que toda a criatura reconhecesse que deve a Ti, com Ele, tão grande benefício».

Que em Tempo de Advento, esta Solenidade nos ajude a esperarmos com vigilância atenta a vinda do Senhor. Que Ele viva em nossos corações! Que a nossa vida o anuncie e testemunhe, inspirados no Sim de Maria.

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 


 

Neste dia 8 de Dezembro celebrou-se a solenidade de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal e da nossa Arquidiocese de Évora.

Évora

Às 17h00, na Catedral eborense, o Arcebispo de Évora presidiu à Eucaristia, cuja homilia, transcrevemos de seguida:

HOMILIA

SOLENIDADE DA IMACULADA COINCEIÇÃO DE MARIA

Évora,  08 de dezembro de 2022

 

  1. Com Isaías e João Batista, Maria é uma das figuras centrais do Advento. O mistério da sua “Imaculada Conceição” foi considerado verdade da fé em 1439, no Concílio de Basileia, sendo confirmado por Sisto IV, em 1477. Contudo, somente no dia 8 de dezembro de 1854 foi proclamado o dogma da Imaculada Conceição, por Pio IX, com a Bula Ineffabilis Deus. Atualmente, esse dogma deve ser compreendido no horizonte da teologia da graça, apoiado na certeza de que toda a iniciativa é de Deus, que age gratuitamente e por amor. No entanto, para que o projeto salvífico de Deus seja realizado, deve ser acolhido pela pessoa. O ser humano deve dar a sua resposta, como aconteceu com Maria. Por isso, Maria pode ser considerada imaculada, porque manteve a sua comunhão com Deus e com o outro, sendo guiada pelo Espírito. Celebrar a solenidade da Imaculada Conceição é celebrar o triunfo do amor, da graça, da bondade. Assim, do seio virginal de Maria surge a esperança da salvação e da vitória da vida.

O evangelho escolhido para esta solenidade descreve Maria como alguém que vive em Nazaré da Galileia, foi desposada por José, da casa de Davi, e é virgem. S. Lucas  não fornece nenhum outro dado para saciar a nossa possível curiosidade. Traz, porém, os elementos essenciais para situar essa mulher na história da salvação.

  1. Olhando em primeiro lugar para a localização, percebemos tratar-se de uma cidade desprezada, de uma região humilhada no passado, que será, porém, o lugar da manifestação da glória de Deus. Maria é uma mulher simples, uma israelita que espera a vinda do Messias. É uma mulher de fé, que confia na manifestação de Deus e na realização das suas promessas. O anjo Gabriel saúda-a com a expressão: “Alegra-te!” Como interpretá-la? Alguns comentadores afirmam que é uma saudação cordial, comum na época, mas com uma carga teológica significativa, visto ser expressão que abre todos os anúncios de salvação e de exultação diante da manifestação de Deus. Quando é pronunciada pelos profetas, como uma mensagem de Deus, é dirigida à filha de Sião. Maria fica perturbada, pois sabe que essa saudação anuncia a ação de Deus e a alegria messiânica, explicitada após a saudação do anjo. Ela tenta compreender, meditar, dialogar, dando ao mensageiro de Deus a oportunidade de revelar a missão do menino que irá nascer. Ele será o Messias e receberá o nome de Jesus, revelará a salvação de Deus para todos e reinará eternamente. Como acontecerá isso? Essa criança será concebida por meio da força vital do Espírito de Deus. Maria somente deve confiar nessa palavra de Deus anunciada, pois nenhuma palavra divina é ineficaz. Assim, ela dá o seu “sim”. Por meio desse “sim”, cumpre-se a promessa de Deus e é realizada a esperança do povo. Deste modo, Maria é identificada com o povo de Israel, com a filha de Sião que aguarda, com esperança, a libertação prometida pelo Senhor. Pelo seu “sim”, torna-se a representante de todo o povo de Israel, grávido pela graça de Deus e agraciado pela salvação.

Meus irmãos, o anúncio do nascimento de Jesus mostra-nos que Deus não atua sozinho. Ele toma a iniciativa, mas aguarda a resposta livre e gratuita da pessoa. Portanto, a narrativa enfatiza, por um lado, o caráter gratuito da salvação, que é pura graça, não envolve mérito humano, e, por outro, o respeito de Deus pela liberdade humana. Por meio do seu “sim”, Maria entrega-se totalmente a Deus, num abandono incondicional, na fé, aos desígnios divinos.

Maria, por conseguinte, é o modelo de todos aqueles que desejam estar totalmente disponíveis para servir o Reino de Deus, é o modelo da discípula atenta, é “imaculada” porque realizou aquilo que Deus sonhou para a humanidade: ser santa e irrepreensível, por sermos todos predestinados a ser amados e a amar, conforme veremos ao aprofundar a segunda leitura.

Concluamos com a nossa reflexão:

  1. Celebrar a Imaculada Conceição faz-nos refletir com o Livro do Genesis no sonho de Deus para cada ser humano, para a humanidade e desperta em nós o compromisso de assumir a nossa identidade e vocação de filhos de Deus, voltando-nos para o valor do dom da vida, conscientes de que somos predestinados, desde antes da criação, a amar e sermos amados.

Esta solenidade  leva-nos  ainda a refletir  sobre o sentido do pecado nas nossas vidas e nos nossos dias: não somente o pecado individual, que consiste na ruptura da relação com Deus e com o outro, expressa de diversas formas, mas também o pecado social, legitimador de determinado padrão de comportamento social que fere constantemente a dignidade humana. Assim, ao contemplarmos Maria como representante da esperança do seu povo, na qualidade de mulher de fé, de serva totalmente disponível a Deus, que possamos também avaliar o nosso modo de agir e perguntarmo-nos: somos testemunhas do louvor e da glória de Deus e da sua ação salvífica na nossa sociedade?

O Papa Francisco ajuda-nos ao compromisso com a mensagem desta Solenidade. Na sua reflexão do Ângelus do pretérito ano de 2021 a todos exortava:

«Peçamos a Nossa Senhora uma graça: que nos liberte da ideia enganadora de que o Evangelho é uma coisa e a vida é outra; que acenda em nós o entusiasmo para o ideal de santidade, que  é uma questão de viver cada dia o que nos acontece, humildes e jubilosos, como Nossa Senhora, livres de nós mesmos, com os olhos voltados para Deus e para o próximo que encontrarmos. Por favor, não desanimemos: o Senhor deu a todos nós um bom pano para tecer a santidade na nossa vida quotidiana! E quando somos assaltados pela dúvida de não sermos bem-sucedidos, ou pela tristeza de sermos inadequados, deixemo-nos fitar pelos “olhos misericordiosos” de Nossa Senhora, pois ninguém que tenha pedido a sua ajuda jamais foi abandonado», como reza São Bernardo de Claraval.

Que esta celebração avive o nosso compromisso de Advento: Esperança, vigilância, conversão, cuidado solidário e compromisso com o Amor de Deus, o Emanuel, levando-O em nós pelos caminhos das nossas vidas.

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

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