Monjas de Belém: Campo de Trabalho e Oração – Diário de uma procura

Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário

Família Monástica de Belém, da Assunção da Virgem e de São Bruno

 

Setembro de 2022

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Campo de Trabalho e Oração

Diário de uma procura

 

Sobre as planícies do Couço, escondido entre estradas de terra batida e sobreiros, imerso em silêncio e tocado pela simplicidade, existe um lugar mágico. Quinze jovens, acompanhados pelo Padre Paulo Araújo, aceitaram o convite de conhecer a felicidade de uma vida dedicada a amar Jesus. Dias de encontro e recolhimento, silêncio e música, descanso e trabalho, onde a cada momento se sentia a presença de Deus.

Que procuramos quando dedicamos os nossos dias de férias a um campo de trabalho e oração num Mosteiro? Que sede trazemos até um lugar de silêncio e contemplação? No Cristo Cigano de Sophia de Mello Breyner Andresen, a autora sintetiza um profundo desejo de encontro que ecoa em permanência nos nossos corações: “A noite abre os seus ângulos de luz / E em todas paredes te procuro / A noite ergue as suas esquinas azuis / E em todas as esquinas te procuro / A noite abre as suas praças solitárias / E em todas as solidões eu te procuro / Ao longo do rio a noite acende as suas luzes / Roxas verdes e azuis / Eu te procuro”. Eu te procuro, repetido uma e outra vez de diversas formas; um procuro que se manifesta nas solidões que tantas vezes nos afogam, na noite que esconde e revela através das suas luzes (e das suas aparências). Chegámos ao Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário sedentos de escutar uma voz que responda a uma procura incessante.

Decidimos aceitar o convite, sem o desejo de abandonar o mundo. Na verdade, tomámos conta do Mosteiro como de nossa casa, na sua fragilidade e aparente rotina. No Mosteiro, como em casa, é necessário lavar loiça, pintar paredes, arrumar móveis, pendurar candeeiros, ter paciência, escutar, cantar, rir e fazer silêncio. A excecionalidade da clausura, os seus ritmos e os seus gestos, tornou-se tão próxima que lhe pudemos tocar e esta, por sua vez, tocou-nos; aos poucos, como nas palavras de Simone Weil, subtilmente, sem nos apercebermos, apreciávamos a profunda beleza Cristã como uma beleza que alimenta.

Fomos acolhidos por três irmãs – trindade sorridente e carinhosa – que encarnavam as palavras de Daniel Faria, também monge e poeta, que não acreditava que cada um tenha o seu lugar, mas que é um lugar para os outros. De repente, o Mosteiro tornou-se o nosso lugar e, cada um de nós, um lugar para o Mosteiro. Nos nossos passos, na oração, na música, em tantos outros momentos, alimentávamos a procura que nos levou até àquele lugar. Tudo sentíamos de forma intensa e irrequieta – palavras que tantas vezes nos definem –, à medida que tomávamos consciência de uma verdade que por distração esquecemos, preenchidos pelo frenesim do trabalho e dos estudos: a presença de Deus nas nossas vidas. Na verdade, em tudo estávamos perante gestos de louvor; de um louvor fraterno e apaixonado como o de São Francisco de Assis – que de forma tão marcante embalou estes dias – transbordando de amor genuíno por tudo o que nos rodeia, do senhor irmão Sol, o qual faz o dia, da irmã Lua e das Estrelas, do irmão Vento, da irmã Água e da nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas e verduras.

O Padre Paulo dizia-nos que Jesus nos deseja uma vida plena e extraordinária, uma vida em abundância. Ao fazê-lo, ecoava o que tanto desejamos – viver em abundância. Como Pedro, queremos ganhar a coragem de saber responder ao pedido de Jesus que ouvimos no Evangelho: “Faz-te ao largo”. No Mosteiro encontrámos esse sim corajoso, que responde a Jesus e dá voz à nossa sede. Com efeito, a vida em abundância – do campo lexical de aventura, mudança, risco, encontro e santidade – fez-se presente no silêncio, na adoração e no sorriso das Monjas de Belém.

Diogo Costa Seixas (um participante do campo)

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