Comentário à Visita do Papa ao Iraque no contexto de uma reflexão à Ordem de Malta

No passado dia 8 do corrente mês, o senhor Arcebispo de Évora, D. Francisco José Senra Coelho, proferiu pelas 21.30 horas, uma reflexão quaresmal através dos meios digitais, aos membros da Assembleia Portuguesa dos Cavaleiros da Ordem de Malta. No espaço de diálogo foram colocadas várias questões, entre as quais, foi pedido um comentário à recente viagem do Papa Francisco ao Iraque. Pela actualidade do tema e pela pertinência da resposta, sintetizamos a reflexão do Prelado, que passamos a apresentar.

“Devemos ter em conta, que por natureza, todas as Religiões são construtoras da Paz de consciência e por consequência da Paz social e da Paz entre os Povos, aliás é por exemplo o significado do termo Islão, que significando “din”, ou seja “ modo de vida”, isto é “religião”, possui uma relação etimológica com outras palavras árabes como “salam”, ou “Shalam”, (Shalaam/Shalom) que significam Paz; bem como os topónimos Jerusalém (em Hebraico, cidade da Paz) e Cova da Iria (derivado do Grego, Eirene, Irene, que significa Paz). Assim, é de lamentar a violência justificada por motivos religiosos que levam à caricata e desvirtuada identificação das Religiões como causa de muitas guerras ao longo da História, chegando-se a afirmar em certos areópagos, que importa eliminar o obscurantismo religioso para bem da construção da Paz, identificando a Religião como inimiga da Paz e promotora de guerras. Isto é muito grave, quando absorvido de modo acrítico, por exemplo, pelas novas gerações no contexto escolar e académico.

É neste sentido, que o Papa inscreve a pedagogia dos seus diversos esforços e investimentos no capítulo do Diálogo Inter Religioso, incluindo a sua viagem ao Iraque. Foi claro quando afirmou num encontro inter-religioso em Ur dos Caldeus: ‘Deus é misericordioso e a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão. Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião.´ Ainda em Ur, afirmou com clareza que com toda a Humanidade, denuncia, rejeita e se desvincula de todos os actos de violência, ‘quando o terrorismo abusa da religião’.

O sinal dado pelo Papa Francisco com esta arriscada e sacrificada peregrinação pela Paz entre as Religiões e os Homens foi entendido, como sublinhou o chefe de Estado do Iraque, que elogiou a ‘grande mensagem de humanidade e solidariedade do Papa.(…) A sua presença, sinal de paz e amor, vai ficar para sempre nos corações de todos os iraquianos.'”

Quanto às críticas de alguns sectores internos da Igreja, mencionados pelo Papa na sua viagem de regresso a Roma, havendo quem veja as suas iniciativas do diálogo inter-religioso, como perigo de heresia, D. Francisco Senra Coelho lembrou que na longa História da Igreja, nunca nenhum Bispo de Roma foi herege, bem pelo contrário, até à liberdade da Igreja, em 311-313, contamos com Papas santos e mártires. E o que dizer dos Papas do século XX e XXI? Nestes contam-se já São Pio X, São João XXIII, São Paulo VI e São João Paulo II!

Sendo este um dos temas mais polémicos e, por isso, mais estudados e debatidos por historiadores católicos, ortodoxos e protestantes, sobretudo quando do contexto do Concílio Vaticano I (1869-1870), tornou-se consensual na História das Igrejas Ocidental e Oriental, esta ininterrupta ortodoxia da Fé nos Bispos de Roma e Sucessores de Pedro. As duas ou três dificuldades doutrinais acontecidas na História dos Papas, acabaram por ser esclarecidas pelos próprios Papas em vida, ou com a tortura e o martírio. Para o Arcebispo de Évora, a Igreja afere a sua fé com Pedro e por ele reza e jamais o julga ou condena como herege. A sua preocupação maior é com quem assim age e actua, implorando para esses Irmãos o dom da Luz, da Apostolicidade e da Catolicidade. O Arcebispo de Évora lembrando a distinção entre ortodoxia e ortopráxis, reconheceu a efectiva existência de muitos pecados na longa história do papado, não esquecendo o século X e as enormes dificuldades do papado durante o Renascimento, porém, na ortodoxia da fé até Alexandre VI, o Papa Borja, foi fiel.

Concluiu com um vigoroso apelo à unidade de oração com e pelo Papa Francisco, sublinhando que a última palavra não nos pertencerá, mas à História, pois certamente, só daqui a alguns anos perceberemos melhor o Papa Francisco em muitos dos seus gestos, enquanto instrumento do Espírito Santo.

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