Palavra do nosso Arcebispo: A Comunidade Cristã e o Luto

A Comunidade Cristã e o Luto

“Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo” (Jo. 11, 27)

 

Ao relermos os Atos dos Apóstolos, nos versículos 42 a 47 do capítulo 2, encontramos a descrição da vida da comunidade de Jerusalém, onde aparecem como elementos característicos a oração comunitária, a partilha dos bens e a união fraterna.

O espaço dessa realização comunitária era o culto, da qual faziam parte a fracção do pão, a Eucaristia, e as orações cristãs, ainda que muitos cristãos continuassem a frequentar o templo. Os Cristãos dessa Primeira Comunidade, viviam unidos de modo unânime, praticando a comunhão fraterna e a partilha dos bens. Deste modo, a comunidade de Jerusalém tornou-se icónica, ou seja, é tomada como exemplo para todos os crentes e para todas as igrejas.

Os discípulos de Jesus identificavam-se com o Mestre e procuravam viver segundo os seus ensinamentos e testemunhos de vida. Assim, e como podemos verificar na frequência com que é reproduzida, por exemplo na arte paleocristã das catacumbas, a ressurreição de Lázaro era assumida como metáfora da Vida Nova, recebida no batismo. Podemos concluir com as Comunidades Primitivas que Cristo vence a morte em cada um de nós, ou seja, tira vida da morte, libertando-nos dos diversos túmulos das nossas escravidões. Neste episódio da vida de Jesus e das catequeses batismais antigas, vê-se como é importante para os discípulos a atitude de partilha de vida e de comunhão de sentimentos, pela Caridade e pela Esperança, entre os discípulos do Rabi da Galileia. Assim, encontramos no diálogo entre Jesus e Maria, atitudes de conforto e consolação: “Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe “Senhor se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido”. Ao vê-la a chorar e aos judeus que a acompanhavam a chorar, também Jesus suspirou profundamente e comoveu-se. Depois perguntou: “Onde o pusestes”? Responderam-lhe: “Senhor, vem e verás”. Então Jesus começou a chorar. Diziam os Judeus: “Vede como era seu amigo”». Por este retrato tão pormenorizado destes momentos da vida de Cristo percebemos, como Ele nos deixa o testemunho do encontro com os que estão de luto e com eles compartilha a dor do sentimento de perca, de saudade e profunda mágoa.

Sem pretender fazer a exegese deste texto, sabemos como o Mestre apelou à Esperança confiante que brota da Fé. «Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?» Para além da proximidade, que Jesus assume, a sua profunda comunhão de sentimentos e partilha da mesma dor, para além da sua escuta e do seu sentir com os irmãos em provação, Ele anuncia e apela para a Esperança que nos vem da Fé e para a confiança em Deus. Sabemos que Jesus confirmou com a ressurreição de Lázaro a Fé de Marta, que previamente professou com transparência: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo». Jo. 11, 27

Neste contexto de Pandemia, a morte passou a fazer intensamente parte do nosso quotidiano, ampliada pela cultura mediática e pelas redes sociais em que nos encontramos imersos. Na realidade, como nos lembra o Papa Francisco, “a morte é uma experiência que diz respeito a todas as famílias, sem exceção alguma. Faz parte da vida; no entanto quando toca os afetos familiares, a morte nunca consegue parecer natural.” Se as possibilidades digitais nos proporcionam meios mais rápidos para manifestarmos a nossa presença e comunicarmos as nossas condolências, na verdade nem sempre nos tem aproximado e ajudado a criar maior humanização pela partilha de sentimentos e de vida, entre famílias e indivíduos. Muitas vezes, sabemos que o luto se vive em maior solidão e na ausência dos apoios humanos tão necessários nestes momentos da vida.

É nesta realidade, por vezes extremamente dolorosa, que a Comunidade Cristã, e precisamente por ser Comunidade Cristã, deve tornar-se presente, acompanhando os diversos momentos e passos próprios do luto de cada família e de cada pessoa, não só durante a celebração das exéquias e funeral, mas numa atenção e disponibilidade afetiva e efetiva. Isto requer proximidade e “gestos concretos de amor, sinceridade, equilíbrio e Fé.” Claro que é importante, sempre que possível, a presença acessível e próxima do Pároco, Diácono, ou de uma equipa pastoral preparada para estes encontros. Acreditamos que a presença sincera da amizade servirá de grande conforto e ajuda para superar a dor, evitando assim experiências agudas de desespero, depressão e até desistência da vida. Este serviço prestado pelas Paróquias e outras Comunidades Cristãs surgirá como testemunho profético, capaz de contrapor e iluminar cristãmente a globalização da indiferença e a vulgarização do alheamento individualista.

Sabemos, que fruto desta dura experiência pandémica, onde os números crescentes de mortes, repetidamente chegados pela comunicação social, a todos nos afeta e nos leva à dura luta pelo controle das infeções. Esta inimaginável realidade faz com que muitas vezes, nem sequer os membros da família tenham a oportunidade nos últimos momentos da vida se poderem despedir dos seus entes queridos, ou nem mesmo poderem participar serenamente, segundo a tradição da nossa cultura e da nossa Fé, na última homenagem funeral. Na realidade, verificámos como esta exigente impessoalidade, tem sido muito dolorosa e traumática na vida de muitas pessoas e famílias das nossas comunidades. Que o digam os Presbíteros e Diáconos que têm acompanhado funerais realizados nas circunstâncias descritas!

Convido pois, as Paróquias e demais Comunidades Cristãs a assumirem este apelo e a organizarem-se para concretizar tão urgente necessidade. Lembra-nos o Papa Francisco que nestas circunstâncias “a presença e o testemunho da Fé nos protege da visão niilista da morte, bem como das falsas consolações do mundo, de forma que a vida cristã ‘não se arrisca a misturar-se com mitologias de vários tipos, sabendo aos ritos da superstição, antiga ou moderna (Bento XVI, Ângelus, 2.11.2008). Hoje é necessário que os pastores e todos os cristãos exprimam de modo mais concreto o sentido da Fé nos confrontos da experiência familiar do luto”. (Catequese sobre o Luto na Família, 17 de junho de 2015)

A Igreja enquanto Mãe de coração aberto, e neste Ano Pastoral conduzido pelo desafio Discípulos Missionários da Esperança, pelo acolhimento e pela procura, no testemunho da frase “Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei” (Mt. 11,28), espera de nós gestos consoladores, à maneira de Jesus que com afeto soube consolar a viúva de Naim, Jairo, e as irmãs de lázaro. Que cada Comunidade seja o colo de Maria, que na esperança soube receber o seu Filho morto e ver n’Ele a semente de trigo que morreu para dar muito fruto.

Abraço todos os que vivem em processo de luto e abençoo em nome do Senhor e da Sua Igreja todos os que sabem ser testemunhos de Fé e instrumentos de consolação e afeto.

 

Évora, 2 de Fevereiro de 2021

+Francisco José,
Arcebispo de Évora

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