Palavra do nosso Arcebispo: Ministério ordenado do diaconado permanente

Foi há 40 anos que deu início em Portugal o ministério ordenado do diaconado permanente, por isso, a Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (CEVM) da Conferência Episcopal Portuguesa promoveu, no passado dia 1 de dezembro, uma jornada nacional lembrando “os 40 anos das primeiras ordenações de diáconos permanentes no nosso país”. Devido à pandemia Covid-19, a jornada realizou-se através das plataformas digitais, contando com a participação de 192 diáconos permanentes da Dioceses de Portugal. O Encontro teve início com a saudação de D. António Augusto Azevedo, presidente  da CEVM, o qual se referiu aos 40 anos da restauração do diaconado permanente em Portugal, focando “as dimensões essenciais do diaconado na perspectiva da Igreja sinodal”. 
A propósito deste acontecimento, o nosso Arcebispo emitiu a seguinte nota:

“Foi com o Motu ProprioSacrum Diaconatus Ordinem‘ de 18 de junho de 1967 que o Papa São Paulo VI promulgou a restauração do diaconado permanente na igreja latina, segundo a decisão tomada no Concílio Vaticano II. Nesta Carta Apostólica, encontramos a fundamentação neotestamentária para a instituição do ministério do diaconado nos primeiros tempos da comunidade apostólica de Jerusalém. Perante as necessidades dos órfãos e das viúvas, com todos os pobres, a parte helénica da comunidade primitiva apelou aos Apóstolos um serviço que lhe testemunhasse a dimensão do amor agápico que Nosso Senhor Jesus Cristo imprimiu à sua Igreja, desde os primeiros momentos, logo quando na última ceia lavou os pés aos discípulos e lhes ensinou que o soubessem fazer e o fizessem uns aos outros, pois o Mestre veio para servir e não ser servido e o discípulo não é maior do que o Mestre. Perante a solicitude dos mais pobres da Comunidade, os Apóstolos reuniram-se e instituíram o serviço da diaconia, chamando pelo próprio nome 7 discípulos a quem confiaram o ministério da caridade, ficando reservado aos Apóstolos o múnus da oração e da pregação (Actos 6, 1-6). Radicado neste mandato apostólico, a Ordem dos Diáconos desenvolveu-se e foi proeminente a sua missão no contexto da Igreja primitiva até à liberdade de Constantino nos anos 311 e 313 e durante toda a época da Igreja Antiga, quer no Império Romano no Ocidente, com o seu declínio no século V, com as chamadas invasões bárbaras; quer no Império Romano no Oriente, com a sua consumação no século VIII e posteriormente com as invasões islâmicas. Foi consequência destas duas decorrências, fruto de grandes mutações históricas, que o ministério diaconal foi gradualmente desaparecendo e ficando apenas como memória no contexto da formação presbiteral, como um degrau preparatório para a ordenação presbiteral.

Percebemos pela Didaqué, um documento antiquíssimo que coleciona as primitivas catequeses anunciadas aos catecúmenos; as primeiras orientações da celebração do Baptismo, ainda em água corrente (rios, ribeiros, lagos, mares); concluindo com indicações concretas sobre aspectos da vida cristã como por exemplo o jejum, o acolhimento aos peregrinos e a passagem de uma hierarquia itinerante e missionária para uma hierarquia autóctone e local. Esta recolha de documentos, redigida provavelmente por volta do ano 120, engloba textos dos anos 70 a 90.

No contexto da Didaqué, a hierarquia da Igreja era composta por quatro ministérios: o Apóstolo ou o Bispo, seu sucessor; os diáconos ou doutores (catequistas do catecumenado) e os evangelistas ou profetas (aqueles que sabiam ler e proclamar a Palavra da Sagrada Escritura). Como podemos perceber na época da Didaqué ainda não se refere o ministério de presbítero, que havia de aparecer proximamente, quando a comunidade urbana se expandiu para as aldeias rurais. Nesse contexto, o Bispo desmembrou o seu ministério, atribuindo aos presbíteros a missão de celebrar eucaristia e presidir às comunidades rurais.

Foi grande a visão de S. Paulo VI ao restituir à Igreja este ministério que a acompanhou desde a sua génese, nos primeiros momentos da vida das primitivas comunidades cristãs.

No contexto destas celebrações, D. José Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, e presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade, apresentou a obra “Os Diáconos da Igreja – fontes e documentos” (765 páginas). Uma edição do Secretariado Nacional da Liturgia, cuja recolha de textos, tradução e organização da obra é da responsabilidade do nosso muito estimado P. José de Leão Cordeiro, inspirado no livro “Nuovo Enchiridion sul diaconato“, de Enzo Petrolino (edição da Livraria Vaticana, 2016). Devido às condições de saúde do P. José de Leão Cordeiro, a edição da obra foi revista por João da Silva Peixoto.

A Arquidiocese de Évora agradece todo o trabalho efectuado pela Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios e à Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade, com o seu Secretariado Nacional da Liturgia, por estas iniciativas de enorme utilidade e grande alcance para as comunidades cristãs, para a descoberta e aprofundamento do ministério ordenado dos diáconos permanentes.

Conforme nos lembra o Concílio Vaticano II na sua constituição dogmática ‘Lumen Gentium‘, 29, “é próprio do diácono, na medida em que lhe for indicado pela competente autoridade, para ministrar solenemente o Baptismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir ao matrimónio e abençoá-lo em nome da Igreja, levar o Viático ao moribundos, ler a Sagrada Escritura aos fiéis, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, presidir aos ritos do funeral e da sepultura. Consagrando-se aos serviços da caridade e da administração, lembrem-se os diáconos da recomendação de S. Policarpo: “sede misericordiosos e diligentes, e caminhai na verdade do Senhor, que se fez servos de todos”.

Nesta efeméride, saúdo e felicito os 31 diáconos permanentes da nossa Arquidiocese, dando graças ao Senhor pela sua generosidade e dedicação, contribuindo para a causa da Evangelização nas nossas comunidades paroquiais, com seus grupos e movimentos.

Dou graças a Deus igualmente, e agradeço o apoio de suas esposas e demais família, como retaguarda verdadeiramente preciosa apoiam cada um dos nossos diáconos no cumprimento da sua missão, muitas vezes em situações exigentes e marcadas por grandes sacrifícios, para as quais as famílias contribuem com a sua disponibilidade, desprendimento e oração, prescindindo da companhia do diácono no seio da família, para que ele possa realizar o seu ministério no contexto das suas exigências.

Exorto a Comunidade Arquidiocesana a ter sempre presente na sua oração os nossos diáconos permanentes e a apreciarem e valorizarem esta vocação”.

Évora, 7 de dezembro de 2020

+ Francisco José
Arcebispo de Évora

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