Quinta-feira Santa, às 18h30: Ceia do Senhor e Adoração do Santíssimo na Catedral de Évora (com Homilia)

Nesta Quinta-feira Santa, dia 1 de abril, às 18h30, o Arcebispo, D. Francisco José Senra Coelho, presidiu à Eucaristia da Ceia do Senhor e Adoração do Santíssimo, na Catedral de Évora.

 


 

 

HOMILIA DA EUCARISTIA DA CEIA DO SENHOR

01-IV-2021

 

  1. A Quinta-Feira Santa é marcada por sinais de profunda entrega, realizados por Jesus. Todos eles procuram evidenciar que a vida só existe verdadeiramente quando nos damos e nos oferecemos livremente ao modo de Jesus Cristo.

«Tomai e comei, Isto é o Meu Corpo». «Tomai e bebei, Este é o Meu Sangue». Recordamos, neste dia, o modo pelo qual Jesus, com estas palavras, instituiu a Eucaristia e o Ministério Sacerdotal. A verdade é que Jesus, dando-se sem excepção, entrega-Se, de maneira distinta a cada um.

No entanto este é também o dia da memória do Lava-pés. Efectivamente, lavar os pés é aprender a viver a partir dos últimos, é um modo directo de traduzir que o primeiro será, simultaneamente, o último, e o último o primeiro.

É neste ambiente de tensão entre a luz e as Trevas que se dá, também, a traição de Judas e a prisão de Jesus no Monte das Oliveiras, a dispersão dos discípulos e a negação de Pedro. É desejo de todos nós, escolher a Luz.

Como sabemos o Cristianismo não é a recordação de um ausente, mas a contínua celebração de uma presença. Par tal motivo, os cristãos não dizem que Cristo viveu, mas que Cristo vive (cf. Act 25, 19). Aliás, ao longo do Seu ensinamento, Jesus Cristo foi preparando os discipulos para a perenidade da Sua presença no mundo, «até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20).

  1. Esta nova presença de Cristo Ressuscitado, através da Sua corporeidade eclesial, ocorre especialmente na Eucaristia «fazei isto em memória de mim», (1 Cor 11, 24; Lc 22, 19), do mandamento da Missão «ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho» (Mc 16, 15; Mt 28, 19) e do Mandamento do Amor «amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12; 13, 34).

Esta presença real de Cristo na realidade do mundo atinge o seu ápice na Eucaristia, porque é sobretudo na Eucaristia como nos diz a 2ª Leitura, que se realiza o que Ele mandou fazer em Sua memória: comer o pão (cf. 1 Cor 11, 23-24; Lc 22, 19) e beber do cálice (cf. 1 Cor 11, 25; Mc 14, 23; Mt 26, 27).

Sucede que este pão já não é pão: é o Corpo de Jesus Cristo: «isto, ou seja, o pão é o Meu Corpo, que será entregue por vós» (1Cor 11, 24; Mc 14, 22; Mt 26, 26; Lc 22, 19). Do mesmo modo, este cálice já não é cálice: é o Sangue de Jesus Cristo: «isto (ou seja, o cálice) é o Meu Sangue da aliança, que vai ser derramado por todos» (Mc 14, 24; 1 Cor 11, 25; Mt 26, 28; Lc 22, 20).

Das suas próprias palavras depreende-se que Jesus está realmente presente naquele pão e naquele cálice. Pelo que há uma mudança de substância em tal pão e tal cálice. Nestes, como reparou S. Paulo VI, «já não há o que havia anteriormente, mas outra coisa completamente diferente». Esta mudança de substância (transubstanciação) configura, ainda segundo o Papa Montini, «o maior dos milagres». São Cirilo de Jerusalém verbalizou com suprema precisão o que se passa: «Aquilo que parece pão não é pão, apesar do sabor que tem, mas sim o Corpo de Cristo; e o que parece vinho não é vinho, apesar de assim parecer ao gosto, mas sim o Sangue de Cristo». O que passamos a ter, como notou Santo Ambrósio de Milão, já não é o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou». Por conseguinte e como observa de novo S. Paulo VI, não nos devemos guiar «pelos sentidos, que testemunham as propriedades do pão e do vinho, mas sim pelas palavras de Cristo, que têm o poder de mudar, transformar e “transubstanciar” o pão e o vinho no Seu Corpo e Sangue». Isso significa que, na Eucaristia, Cristo vem até nós e nós vamos até Cristo.

Ao mandar comer o pão e beber o cálice em Sua memória (cf.1Cor 11, 24-25), Jesus está a admitir que a Ceia não termina naquela noite. A conversão do pão e do vinho no Corpo e Sangue do Senhor são possíveis porque – sublinha Karl Rahner – «a ceia não acabou». O que então se verificou nunca deixa de se verificar pois «insere-se no espaço e no tempo que são nossos». Daqui resulta que toda a realidade de Cristo «estará sempre eficazmente presente onde se realiza a Ceia». Xavier Zubiri, um existencialista cristão do século XX, apercebeu-se que na Eucaristia somos visitados pela «actualidade do pão feita actualidade de Cristo». Pelo que «o pão eucarístico é o Corpo de Cristo; é Cristo mesmo».

Cingindo-nos à celebração da Missa, é real a presença de Cristo na Palavra, no ministério ordenado do Sacerdote, na Assembleia Litúrgica convocada e reunida. A presença real de Cristo não é um exclusivo do Pão e do Vinho consagrados como se as outras presenças fossem irreais, mas acontece por excelência na Eucaristia. A presença real de Cristo na Eucaristia não é a única, mas – avisa o Catecismo – «o modo da presença de Cristo na Eucaristia é único». Trata-se de uma presença substancial dado que, ela, torna presente Cristo completo, o ressuscitado.

Experimentamos que a Igreja «vive da Eucaristia» porque vive de Cristo nela realmente presente. Para a Igreja, viver é sempre cristoviver. É em Cristo que se estabelece um estreitíssimo vínculo entre a Igreja e a Eucaristia.

Na continuidade de uma convicção muito antiga (retomada entre outros por Henri de Lubac e S. João Paulo II), dir-se-ia que «a Igreja faz a Eucaristia», porque sabe que «a Eucaristia faz a Igreja». A Igreja, ao celebrar a Eucaristia, celebra a presença real daquele que deu a vida por ela: o próprio Cristo (cf. Ef 5, 25). Dizer, por conseguinte, que a «Eucaristia faz a Igreja» é, no fundo, dizer que quem faz a Igreja é Cristo.  Se Cristo faz a Igreja entregando-Se por ela (cf. Ef 5, 25), então, ao fazer memória de Cristo, a Igreja na Eucaristia faz memória dessa entrega. Como assinalou o nosso Cardeal e Teólogo Português D. José Saraiva Martins «toda a existência de Cristo foi uma contínua oferta sacrificial ao Pai pela salvação que Ele lhe tinha confiado. Ela teve, portanto, do início até ao fim, um valor expiatório, meritório e redentor». A entrega na Cruz é, porém, o máximo de tal sacrifício redentor. E esta entrega não está destinada a cessar, durando até ao fim dos tempos. Jesus quis que o Dom de Si mesmo na Cruz continuasse na Eucaristia; que o sacrifício pascal prosseguisse sob as espécies sacramentais pão e vinho.

São João Paulo II teve o cuidado de chamar a atenção para esta presença da Ressurreição. Com efeito, a Eucaristia, no momento em que «actualiza o único e definitivo sacrifício de Cristo na Cruz», «torna presente o mistério da Sua Ressurreição». É o que os nossos lábios afirmam na aclamação depois da Consagração: Anunciamos Senhor, a Vossa Morte» e «Proclamamos a Vossa Ressurreição, Vinde Senhor Jesus».

Assim sendo, «quem se alimenta na Eucaristia não precisa de esperar o Além para receber a vida eterna: já a possui na terra. Como primícias da vida futura». O próprio Jesus garantiu: «Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a visa eterna» (Jo6, 54).

  1. Como não agradecer tanta dádiva e tamanho dom? Curiosamente a palavra Eucaristia expande a ideia de gratidão, acção de graças. De resto, a Ceia de Jesus foi já dominada pela centralidade da «acção de graças, seguida da partilha do pão».

Antes de partir e distribuir o Pão, que é o Seu Corpo, Ele «deu graças» (1Cor 11, 24), fazendo o mesmo com o cálice que é o Seu Sangue (cf. Mc 14, 23). E «deu graças» (euchsristésas) porquê? Porque ocorreu aquilo que há tanto tempo se esperava: a redenção daqueles que a Jesus tinham sido entregues pelo Pai. Celebrar a Eucaristia implica uma identificação com Cristo, Aquele que nos deixou o Mandamento Novo do Amor, da caridade e o exemplifica com o gesto forte e inequívoco do lava-pés: «Assim como Eu Fiz, fazei vós também», por isso a Eucaristia é indissociável do servir e do amar, dando a vida. A Vivência da Eucaristia é afinal indissociável do testemunho de cada dia.

  1. Em Quinta-Feira Santa ao celebrarmos a Ceia do Senhor, unidos ao Papa Francisco, não podemos esquecer o grande número de cristãos que, no mundo inteiro, em dois mil anos de história, resistiram até à morte para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar na eucaristia dominical. Como refere Francisco, numa das suas catequeses (15.012018), no ano de 304, durante as perseguições de Diocleciano, um grupo de cristãos, do Norte de África, foram surpreendidos a celebrar a Missa numa casa e foram aprisionados. O procônsul romano, no interrogatório, perguntou-lhes porque o fizeram, sabendo que era absolutamente proibido. Eles responderam: «Sem o domingo não podemos viver», que significava, se não podemos celebrar a Eucaristia, não podemos viver, a nossa vida cristã morreria. Com efeito, Jesus disse aos seus discípulos: se não comerdes a Carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu Sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a vida eterna, e eu o Ressuscitarei no último dia» (Jo 6, 53-54).

Aqueles Cristãos do Norte de África foram assassinados porque celebravam a Eucaristia. Deixaram o testemunho de que se pode renunciar à vida terrena pela Eucaristia, porque ela nos dá a vida eterna, tornando-nos participes da vitória de Cristo sobre a morte. Um testemunho que nos interpela a todos e exige uma resposta acerca do que significa para cada um de nós participar no Sacrifício da Missa e aproximarmo-nos da Mesa do Senhor.

A mesa é o lugar que reflete a verdade das relações e das circunstâncias. O espelho dos nossos códigos, das alianças e das indiferenças, das distracções e dos afectos desordenados. O espaço onde convivem ao mesmo tempo, transparência e ocultamento. Por isso, Jesus quer que nos sentemos frequentemente à mesa com Ele, para aprendermos o Seu surpreendente modo de viver e amar. Sempre que o contexto pandémico o permita, cumprindo rigorosamente todas as regras de segurança indicadas pela CEP, em conformidade com a DGS, regressemos à Eucaristia, a mesa e a fonte da paz. Um cristão ou cristã não pode viver à Luz da Fé sem a Eucaristia!

Caros irmãos e irmãs, lembremos e rezemos na Missa da Ceia do Senhor nesta Quinta-Feira Santa de 2021 também nós, ainda em circunstâncias de restrição e confinamento, por vários povos que rezam em português e vivem em grande sofrimento pandémico, como o Brasil, ou em grande violência como o país onde nasci. Moçambique, província de Cabo Delgado e Diocese de Pemba, antiga Diocese de Porto Amélia. Imploremos por toda a Igreja que sofre perseguição. Pelos irmãos que correm risco de vida, sempre que testemunham a sua identidade cristã. Que o direito à Liberdade Religiosa seja uma realidade em todas as nações e culturas. Rezemos pelo nosso país, para no cumprimento rigoroso das regras sanitárias e num ajustado e a todos acessível plano de vacinação, consigamos criar condições e estabilidade para a tão necessária recuperação económica, evitando maiores e mais graves consequências sociais. Neste momento e com os dados possíveis, o sucesso do desconfinamento depende e grande parte do êxito da vacinação. Este modo de estar responsavelmente e em cidadania proactiva com os outros e pelos outros também é do lava-pés.

Com Maria, Mãe da Igreja, aprendamos a perdoar e amar os que fugiram e abandonaram Seu Filho, e ao Apóstolo Pedro as suas negações. Como Cristo, a Igreja apaga o ódio com o amor.

 

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 


Reveja aqui a transmissão:


Évora: «A vida só existe verdadeiramente quando nos damos» – D. Francisco Senra Coelho

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